quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - Parte 1 - Capítulos 02 e 03

Capítulo 2

Na época em que esses acontecimentos ocorreram, regressava eu de uma expedição científica nas inóspitas terras do Nebraska, nos Estados Unidos. Quando cheguei a Nova Iorque para embarcar em um navio que me levasse para a Europa, a controversa questão estava no auge.

A minha chegada, várias pessoas deram-me a honra de me consultar sobre o fenômeno, em vista de uma obra que eu publicara na França, intitulada “Os Mistérios dos Grandes Fundos Submarinos”. O acontecimento passara a preocupar várias camadas da população americana, e os Estados Unidos foi o primeiro país a adotar medidas enérgicas, em nível de governo, para esclarecer o mistério.

A fragata “Abraham Lincoln”, moderna e muito rápida, recebeu ordens para se fazer ao mar o mais depressa possível, com esse objetivo. O Comandante Farragut reforçou o armamento de seu navio e encheu de munição os seus arsenais.

Como sempre acontece, quando se decidiu, a perseguição ao monstro, ele desapareceu. Durante dois meses ninguém ouviu falar dele. A fragata armada e abastecida para uma campanha demorada, não tinha para onde se dirigir. A impaciência crescia a bordo entre oficiais e marinheiros, quando chegou a notícia de que um vapor da linha de São Francisco da Califórnia tinha visto o animal nos limites sententrionais do Pacífico. A sensação causada por essa noticia foi grande. Os víveres continuavam a bordo, os depósitos de carvão estavam cheios e todos os homens se encontravam em seus postos. Só faltava acender as caldeiras da fragata e levantar ferro. Em menos de vinte e quatro horas o Capitão Farragut fazia-se ao mar.

Três horas antes da “Abraham Lincoln” deixar o cais do Brooklyn, recebi uma carta do secretário da Marinha J. B. Hobson, que em nome de seu governo, convidava-me para representar a França participando daquela expedição.

Capítulo 3

Três minutos depois de ter lido a carta do ilustre secretário da Marinha, caçar aquele monstro inquietante e livrar os mares de sua constante ameaça tornara-se o único objetivo de minha vida. A oportunidade de participar daquela caçada me empolgou.

No entanto, eu estava cansado e precisando de repouso. O meu maior desejo era rever o meu pais, os meus amigos, o meu pequeno apartamento do Jardim Botânico, em Paris, as minhas preciosas coleções.

Mas nada me deteve. Esqueci tudo: fadigas, amigos, conforto, e aceitei, sem mais reflexões, a oferta do governo americano.

- Conselho! - chamei com voz impaciente. Conselho era o meu criado. Tratava-se de um rapaz dedicado que me acompanhava em todas as minhas viagens, apto para todo o serviço e que, apesar do seu nome, nunca dava conselhos mesmo quando não lhe eram pedidos. Era uma excelente e honesta criatura.

- Conselho! - chamei-o de novo, começando os meus preparativos para a viagem, com grande agitação - Prepare-se, meu rapaz, partimos dentro de duas horas.

- Vamos para Paris? - perguntou ele.

- Sim... certamente... mas dando uma volta primeiro - respondi.

- Daremos a volta que o senhor quiser - concordou o criado.

- Não será uma grande volta. Trata-se de um caminho menos direto.

Vamos embarcar na “Abraham Lincoln”.

- Se é a sua decisão, para mim é a melhor, senhor – disse ele.

- Vou lhe dizer a verdade, meu rapaz. Trata-se do monstro marinho.

Vamos livrar os mares da sua presença. O autor de uma obra importante, sobre os “Mistérios dos Grandes Fundos Submarinos”, não poderia deixar de embarcar com o Capitão Farragut. Missão gloriosa, mas perigosa também. Não sabemos para onde vamos. Esses animais são seres caprichosos. Mas, ainda assim, vamos. Temos um comandante que não tem medo de nada.

- O que o senhor fizer eu também farei - disse ele.

Um quarto de hora depois as nossas malas estavam prontas. Em poucos minutos chegávamos ao cais. As chaminés da “Abraham Lincoln” soltavam na atmosfera torrentes de fumaça negra. Subimos a bordo e um dos marinheiros conduziu-nos ao tombadilho. Conselho caminhou para a amurada e eu fui levado à presença de um oficial de aspecto agradável, que me estendeu a mão:

- Sr. Pierre Aronnax? - perguntou-me.

- O próprio - respondi. - O Comandante Farragut?

- Em pessoa. Seja bem-vindo, Sr. Professor.

Após os cumprimentos de praxe deixei o capitão entregue ao seu trabalho e me encaminhei para a cabina que me estava reservada. A arrumação interior da fragata correspondia às suas qualidades náuticas.

Fiquei muito satisfeito com o meu alojamento, situado à ré e comunicando-se com a sala dos oficiais. Deixei Conselho a arrumar convenientemente as nossas coisas e subi à coberta a fim de assistir aos preparativos da partida.

As oito horas da noite, navegávamos a todo vapor nas sombrias águas do Atlântico. 

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS