quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 1 - Capítulo 18

Capítulo 18

Esse horroroso espetáculo inaugurou a série de catástrofes marítimas que o “Nautilus” iria encontrar em sua rota. Desde que navegávamos por mares frequentados, víamos muitas vezes cascos naufragados que acabavam por apodrecer entre suas águas. A maior profundidade víamos canhões, balas, âncoras, correntes e mil outros objetos de ferro sendo devorados pela ferrugem.

Entretanto, sempre conduzidos pelo “Nautilus”, onde vivíamos isolados, avistamos, no dia 11 de dezembro, o Arquipélago Pomotu, antigo “grupo perigoso” de Bougainville. Esse arquipélago cobre uma superfície de trezentas e setenta léguas quadradas e é formado por sessenta grupos de ilhas, entre as quais se destaca o grupo Gambier, ao qual a França impôs o seu protetorado. Um crescimento lento mas contínuo dessas ilhas coralíneas, há de um dia ligá-las entre si. Depois, esta ilha irá unir-se aos arquipélagos vizinhos, e surgirá um quinto continente que se estenderá desde a Nova Zelândia e a Nova Caledônia até as ilhas Marquesas.

No dia em que expus esta minha teoria ao Capitão Nemo, ele me respondeu, friamente:

- Não é de novos continentes que a terra precisa, professor, mas de novos homens!

A 15 de dezembro deixamos para leste o encantador Arquipélago da Sociedade e a graciosa Taiti, rainha do Pacifico. De manhã avistei, a algumas milhas a sotavento, os cumes elevados desta ilha. As suas águas forneceram para a mesa de bordo excelentes peixes, tais como cavalas, bonitos, albacoras e algumas variedades de uma serpente do mar chamada “munérophis”.

O “Nautilus” já havia navegado oito mil e cem milhas. Nove mil setecentas e vinte milhas era o total percorrido quando passou entre o Arquipélago Tonga-Tabu, onde pereceram as equipagens do “Argo”,

do “Port-au-Prince” e do “Dulce of Portland”, e o Arquipélago dos Navegadores, onde foi morto o Capitão Langle, amigo de La Pérouse.

A seguir passou perto do Arquipélago Viti, onde os indígenas chacinaram os marinheiros do “Union” e o Capitão Bureau, de Nantes, comandante do “Aimable Joséphine”.

Esse arquipélago prolonga-se por uma extensão de cem léguas, de norte para o sul, e de noventa léguas de leste para oeste, e está compreendido entre 6° e 2° de latitude sul e 174° e 179° de longitude oeste. É composto por um certo número de ilhas, ilhotas e escolhos, entre os quais sé salientam as ilhas Viti-Levu, Vanua-Levu e Kandubon.

Foi Tasman quem descobriu o arquipélago, em 1643, o mesmo ano em que Torricelli inventava o barômetro e Luís XIV subia ao trono da França. Qual desses acontecimentos foi mais útil à humanidade? Vieram a seguir: Cook, em 1714, d’Entrecasteaux, em 1793, e finalmente Dumont d’Urville, em 1827, que decifrou todo o caos geográfico do arquipélago. O “Nautilus” aproximou-se da Baía de Wailea, cenário das terríveis aventuras do Capitão Dillon, o primeiro homem que conseguiu esclarecer o mistério do naufrágio de La Pérouse.

No dia 25 de dezembro, navegava o “Nautilus” no meio do arquipélago das Novas Hébridas, que Queirós descobriu em 1606, que Bougainville explorou em 1768 e ao qual Cook deu, em 1773, o nome atual.

Era dia de Natal. Ned Land lamentou que não se celebrasse, a bordo do “Nautilus”, o Christmas, verdadeira festa de família pela qual os protestantes têm muito respeito.

Há oito dias eu não via o Capitão Nemo. No dia 27 pela manhã ele entrou no grande salão, sempre com o ar de um homem que nos deixou há cinco minutos. Eu estava entretido em seguir no planisfério a rota do “Nautilus”. Ele se aproximou, indicou um ponto no mapa e pronunciou uma única palavra - Vanikoro.

Era uma palavra mágica. Era o nome das ilhotas onde haviam naufragado os navios de La Pérouse. Levantei-me interessado e perguntei - O “Nautilus” ruma para Vanikoro?

- Exatamente - informou-me o capitão.

- E poderei visitar as célebres ilhas onde se despedaçaram o “Bússola” e o “Astrolábio”?

- Se assim o desejar, professor.

- Falta-nos muito para chegarmos lá?

- Estamos em Vanikoro!

Seguido pelo Capitão Nemo, subi à plataforma de onde perscrutei avidamente o horizonte. Bem próximo de mim, o capitão me perguntou o que eu sabia sobre o naufrágio de La Pérouse.

- O que toda a gente sabe - respondi.

- E pode dizer-me o que toda a gente sabe? - perguntou-me, num tom irônico.

- Com todo o prazer, capitão.

Contei-lhe então o que os últimos trabalhos de Dumont d’Urville tinham revelado.

Em 1785, La Pérouse e o seu imediato, o Capitão De Langle, receberam ordens de Luís XVI para efetuarem uma viagem de circunavegação. Partiram nas corvetas “Bússola” e “Astrolábio”, que nunca mais regressaram. Em 1791, o governo francês, justamente alarmado com o destino dos dois navios, armou duas grandes embarcações, a “Recherche” e a “Espérance”, que zarparam de Brest a 28 de setembro, sob o comando de d’Entrecasteaux. Dois meses depois, sabia-se, pelas declarações de um tal Bowen, comandante da “Albermale”, que haviam sido avistados destroços de navios naufragados junto das costas da Nova Geórgia.

Mas d’Entrecasteaux, ignorando essas informações, muito imprecisas aliás, dirigiu-se para as ilhas do Almirantado, apontadas como sendo o local do naufrágio de La Pérouse num relatório do Capitão Hunter.

As suas buscas foram infrutíferas. A “Espérance” e a “Recherche” passaram ao largo de Vanikoro, sem se deterem. Em suma, a missão foi um completo malogro, tendo além disso custado a vida a d’Entrecasteaux, a dois dos seus imediatos, assim como a vários membros da tripulação.

Foi um velho lobo-do-mar, o Capitão Dillon, o primeiro a encontrar vestígios indiscutíveis dos naufragados. A 15 de maio de 1824, o seu navio, o “Saint-Patrick”, passou perto da ilha Tikopia, uma das Novas Hébridas. Ali foi abordado por um indígena numa piroga, que lhe vendeu um punho de espada, de prata, que tinha sinais de caracteres gravados com buril. O indígena informou ainda que seis anos antes, durante uma sua estada em Vanikoro, tinha visto dois europeus que pertenciam a navios naufragados há muitos anos nos recifes da ilha.

Dillon calculou que se trataria dos navios de La Pérouse, cujo desaparecimento emocionara o mundo. Quis ir a Vanikoro onde, segundo o indígena, encontraria numerosos destroços do naufrágio. Mas os ventos e as correntes não permitiram que ele chegasse à ilha.

Dillon regressou então a Calcutá onde conseguiu interessar pela sua descoberta a Sociedade Asiática e a Companhia das índias. Foi posto à sua disposição um navio ao qual deram também o nome de “Recherche”, e ele partiu no dia 23 de janeiro de 1827, levando consigo um agente francês.

O navio, depois de ter tocado em vários pontos do Pacífico, lançou âncora diante de Vanikoro em 7 de julho de 1827, no mesmo porto de Vanu onde se encontrava o “Nautilus” naquele momento.

Ali ele recolheu numerosos restos do naufrágio: utensílios de ferro, âncoras, estropos de roldanas, uma bala de dezoito milímetros, instrumentos de astronomia já estragados, uma sineta de bronze com a inscrição “Bazin fez”, marca da fundição do Arsenal de Brest por volta de 1785. Não restavam, portanto, dúvidas.

Dillon permaneceu no local do sinistro até o mês de outubro, a fim de completar as suas investigações. Depois deixou Vanikoro e se dirigiu para a Nova Zelândia. Fundeou em Calcutá a 7 de abril de 1828 e voltou a França, onde foi calorosamente acolhido por Carlos X.

Contudo, por essa altura, Dumont d’Urville, que desconhecia as investigações de Dillon e os seus resultados, tinha já partido para procurar em outras paragens o local do naufrágio. Com efeito, soubera-se por um baleeiro que algumas medalhas e uma truz de São Luís foram vistas com os indígenas da Luisiana e da Nova Caledônia.

Dumont d’Urville, que comandava o “Astrolábio”, fez-se ao mar. Dois meses depois de Dillon ter deixado Vanikoro, ele fundeava diante de Hobart Town, onde teve conhecimento dos resultados obtidos por Dillon. Ainda nessa cidade ele foi informado de que um tal James Hobbs, imediato do “Union”, de Calcutá, ao pisar terra numa ilha situada a 8° 18' de latitude sul e 156° 30' de longitude leste, tinha visto barras de ferro e tecidos vermelhos nas mãos dos indígenas.

Dumont d’Urville, bastante perplexo e não sabendo se devia acreditar nessas histórias divulgadas por jornais pouco dignos de confiança, decidiu seguir as pegadas de Dillon.

A 10 de fevereiro de 1828, chegava o “Astrolábio” a Tikopia. Ele tomou por guia e intérprete um desertor que havia se fixado naquela ilha, navegou para Vanikoro, que avistou a 12 de fevereiro, transpôs os seus recifes e só no dia 20 fundeou no porto de Vanu.

No dia 23, seus oficiais deram uma volta à ilha e recolheram alguns destroços sem importância. Os indígenas, com evasivas, recusaram-se a conduzi-los ao local do sinistro. Esta conduta, que se lhes afigurou muito suspeita, levou-os a pensar que os naturais da ilha teriam maltratado os náufragos. De fato eles pareciam recear que Dumont d’Urville tivesse ido à ilha para vingar La Pérouse e os seus infelizes companheiros.

Nó entanto, a 26, os indígenas, convencidos com presentes e entendendo que nada tinham a recear, levaram o imediato Jacquinot ao local do naufrágio. Ali, a três ou quatro braças de profundidade, entre os recifes Pacu e Vanu, jaziam âncoras, canhões, barras de ferro e de chumbo.

Com muito custo a chalupa e a baleeira do “Astrolábio” chegaram ao local, e os marinheiros conseguiram retirar das águas uma âncora pesando mil e oitocentas libras, um canhão de ferro fundido, uma barra de chumbo e duas peças de cobre.

Interrogando os indígenas, Dumont d’Urville conseguiu saber que La Pérouse, depois de ter perdido os seus dois navios nos rochedos da ilha, havia construído uma embarcação menor, que por sua vez afundaria... Em que local? Ninguém sabia.

O comandante do “Astrolábio” mandou erigir um monumento à memória do célebre navegador e dos seus companheiros. Era uma simples pirâmide quadrangular, apoiada numa base de corais, desprovida de qualquer coisa que pudesse suscitar a cobiça dos indígenas.

Tencionava Dumont d’Urville fazer-se ao mar imediatamente, mas a sua tripulação estava minada pelas febres muito comuns naquelas costas.

Ele próprio foi atacado por elas e só pôde levantar âncora no dia 17 de março. Nesse meio tempo o governo francês, receando que Dumont d’Urville não estivesse sabendo das pesquisas de Dillon, enviara a Vanikoro a corveta “Bayonnaise”, comandada por Legoarant de Tromelin. A “Bayonnaise fundeou diante de Vanikoro alguns meses após a partida do “Astrolábio” e não encontrou qualquer documento novo. Pôde verificar que os indígenas haviam respeitado o monumento de La Pérouse.

Terminei nesse ponto o resumo do relato que fiz ao Capitão Nemo.

Sem me dizer uma palavra ele me fez um sinal para acompanhá-lo até o salão. O “Nautilus” mergulhou alguns metros e os painéis se abriram.

Precipitei-me para o vidro e avistei alguns destroços. Cabos de ferro, âncoras, canhões, balas, uma guarnição de cabrestante, uma roda de proa e outros objetos provenientes de navios naufragados, cobertos de plantas marinhas.

Enquanto eu observava esses destroços, o Capitão Nemo disse-me:

- O Comandante La Pérouse partiu no dia 7 de dezembro de 1785 com os seus navios “Bússola” e “Astrolábio”. Fundeou primeiro em Botany Bay, visitou o Arquipélago dos Amigos e a Nova Caledônia.

Dirigiu-se para Santa Cruz e aportou em Namuka, uma das ilhas do grupo Havaí. Depois os seus navios chegaram aos recifes desconhecidos de Vanikoro. O “Bússola”, que navegava à frente, encalhou na costa meridional, o mesmo acontecendo ao “Astrolábio”, que fora em socorro dele. O primeiro desfez-se quase imediatamente, mas o segundo, encalhado a sotavento, resistiu alguns dias. Os indígenas deram bom acolhimento aos náufragos e eles se instalaram na ilha, tendo construído uma embarcação bem pequena com o que puderam aproveitar dos dois navios. Alguns marinheiros decidiram volurftariamente ficar na ilha, enquanto os outros, fracos e doentes, partiram com La Pérouse. Dirigiram-se para as ilhas Salomão e pereceram na costa ocidental da ilha principal do grupo, entre os Cabos Decepção e Satisfação!

- Como sabe de tudo isso? - indaguei.

- Através do que encontrei no local desse último naufrágio.

O Capitão Nemo mostrou-me uma caixa de latão com as armas da França gravadas, já corroída pelas águas do mar. Abriu-a e vi um maço de papéis amarelados mas ainda legíveis. Eram as instruções do próprio Ministro da Marinha ao Comandante La Pérouse, com anotações do punho de Luís XVI.

- É uma bela morte para um marinheiro!’- disse o Capitão Nemo. – É um túmulo tranquilo este, feito de corais. Deus queira que tanto eu como os meus companheiros nunca tenhamos outro!

Durante a noite de 27 para 28 de dezembro, o “Nautilus” deixou a região de Vanikoro a grande velocidade. Tomou a direção sudoeste e em três dias percorreu as setecentas e cinquenta léguas que separam o grupo Lã Pérouse da ponta sueste da Papuásia.

No dia 1.0 de janeiro de 1868, Conselho foi ao meu encontro na plataforma.

- Dá-me licença para lhe desejar um bom Ano Novo, senhor? - perguntou-me, com a gentileza que o caracterizava.

- Aceito e agradeço os seus votos, meu amigo. É como se estivéssemos em Paris, no meu gabinete do Jardim Botânico. Apenas lhe pergunto o que você entende por “um bom Ano Novo” nas circunstâncias em que nos encontramos. Será um ano que porá fim à nossa clausura ou um ano que verá continuar esta estranha viagem?

- Para lhe ser franco, senhor, não sei o que responder - disse-me Conselho. - É verdade que temos visto coisas curiosíssimas e nesses dois meses não tivemos tempo para nos aborrecermos. A última maravilha é sempre mais surpreendente do que a anterior e se esta progressão continuar, eu não sei onde chegaremos. Na minha opinião, em nenhuma outra época teremos outra oportunidade como esta.

- Nunca, Conselho.

- Além disso, o senhor Nemo vem cumprindo à risca a promessa que nos fez. Não tem nos incomodado de modo algum.

- Tem razão. Gozamos de inteira liberdade aqui.

- Penso, portanto, que não desagradará ao senhor se eu disser que um bom ano será aquele que nos permitir ver tudo...

 - Tudo? Isso talvez leve muito tempo. Entre vocês, como Ned Land está reagindo a essa situação?

- As idéias dele são exatamente opostas às minhas, senhor. Ned é um espírito positivo e um estômago imperioso. Observar os peixes e comêlos não é suficiente para ele. A falta de vinho, pão e carne é demais para um digno saxão, familiarizado com bifes e habituado a beber gim ou “brandy”.

- Pela minha parte, isso não me atormenta, Conselho. Adaptei-me muito bem ao regime de bordo.

- Eu também - disse-me ele. - Será por isso que eu penso tanto em ficar, como Ned Land em fugir. Portanto, se o ano que começa não for bom para mim, sê-lo-á para ele e vice-versa. Assim, sempre haverá alguém satisfeito. Para concluir, o que eu realmente desejo é que aconteça o que mais agradar ao senhor.

- Obrigado, meu amigo. Peço-lhe apenas que aguarde para outra ocasião a troca dos presentes, e que agora a substituamos por um bom aperto de mão. No momento é a única coisa que tenho.

- O senhor nunca foi tão generoso - respondeu ele, com rara felicidade.

No dia 2 de janeiro havíamos percorrido onze mil trezentas e quarenta milhas, desde a nossa partida dos mares do Japão. Diante do esporão do “Nautilus” estendiam-se as perigosas paragens do mar de Coral, na costa nordeste da Austrália. A 4 de janeiro avistamos as costas da Papuásia. Nessa altura o Capitão Nemo me informou de sua intenção de chegar ao Oceano Indico através do Estreito de Torres. Falei sobre isso a Ned Land e ele ficou satisfeito. Aquela rota nos aproximava dos mares europeus.

O Estreito de Torres é considerado perigoso, tanto pelos escolhos que o semeiam como pelos terríveis selvagens que habitam as suas margens.

Separa da Nova Holanda a grande ilha da Papuásia, também chamada de Nova Guiné.

O “Nautilus” chegou à entrada do estreito mais perigoso de todas as rotas marítimas conhecidas, uma passagem da qual se afastam até os navegadores mais corajosos, estreito que Luís Paz de Torres atravessou vindo dos mares do sul para a Malásia, e no qual, em 1840, as corvetas de Dumont d’Urville quase se perderam. O próprio “Nautilus”, superior a todos os perigos do mar, iria ter problemas com aqueles recifes coralíneos.

O Estreito de Torres tem cerca de trinta e quatro léguas de largura, mas está obstruído por numerosas ilhas, ilhotas, escolhos, que tornam a navegação quase impraticável através dele. O Capitão Nemo tomou todas as precauções para atravessá-lo. O “Nautilus”, navegando á superfície, avançava a uma velocidade moderada. A sua hélice, como a cauda de um cetáceo, agitava as águas com lentidão.

Aproveitando essa calma, eu e meus companheiros fomos para a plataforma. Diante de nós elevava-se a caixa do timoneiro. Era o próprio Capitão Nemo quem se encontrava a dirigir o seu barco. O mar encrespava-se ondulando ao nosso redor.

Eram três horas da tarde. Eu conversava com Ned Land sobre o local perigoso que estávamos atravessando. De repente fui derrubado por um choque. O “Nautilus” acabava de bater num escolho e se imobilizara, ligeiramente inclinado para bombordo. Quando me levantei, vi o Capitão Nemo e o seu imediato examinando o estado do navio e trocando algumas palavras em seu idioma incompreensível. Tínhamos encalhado num desses mares em que as marés são fracas, circunstância desfavorável para o desencalhe do barco.

No entanto, o “Nautilus” não havia sofrido qualquer dano. O grande risco era de que ele ficasse preso para sempre naqueles escolhos. Eu pensava nessa desagradável possibilidade, quando o capitão, frio e calmo, sempre senhor de si, parecendo não estar contrariado e nem sequer emocionado, aproximou-se de mim e disse :

- Um simples incidente.

- Mas que talvez o force a pisar a terra de que fugiu! - atrevi-me a falar.

Ele me olhou sem demonstrar a mínima irritação e fez um gesto negativo, no qual se via a sua determinação de nunca tornar a pôr os pés num continente. Então disse:

- A nossa viagem mal começou, Sr. Aronnax. Não desejo privar-me tão depressa do prazer de sua companhia.

- No entanto, capitão - repliquei, ignorando o tom irônico da frase dele - o “Nautilus” encalhou na maré alta. Ora, as marés são fracas no Pacífico e como não pode tirar o lastro do seu barco, não sei como poderá desencalhá-lo.

- As marés não são fortes no Pacífico, professor. Mas no Estreito de Torres verifica-se uma diferença de um metro e meio entre o nível das águas nas marés alta e baixa. Hoje é dia 4 de janeiro e dentro de cinco dias teremos lua cheia. Muito me surpreenderia se esse bondoso satélite não levantasse suficientemente as águas, prestando-me um serviço que só a ele quero ficar a dever.

Dito isso, chamou o seu imediato e desceram para o interior do submarino.

- Então? - perguntou-me Ned Land, aproximando-se.

- Esperaremos tranquilamente pela maré do dia 9. Segundo o Capitão Nemo, a lua fará o favor de nos fazer flutuar de novo.

- O senhor pode acreditar em mim: este monte de ferro não tornará a navegar nem em cima e nem debaixo das águas. Agora só serve para a sucata - vaticinou ele. - Portanto, acho que chegou o momento de deixarmos a companhia do Capitão Nemo.

- Eu não penso como você, meu caro Ned. Dentro de quatro dias saberemos como agem as marés do Pacifico neste estreito. Aliás, a idéia de fugirmos poderia ser oportuna se estivéssemos à vista das costas da Inglaterra ou da Provença, mas nas costas da Papuásia...

- Mas pelo menos não poderíamos ir à terra, já que vamos ficar parados aqui todos esses dias? - perguntou Ned e acrescentou: - Ali está uma ilha onde há árvores e animais terrestres que forneceriam bons bifes e boas costeletas, nas quais eu daria umas dentadas com imensa satisfação.

- Quanto a isso eu tenho a mesma opinião de Ned Land, professor - disse Conselho. - O senhor poderia conseguir que o Capitão Nemo nos mandasse levar a terra, pelo menos para não perdermos o hábito de pisar as partes sólidas do nosso planeta.

- Posso experimentar - concordei - mas estou certo de que ele se recusará.

- Pelo menos ficaremos informados sobre a amabilidade do capitão - ponderou o meu criado.

Para minha grande surpresa, o Capitão Nemo concedeu a autorização sem qualquer dificuldade, sem mesmo ter exigido a promessa de voltarmos para bordo.

O bote foi posto à nossa disposição para a manhã seguinte. Não procurei saber se o Capitão Nemo nos acompanharia. No dia seguinte, 5 de janeiro, a pequena embarcação foi retirada do seu lugar e lançada ao mar por apenas dois homens da tripulação. Os remos estavam no seu lugar, e só nos restava entrarmos nela. Ainda me surpreendendo, o capitão não nos impôs nenhum tripulante. Ned Land governaria sozinho a embarcação. A terra encontrava-se a menos de duas milhas e para ele seria uma brincadeira conduzir o bote entre aqueles recifes tão perigosos para os grandes navios.

As oito horas, armados com machados e espingardas, deixamos o “Nautilus”. O mar estava bastante calmo. Uma brisa ligeira soprava da terra. Conselho e eu remávamos vigorosamente, enquanto Ned governava o bote pelas estreitas passagens que as rochas deixavam entre si.

O canadense não podia conter a sua alegria. Parecia um prisioneiro fugido da prisão e nem sequer pensava que teríamos de voltar ao submarino. Estava realmente vibrando com o acontecimento.

- Carne! - repetia ele sem cessar. - Vamos comer carne! Pena não haver pão. Um bom pedaço de carne fresca, grelhada sobre umas brasas... O que me diz disso, Conselho?

- Que você está me deixando com água na boca, seu glutão.

- Resta-nos saber - achei bom preveni-los para uma decepção - se esta floresta tem caça e se ela não será de tamanho tal que possa caçar o caçador.

- Não importa, Sr. Aronnax - retrucou Ned Land. - Comerei tigre, isso mesmo, lombo de tigre, se não houver outro quadrúpede na ilha.

- O amigo Ned é inquietante! - comentou, rindo, Conselho.

- Seja o que for, todo animal de quatro patas sem penas ou de duas patas com penas, será cumprimentado com um tiro meu - jactou-se o canadense.

- Bom! - exclamei. - Aí temos promessas imprudentes, mestre Land.

- Não tenha medo, Sr. Aronnax e reme com força. Dentro de vinte minutos estarei lhe oferecendo um prato de verdadeira carne, feito por mim com todo capricho.

As oito e meia, o bote do “Nautilus” foi encalhar suavemente no areal, depois de ter ultrapassado o anel de coral que rodeava a ilha. 

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