O Capitão Nemo levantou-se e eu o segui.
Levou-me a visitar a sua fabulosa biblioteca. Em número de
volumes era bem superior à que eu tinha em Paris e talvez o fosse também no conteúdo
dos seus livros. Mostrou-me demoradamente sua coleção da fauna marinha, em uma
enorme sala construída especialmente para esse fim. Era estupenda. Nenhum museu
da Europa tinha uma coleção de espécimes marinhos igual à dele.
A certa altura de nosso passeio, eu disse a ele:
- Mas se esgoto a minha admiração por tudo de extraordinário
que tem me mostrado, Capitão Nemo, que me restará para o navio que encerra todas
essas maravilhas? Não posso penetrar nos segredos que lhe pertencem, mas
confesso que este “Nautilus”, a força motriz que tem dentro de si, as máquinas
que lhe permitem navegar, o agente poderoso que o anima, tudo isso excita muito
mais a minha curiosidade. Vejo suspensos nessas paredes por onde temos passado,
instrumentos cuja utilização me é desconhecida. Posso perguntar-lhe para que...
- Sr. Aronnax - interrompeu-me ele. - Disse-lhe que seria
livre a bordo do meu navio e, por consequência, nenhuma parte do “Nautilus” lhe
está vedada. Pode visitar o navio pormenorizadamente, e eu terei muito gosto em
ser o seu guia.
- Não sei como lhe agradecer, mas não quero abusar de sua
paciência.
Gostava apenas de saber para que servem esses instrumentos.
- Tenho outros iguais em meu quarto e é lá que terei muito
gosto em lhe explicar a sua utilização. Mas antes venha visitar o camarote que
lhe está destinado.
Conduziu-me para a proa, onde encontrei não um camarote mas
um elegante quarto com uma cama, uma cômoda e outros móveis.
- O seu quarto é contíguo ao meu - disse-me ele, abrindo uma
porta – e o meu dá para o salão que acabamos de deixar.
Convidou-me e eu entrei no seu quarto. Tinha um aspecto
severo,
quase ascético. Uma cama de ferro, uma mesa de trabalho,
alguns móveis, tudo simples, nada confortável. Apenas o estritamente
necessário.
- Queira sentar-se - disse-me.
Capítulo 12
Aqui estão - começou a falar, apontando para os instrumentos
suspensos nas paredes do quarto - os aparelhos necessários à navegação do
“Nautilus”. Tanto aqui como no salão tenho-os sempre diante dos olhos, e
indicam-me a minha posição e direção exatas no oceano.
Alguns lhe são familiares, tais como o termômetro, que dá a
temperatura interior do barco; o barômetro, que mede a pressão atmosférica e prevê
as mudanças de tempo; o higrômetro, que mede a umidade do ar; o stormglass,
cuja mistura, quando se decompõe, anuncia tempestade; a bússola que dirige a
rota; o sextante, que pela altura do sol me informa da latitude; os
cronômetros, que me permitem calcular a longitude; e, finalmente, estes óculos
de alcance para dia e noite, que servem para perscrutar o horizonte .quando
subo à superfície.
- São os instrumentos comuns do navegador e conheço o seu
uso - disse-lhe eu. - Mas estes outros aqui certamente respondem às exigências
especiais do “Nautilus”. Este quadrante com um ponteiro móvel não é um
manômetro?
- Na verdade, é um manômetro que posto em contato com a água
indica a pressão exterior, fornecendo-me ao mesmo tempo a profundidade em que
está o submarino.
- E estas sondas?
- São termométricas e indicam a temperatura das diversas
camadas de água que vamos atravessando - E estes outros instrumentos aqui, cuja
utilidade nem posso prever qual seja?
- Devo lhe dar uma explicação, professor - disse o Capitão
Nemo. - Queira ter a bondade de me escutar.
Manteve-se em silêncio alguns instantes e prosseguiu -
Existe um agente poderoso, obediente, rápido, manobrável para todos os fins,
que é rei e senhor a bordo do meu submarino. Tudo é feito por ele. Ilumina,
aquece, é a alma de todos os aparelhos: a eletricidade.
Sem ela eu nada teria conseguido.
- A eletricidade? - perguntei, surpreso.
- Sim, professor.
— No entanto, capitão, o seu barco possui uma extrema
rapidez de movimentos que dificilmente se explica pela eletricidade. Pelo que
sei, a sua força dinâmica permanece até hoje muito restrita, e só produziu forças
reduzidas.
- A minha eletricidade, professor, não é a mesma do resto do
mundo.
Mas a este respeito não posso lhe dizer mais nada. Basta
saber que o mar me fornece os meios de produzir a minha eletricidade.
Desconversou o assunto, que me interessava profundamente, e
passou a me mostrar outros instrumentos e a explicá-los.
- Repare neste relógio, professor. É elétrico e trabalha com
uma regularidade que desafia os melhores cronômetros. Está dividido em vinte e quatro
horas, como os relógios italianos, porque para mim não existe nem dia e nem
noite, nem sol e nem lua, mas apenas esta luz artificial que arrasto até o
fundo dos mares. Veja, neste momento são dez horas da manhã.
- Perfeitamente.
- Repare nesta outra aplicação da eletricidade: este quadrante
serve para indicar a velocidade do “Nautilus”. Neste momento estamos nos movendo
a quinze milhas por hora.
- É maravilhoso - observei - e vejo que descobriu como
utilizar este agente, que num futuro próximo substituirá o vento, a água e até
o vapor.
- Se quiser me acompanhar, visitaremos agora a ré do
“Nautilus”.
Saiu e eu o segui através dos corredores. Chegamos ao centro
do navio onde havia uma espécie de poço, que se abria entre dois tabiques estanques.
Uma escada de ferro presa na parede conduzia à sua extremidade superior.
Perguntei ao capitão para que servia aquela escada.
- Vai dar ao bote - informou-me.
- Como? Tem um bote? - indaguei, surpreso.
- Sem dúvida. Uma excelente embarcação ligeira,
insubmersível, que serve para passear e pescar.
Passamos à casa das máquinas. Profusamente iluminada, devia
medir pelo menos vinte metros de comprimento, e estava dividida em duas partes:
a primeira encerrava os elementos que produziam a eletricidade e a segunda os
mecanismos que transmitiam o movimento à hélice.
Como eu já esperava, demoramo-nos muito pouco ali.
Sempre conversando, eu me lembrei de um assunto que gostaria
de ver esclarecido.
- A propósito, capitão, o choque do “Nautilus” com o
“Escócia” teve muita repercussão. Foi um encontro ocasional?
- Puramente ocasional, professor. Eu navegava a dois metros
abaixo do nível do mar quando se produziu o choque. Aliás, eu pude verificar
que esse navio não sofreu danos graves.
- De fato, não. Mas quanto ao choque com a “Abraham
Lincoln”?
- A fragata estava me atacando, professor. Tive de me
defender. No entanto, limitei-me a deixá-la em condições de não continuar o
ataque.
Não terá problema em reparar as suas avarias em qualquer
porto.
- Ah! - exclamei com convicção - o seu “Nautilus” é
realmente um barco maravilhoso.
- Sim, professor - confirmou ele, emocionado. - Amo-o como
se fosse carne da minha carne! Se tudo é perigo a bordo de qualquer navio sujeito
aos caprichos do oceano, se sobre o mar a primeira coisa que nos vem é a
sensação do abismo, como tão bem disse o holandês Jansen, por baixo e a bordo
do “Nautilus”, o coração do homem fiada tem a recear. Não há que temer um
rombo, porque o duplo casco deste navio tem a rigidez do ferro; não há o perigo
do carvão se esgotar, porque a eletricidade é o seu agente mecânico; não receia
tempestades, porque a alguns metros de profundidade reina a mais absoluta tranquilidade.
Aqui tem, professor, o navio por excelência.
O Capitão Nemo falava com irresistível eloquência. O fogo do
seu olhar e a paixão dos seus gestos transfiguravam-no. Sim, ele gostava do navio
como um pai gosta do filho.
Nesse momento, acudiu-me uma pergunta, talvez indiscreta,
que não pude deixar de fazer.
engenheiro, Capitão Nemo?
- Sim, professor. Estudei em Londres, Paris e Nova Iorque no
tempo em que era habitante dos continentes da terra
Capítulo 13
O oceano Pacífico estende-se de norte a sul, entre os dois
círculos polares, e a leste e oeste, entre a Ásia e a América, numa extensão de
cento e quarenta e cinco graus de longitude. É o mais tranquilo dos mares, com
correntes largas e lentas, marés fracas e chuvas abundantes.
Era este o oceano que o destino me levava a percorrer nas
mais estranhas condições.
- Vamos determinar exatamente a nossa posição, professor -
disse-me o Capitão Nemo - e fixarmos o ponto de partida desta viagem. São onze
horas e quarenta e cinco minutos. Vou manobrar para emergir.
Ele premiu três vezes uma campainha elétrica e as bombas
começaram a expulsar a água dos reservatórios; o ponteiro do manômetro
assinalou, pela pressão, o movimento ascensional do “Nautilus” e depois parou.
- Chegamos - disse o capitão.
Dirigi-me à escada central que conduzia à plataforma. Subi
os degraus de metal e pelos alçapões abertos cheguei à parte superior do
submarino. Munido do seu sextante o Capitão Nemo mediu a altura do sol, que lhe
devia fornecer a latitude. Esperou alguns minutos para que o astro chegasse à
linha do horizonte. Enquanto procedia a estas observações, nem um só músculo
mexia em seu corpo, e o instrumento não estaria mais imóvel se fosse seguro por
uma mão de mármore.
- É meio-dia - falou comigo. - Quando quiser...
Lancei um último olhar àquele mar amarelado, próximo de
terras japonesas, e desci ao salão.
Ali, o capitão calculou cronometricamente a longitude, que
verificou com observações procedentes dos ângulos solares. Depois disse-me:
- Sr. Aronnax, encontramo-nos a cento e trinta e sete graus
e quinze minutos de longitude oeste. . .
- De que meridiano? - perguntei vivamente, esperando que a
sua resposta talvez me indicasse a sua nacionalidade.
- Professor - respondeu-me - tenho cronômetros regulados
pelos meridianos de Paris, de Greenwich, e de Washington. Em sua honra, vou
servir-me do de Paris.
Esta resposta nada me revelou. Fiz um aceno com a cabeça e o
capitão continuou:
- Trinta e sete graus e quinze minutos de longitude a oeste
do meridiano de Paris e trinta graus e sete minutos de latitude norte, isto é,
estamos a cerca de trezentas milhas das costas do Japão. Hoje, dia 8 de
novembro ao meio-dia, iniciamos a nossa viagem de exploração submarina.
Que Deus nos proteja - falei.
- Agora, professor, peço-lhe licença para me retirar.
Cumprimentou-me e saiu. Fiquei só, absorto em meus
pensamentos dirigidos para aquele estranho comandante. Descobriria um dia a que
país pertencia aquele homem que se gabava de não pertencer a pais nenhum?
Aquele ódio que ele votava à humanidade, aquele ódio que talvez procurasse uma
vingança, quem o teria provocado? Seria ele um desses sábios desconhecidos, um
desses gênios “aos quais se fez uma ofensa”?
Absorto em meus pensamentos, só me dei conta da entrada de
meus dois companheiros quando Ned Land começou a me interrogar sobre a minha
entrevista com o Capitão Nemo. Ele queria saber se eu tinha descoberto quem era
o capitão, de onde vinha, para onde ia, para que profundezas nos arrastava.
Contei-lhe tudo o que eu sabia, ou antes, tudo o que não
sabia. Por minha vez perguntei-lhe o que tinha podido observar.
- Nada. Não vi nada - respondeu-me. - Nem sequer vi a
tripulação do navio. Será que também é elétrica?
- Elétrica?
- Estou tentado a pensar que sim. Mas o senhor não faz nem
uma idéia de quantos homens há a bordo? Dez, cinquenta, cem?
- Não lhe sei informar, Land. Aliás, você deve abandonar, de momento, a idéia de se apoderar do “Nautilus” e fugir. Este navio é uma obra prima da indústria moderna e eu lamentaria perder a oportunidade de observá-lo à vontade. Muita gente aceitaria a situação em que nos encontramos só para poder passear no meio dessas maravilhas. Assim, mantenha-se calmo e tentemos ver o que se passa à nossa volta.

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