quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 1 - Capítulo 11 ao 13


 Capitulo 11

O Capitão Nemo levantou-se e eu o segui.

Levou-me a visitar a sua fabulosa biblioteca. Em número de volumes era bem superior à que eu tinha em Paris e talvez o fosse também no conteúdo dos seus livros. Mostrou-me demoradamente sua coleção da fauna marinha, em uma enorme sala construída especialmente para esse fim. Era estupenda. Nenhum museu da Europa tinha uma coleção de espécimes marinhos igual à dele.

A certa altura de nosso passeio, eu disse a ele:

- Mas se esgoto a minha admiração por tudo de extraordinário que tem me mostrado, Capitão Nemo, que me restará para o navio que encerra todas essas maravilhas? Não posso penetrar nos segredos que lhe pertencem, mas confesso que este “Nautilus”, a força motriz que tem dentro de si, as máquinas que lhe permitem navegar, o agente poderoso que o anima, tudo isso excita muito mais a minha curiosidade. Vejo suspensos nessas paredes por onde temos passado, instrumentos cuja utilização me é desconhecida. Posso perguntar-lhe para que...

- Sr. Aronnax - interrompeu-me ele. - Disse-lhe que seria livre a bordo do meu navio e, por consequência, nenhuma parte do “Nautilus” lhe está vedada. Pode visitar o navio pormenorizadamente, e eu terei muito gosto em ser o seu guia.

- Não sei como lhe agradecer, mas não quero abusar de sua paciência.

Gostava apenas de saber para que servem esses instrumentos.

- Tenho outros iguais em meu quarto e é lá que terei muito gosto em lhe explicar a sua utilização. Mas antes venha visitar o camarote que lhe está destinado.

Conduziu-me para a proa, onde encontrei não um camarote mas um elegante quarto com uma cama, uma cômoda e outros móveis.

- O seu quarto é contíguo ao meu - disse-me ele, abrindo uma porta – e o meu dá para o salão que acabamos de deixar.

Convidou-me e eu entrei no seu quarto. Tinha um aspecto severo,

quase ascético. Uma cama de ferro, uma mesa de trabalho, alguns móveis, tudo simples, nada confortável. Apenas o estritamente necessário.

- Queira sentar-se - disse-me.

Capítulo 12

Aqui estão - começou a falar, apontando para os instrumentos suspensos nas paredes do quarto - os aparelhos necessários à navegação do “Nautilus”. Tanto aqui como no salão tenho-os sempre diante dos olhos, e indicam-me a minha posição e direção exatas no oceano.

Alguns lhe são familiares, tais como o termômetro, que dá a temperatura interior do barco; o barômetro, que mede a pressão atmosférica e prevê as mudanças de tempo; o higrômetro, que mede a umidade do ar; o stormglass, cuja mistura, quando se decompõe, anuncia tempestade; a bússola que dirige a rota; o sextante, que pela altura do sol me informa da latitude; os cronômetros, que me permitem calcular a longitude; e, finalmente, estes óculos de alcance para dia e noite, que servem para perscrutar o horizonte .quando subo à superfície.

- São os instrumentos comuns do navegador e conheço o seu uso - disse-lhe eu. - Mas estes outros aqui certamente respondem às exigências especiais do “Nautilus”. Este quadrante com um ponteiro móvel não é um manômetro?

- Na verdade, é um manômetro que posto em contato com a água indica a pressão exterior, fornecendo-me ao mesmo tempo a profundidade em que está o submarino.

- E estas sondas?

- São termométricas e indicam a temperatura das diversas camadas de água que vamos atravessando - E estes outros instrumentos aqui, cuja utilidade nem posso prever qual seja?

- Devo lhe dar uma explicação, professor - disse o Capitão Nemo. - Queira ter a bondade de me escutar.

Manteve-se em silêncio alguns instantes e prosseguiu - Existe um agente poderoso, obediente, rápido, manobrável para todos os fins, que é rei e senhor a bordo do meu submarino. Tudo é feito por ele. Ilumina, aquece, é a alma de todos os aparelhos: a eletricidade.

Sem ela eu nada teria conseguido.

- A eletricidade? - perguntei, surpreso.

- Sim, professor.

— No entanto, capitão, o seu barco possui uma extrema rapidez de movimentos que dificilmente se explica pela eletricidade. Pelo que sei, a sua força dinâmica permanece até hoje muito restrita, e só produziu forças reduzidas.

- A minha eletricidade, professor, não é a mesma do resto do mundo.

Mas a este respeito não posso lhe dizer mais nada. Basta saber que o mar me fornece os meios de produzir a minha eletricidade.

Desconversou o assunto, que me interessava profundamente, e passou a me mostrar outros instrumentos e a explicá-los.

- Repare neste relógio, professor. É elétrico e trabalha com uma regularidade que desafia os melhores cronômetros. Está dividido em vinte e quatro horas, como os relógios italianos, porque para mim não existe nem dia e nem noite, nem sol e nem lua, mas apenas esta luz artificial que arrasto até o fundo dos mares. Veja, neste momento são dez horas da manhã.

- Perfeitamente.

- Repare nesta outra aplicação da eletricidade: este quadrante serve para indicar a velocidade do “Nautilus”. Neste momento estamos nos movendo a quinze milhas por hora.

- É maravilhoso - observei - e vejo que descobriu como utilizar este agente, que num futuro próximo substituirá o vento, a água e até o vapor.

- Se quiser me acompanhar, visitaremos agora a ré do “Nautilus”.

Saiu e eu o segui através dos corredores. Chegamos ao centro do navio onde havia uma espécie de poço, que se abria entre dois tabiques estanques. Uma escada de ferro presa na parede conduzia à sua extremidade superior. Perguntei ao capitão para que servia aquela escada.

- Vai dar ao bote - informou-me.

- Como? Tem um bote? - indaguei, surpreso.

- Sem dúvida. Uma excelente embarcação ligeira, insubmersível, que serve para passear e pescar.

Passamos à casa das máquinas. Profusamente iluminada, devia medir pelo menos vinte metros de comprimento, e estava dividida em duas partes: a primeira encerrava os elementos que produziam a eletricidade e a segunda os mecanismos que transmitiam o movimento à hélice.

Como eu já esperava, demoramo-nos muito pouco ali.

Sempre conversando, eu me lembrei de um assunto que gostaria de ver esclarecido.

- A propósito, capitão, o choque do “Nautilus” com o “Escócia” teve muita repercussão. Foi um encontro ocasional?

- Puramente ocasional, professor. Eu navegava a dois metros abaixo do nível do mar quando se produziu o choque. Aliás, eu pude verificar que esse navio não sofreu danos graves.

- De fato, não. Mas quanto ao choque com a “Abraham Lincoln”?

- A fragata estava me atacando, professor. Tive de me defender. No entanto, limitei-me a deixá-la em condições de não continuar o ataque.

Não terá problema em reparar as suas avarias em qualquer porto.

- Ah! - exclamei com convicção - o seu “Nautilus” é realmente um barco maravilhoso.

- Sim, professor - confirmou ele, emocionado. - Amo-o como se fosse carne da minha carne! Se tudo é perigo a bordo de qualquer navio sujeito aos caprichos do oceano, se sobre o mar a primeira coisa que nos vem é a sensação do abismo, como tão bem disse o holandês Jansen, por baixo e a bordo do “Nautilus”, o coração do homem fiada tem a recear. Não há que temer um rombo, porque o duplo casco deste navio tem a rigidez do ferro; não há o perigo do carvão se esgotar, porque a eletricidade é o seu agente mecânico; não receia tempestades, porque a alguns metros de profundidade reina a mais absoluta tranquilidade. Aqui tem, professor, o navio por excelência.

O Capitão Nemo falava com irresistível eloquência. O fogo do seu olhar e a paixão dos seus gestos transfiguravam-no. Sim, ele gostava do navio como um pai gosta do filho.

Nesse momento, acudiu-me uma pergunta, talvez indiscreta, que não pude deixar de fazer.

engenheiro, Capitão Nemo?

- Sim, professor. Estudei em Londres, Paris e Nova Iorque no tempo em que era habitante dos continentes da terra

Capítulo 13

O oceano Pacífico estende-se de norte a sul, entre os dois círculos polares, e a leste e oeste, entre a Ásia e a América, numa extensão de cento e quarenta e cinco graus de longitude. É o mais tranquilo dos mares, com correntes largas e lentas, marés fracas e chuvas abundantes.

Era este o oceano que o destino me levava a percorrer nas mais estranhas condições.

- Vamos determinar exatamente a nossa posição, professor - disse-me o Capitão Nemo - e fixarmos o ponto de partida desta viagem. São onze horas e quarenta e cinco minutos. Vou manobrar para emergir.

Ele premiu três vezes uma campainha elétrica e as bombas começaram a expulsar a água dos reservatórios; o ponteiro do manômetro assinalou, pela pressão, o movimento ascensional do “Nautilus” e depois parou.

- Chegamos - disse o capitão.

Dirigi-me à escada central que conduzia à plataforma. Subi os degraus de metal e pelos alçapões abertos cheguei à parte superior do submarino. Munido do seu sextante o Capitão Nemo mediu a altura do sol, que lhe devia fornecer a latitude. Esperou alguns minutos para que o astro chegasse à linha do horizonte. Enquanto procedia a estas observações, nem um só músculo mexia em seu corpo, e o instrumento não estaria mais imóvel se fosse seguro por uma mão de mármore.

- É meio-dia - falou comigo. - Quando quiser...

Lancei um último olhar àquele mar amarelado, próximo de terras japonesas, e desci ao salão.

Ali, o capitão calculou cronometricamente a longitude, que verificou com observações procedentes dos ângulos solares. Depois disse-me:

- Sr. Aronnax, encontramo-nos a cento e trinta e sete graus e quinze minutos de longitude oeste. . .

- De que meridiano? - perguntei vivamente, esperando que a sua resposta talvez me indicasse a sua nacionalidade.

- Professor - respondeu-me - tenho cronômetros regulados pelos meridianos de Paris, de Greenwich, e de Washington. Em sua honra, vou servir-me do de Paris.

Esta resposta nada me revelou. Fiz um aceno com a cabeça e o capitão continuou:

- Trinta e sete graus e quinze minutos de longitude a oeste do meridiano de Paris e trinta graus e sete minutos de latitude norte, isto é, estamos a cerca de trezentas milhas das costas do Japão. Hoje, dia 8 de novembro ao meio-dia, iniciamos a nossa viagem de exploração submarina.

Que Deus nos proteja - falei.

- Agora, professor, peço-lhe licença para me retirar.

Cumprimentou-me e saiu. Fiquei só, absorto em meus pensamentos dirigidos para aquele estranho comandante. Descobriria um dia a que país pertencia aquele homem que se gabava de não pertencer a pais nenhum? Aquele ódio que ele votava à humanidade, aquele ódio que talvez procurasse uma vingança, quem o teria provocado? Seria ele um desses sábios desconhecidos, um desses gênios “aos quais se fez uma ofensa”?

Absorto em meus pensamentos, só me dei conta da entrada de meus dois companheiros quando Ned Land começou a me interrogar sobre a minha entrevista com o Capitão Nemo. Ele queria saber se eu tinha descoberto quem era o capitão, de onde vinha, para onde ia, para que profundezas nos arrastava.

Contei-lhe tudo o que eu sabia, ou antes, tudo o que não sabia. Por minha vez perguntei-lhe o que tinha podido observar.

- Nada. Não vi nada - respondeu-me. - Nem sequer vi a tripulação do navio. Será que também é elétrica?

- Elétrica?

- Estou tentado a pensar que sim. Mas o senhor não faz nem uma idéia de quantos homens há a bordo? Dez, cinquenta, cem?

- Não lhe sei informar, Land. Aliás, você deve abandonar, de momento, a idéia de se apoderar do “Nautilus” e fugir. Este navio é uma obra prima da indústria moderna e eu lamentaria perder a oportunidade de observá-lo à vontade. Muita gente aceitaria a situação em que nos encontramos só para poder passear no meio dessas maravilhas. Assim, mantenha-se calmo e tentemos ver o que se passa à nossa volta.

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS