Capítulo 2
Na época em que esses acontecimentos ocorreram, regressava
eu de uma expedição científica nas inóspitas terras do Nebraska, nos Estados Unidos.
Quando cheguei a Nova Iorque para embarcar em um navio que me levasse para a
Europa, a controversa questão estava no auge.
A minha chegada, várias pessoas deram-me a honra de me
consultar sobre o fenômeno, em vista de uma obra que eu publicara na França, intitulada
“Os Mistérios dos Grandes Fundos Submarinos”. O acontecimento passara a preocupar
várias camadas da população americana, e os Estados Unidos foi o primeiro país
a adotar medidas enérgicas, em nível de governo, para esclarecer o mistério.
A fragata “Abraham Lincoln”, moderna e muito rápida, recebeu
ordens para se fazer ao mar o mais depressa possível, com esse objetivo. O Comandante
Farragut reforçou o armamento de seu navio e encheu de munição os seus
arsenais.
Como sempre acontece, quando se decidiu, a perseguição ao
monstro, ele desapareceu. Durante dois meses ninguém ouviu falar dele. A fragata
armada e abastecida para uma campanha demorada, não tinha para onde se dirigir.
A impaciência crescia a bordo entre oficiais e marinheiros, quando chegou a
notícia de que um vapor da linha de São Francisco da Califórnia tinha visto o
animal nos limites sententrionais do Pacífico. A sensação causada por essa
noticia foi grande. Os víveres continuavam a bordo, os depósitos de carvão
estavam cheios e todos os homens se encontravam em seus postos. Só faltava acender
as caldeiras da fragata e levantar ferro. Em menos de vinte e quatro horas o
Capitão Farragut fazia-se ao mar.
Três horas antes da “Abraham Lincoln” deixar o cais do
Brooklyn, recebi uma carta do secretário da Marinha J. B. Hobson, que em nome de
seu governo, convidava-me para representar a França participando daquela
expedição.
Capítulo 3
Três minutos depois de ter lido a carta do ilustre
secretário da Marinha, caçar aquele monstro inquietante e livrar os mares de
sua constante ameaça tornara-se o único objetivo de minha vida. A oportunidade
de participar daquela caçada me empolgou.
No entanto, eu estava cansado e precisando de repouso. O meu
maior desejo era rever o meu pais, os meus amigos, o meu pequeno apartamento do
Jardim Botânico, em Paris, as minhas preciosas coleções.
Mas nada me deteve. Esqueci tudo: fadigas, amigos, conforto,
e aceitei, sem mais reflexões, a oferta do governo americano.
- Conselho! - chamei com voz impaciente. Conselho era o meu
criado. Tratava-se de um rapaz dedicado que me acompanhava em todas as minhas
viagens, apto para todo o serviço e que, apesar do seu nome, nunca dava
conselhos mesmo quando não lhe eram pedidos. Era uma excelente e honesta
criatura.
- Conselho! - chamei-o de novo, começando os meus
preparativos para a viagem, com grande agitação - Prepare-se, meu rapaz,
partimos dentro de duas horas.
- Vamos para Paris? - perguntou ele.
- Sim... certamente... mas dando uma volta primeiro -
respondi.
- Daremos a volta que o senhor quiser - concordou o criado.
- Não será uma grande volta. Trata-se de um caminho menos
direto.
Vamos embarcar na “Abraham Lincoln”.
- Se é a sua decisão, para mim é a melhor, senhor – disse
ele.
- Vou lhe dizer a verdade, meu rapaz. Trata-se do monstro
marinho.
Vamos livrar os mares da sua presença. O autor de uma obra
importante, sobre os “Mistérios dos Grandes Fundos Submarinos”, não poderia deixar
de embarcar com o Capitão Farragut. Missão gloriosa, mas perigosa também. Não
sabemos para onde vamos. Esses animais são seres caprichosos. Mas, ainda assim,
vamos. Temos um comandante que não tem medo de nada.
- O que o senhor fizer eu também farei - disse ele.
Um quarto de hora depois as nossas malas estavam prontas. Em
poucos minutos chegávamos ao cais. As chaminés da “Abraham Lincoln” soltavam na
atmosfera torrentes de fumaça negra. Subimos a bordo e um dos marinheiros conduziu-nos
ao tombadilho. Conselho caminhou para a amurada e eu fui levado à presença de
um oficial de aspecto agradável, que me estendeu a mão:
- Sr. Pierre Aronnax? - perguntou-me.
- O próprio - respondi. - O Comandante Farragut?
- Em pessoa. Seja bem-vindo, Sr. Professor.
Após os cumprimentos de praxe deixei o capitão entregue ao
seu trabalho e me encaminhei para a cabina que me estava reservada. A arrumação
interior da fragata correspondia às suas qualidades náuticas.
Fiquei muito satisfeito com o meu alojamento, situado à ré e
comunicando-se com a sala dos oficiais. Deixei Conselho a arrumar
convenientemente as nossas coisas e subi à coberta a fim de assistir aos
preparativos da partida.
As oito horas da noite, navegávamos a todo vapor nas sombrias águas do Atlântico.

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