Capítulo 18
Esse horroroso espetáculo inaugurou a série de catástrofes
marítimas que o “Nautilus” iria encontrar em sua rota. Desde que navegávamos por
mares frequentados, víamos muitas vezes cascos naufragados que acabavam por
apodrecer entre suas águas. A maior profundidade víamos canhões, balas,
âncoras, correntes e mil outros objetos de ferro sendo devorados pela ferrugem.
Entretanto, sempre conduzidos pelo “Nautilus”, onde vivíamos
isolados, avistamos, no dia 11 de dezembro, o Arquipélago Pomotu, antigo “grupo
perigoso” de Bougainville. Esse arquipélago cobre uma superfície de trezentas e
setenta léguas quadradas e é formado por sessenta grupos de ilhas, entre as
quais se destaca o grupo Gambier, ao qual a França impôs o seu protetorado. Um
crescimento lento mas contínuo dessas ilhas coralíneas, há de um dia ligá-las
entre si. Depois, esta ilha irá unir-se aos arquipélagos vizinhos, e surgirá um
quinto continente que se estenderá desde a Nova Zelândia e a Nova Caledônia até
as ilhas Marquesas.
No dia em que expus esta minha teoria ao Capitão Nemo, ele
me respondeu, friamente:
- Não é de novos continentes que a terra precisa, professor,
mas de novos homens!
A 15 de dezembro deixamos para leste o encantador
Arquipélago da Sociedade e a graciosa Taiti, rainha do Pacifico. De manhã
avistei, a algumas milhas a sotavento, os cumes elevados desta ilha. As suas águas
forneceram para a mesa de bordo excelentes peixes, tais como cavalas, bonitos,
albacoras e algumas variedades de uma serpente do mar chamada “munérophis”.
O “Nautilus” já havia navegado oito mil e cem milhas. Nove
mil setecentas e vinte milhas era o total percorrido quando passou entre o Arquipélago
Tonga-Tabu, onde pereceram as equipagens do “Argo”,
do “Port-au-Prince” e do “Dulce of Portland”, e o
Arquipélago dos Navegadores, onde foi morto o Capitão Langle, amigo de La
Pérouse.
A seguir passou perto do Arquipélago Viti, onde os indígenas
chacinaram os marinheiros do “Union” e o Capitão Bureau, de Nantes, comandante
do “Aimable Joséphine”.
Esse arquipélago prolonga-se por uma extensão de cem léguas,
de norte para o sul, e de noventa léguas de leste para oeste, e está
compreendido entre 6° e 2° de latitude sul e 174° e 179° de longitude oeste. É
composto por um certo número de ilhas, ilhotas e escolhos, entre os quais sé
salientam as ilhas Viti-Levu, Vanua-Levu e Kandubon.
Foi Tasman quem descobriu o arquipélago, em 1643, o mesmo
ano em que Torricelli inventava o barômetro e Luís XIV subia ao trono da França.
Qual desses acontecimentos foi mais útil à humanidade? Vieram a seguir: Cook,
em 1714, d’Entrecasteaux, em 1793, e finalmente Dumont d’Urville, em 1827, que
decifrou todo o caos geográfico do arquipélago. O “Nautilus” aproximou-se da
Baía de Wailea, cenário das terríveis aventuras do Capitão Dillon, o primeiro
homem que conseguiu esclarecer o mistério do naufrágio de La Pérouse.
No dia 25 de dezembro, navegava o “Nautilus” no meio do
arquipélago das Novas Hébridas, que Queirós descobriu em 1606, que Bougainville
explorou em 1768 e ao qual Cook deu, em 1773, o nome atual.
Era dia de Natal. Ned Land lamentou que não se celebrasse, a
bordo do “Nautilus”, o Christmas, verdadeira festa de família pela qual os protestantes
têm muito respeito.
Há oito dias eu não via o Capitão Nemo. No dia 27 pela manhã
ele entrou no grande salão, sempre com o ar de um homem que nos deixou há cinco
minutos. Eu estava entretido em seguir no planisfério a rota do “Nautilus”. Ele
se aproximou, indicou um ponto no mapa e pronunciou uma única palavra -
Vanikoro.
Era uma palavra mágica. Era o nome das ilhotas onde haviam
naufragado os navios de La Pérouse. Levantei-me interessado e perguntei - O
“Nautilus” ruma para Vanikoro?
- Exatamente - informou-me o capitão.
- E poderei visitar as célebres ilhas onde se despedaçaram o
“Bússola” e o “Astrolábio”?
- Se assim o desejar, professor.
- Falta-nos muito para chegarmos lá?
- Estamos em Vanikoro!
Seguido pelo Capitão Nemo, subi à plataforma de onde
perscrutei avidamente o horizonte. Bem próximo de mim, o capitão me perguntou o
que eu sabia sobre o naufrágio de La Pérouse.
- O que toda a gente sabe - respondi.
- E pode dizer-me o que toda a gente sabe? - perguntou-me,
num tom irônico.
- Com todo o prazer, capitão.
Contei-lhe então o que os últimos trabalhos de Dumont
d’Urville tinham revelado.
Em 1785, La Pérouse e o seu imediato, o Capitão De Langle,
receberam ordens de Luís XVI para efetuarem uma viagem de circunavegação.
Partiram nas corvetas “Bússola” e “Astrolábio”, que nunca mais regressaram. Em
1791, o governo francês, justamente alarmado com o destino dos dois navios, armou
duas grandes embarcações, a “Recherche” e a “Espérance”, que zarparam de Brest
a 28 de setembro, sob o comando de d’Entrecasteaux. Dois meses depois,
sabia-se, pelas declarações de um tal Bowen, comandante da “Albermale”, que
haviam sido avistados destroços de navios naufragados junto das costas da Nova
Geórgia.
Mas d’Entrecasteaux, ignorando essas informações, muito
imprecisas aliás, dirigiu-se para as ilhas do Almirantado, apontadas como sendo
o local do naufrágio de La Pérouse num relatório do Capitão Hunter.
As suas buscas foram infrutíferas. A “Espérance” e a
“Recherche” passaram ao largo de Vanikoro, sem se deterem. Em suma, a missão
foi um completo malogro, tendo além disso custado a vida a d’Entrecasteaux, a
dois dos seus imediatos, assim como a vários membros da tripulação.
Foi um velho lobo-do-mar, o Capitão Dillon, o primeiro a
encontrar vestígios indiscutíveis dos naufragados. A 15 de maio de 1824, o seu navio,
o “Saint-Patrick”, passou perto da ilha Tikopia, uma das Novas Hébridas. Ali
foi abordado por um indígena numa piroga, que lhe vendeu um punho de espada, de
prata, que tinha sinais de caracteres gravados com buril. O indígena informou
ainda que seis anos antes, durante uma sua estada em Vanikoro, tinha visto dois
europeus que pertenciam a navios naufragados há muitos anos nos recifes da
ilha.
Dillon calculou que se trataria dos navios de La Pérouse,
cujo desaparecimento emocionara o mundo. Quis ir a Vanikoro onde, segundo o indígena,
encontraria numerosos destroços do naufrágio. Mas os ventos e as correntes não
permitiram que ele chegasse à ilha.
Dillon regressou então a Calcutá onde conseguiu interessar
pela sua descoberta a Sociedade Asiática e a Companhia das índias. Foi posto à sua
disposição um navio ao qual deram também o nome de “Recherche”, e ele partiu no
dia 23 de janeiro de 1827, levando consigo um agente francês.
O navio, depois de ter tocado em vários pontos do Pacífico,
lançou âncora diante de Vanikoro em 7 de julho de 1827, no mesmo porto de Vanu
onde se encontrava o “Nautilus” naquele momento.
Ali ele recolheu numerosos restos do naufrágio: utensílios
de ferro, âncoras, estropos de roldanas, uma bala de dezoito milímetros,
instrumentos de astronomia já estragados, uma sineta de bronze com a inscrição
“Bazin fez”, marca da fundição do Arsenal de Brest por volta de 1785. Não
restavam, portanto, dúvidas.
Dillon permaneceu no local do sinistro até o mês de outubro,
a fim de completar as suas investigações. Depois deixou Vanikoro e se dirigiu para
a Nova Zelândia. Fundeou em Calcutá a 7 de abril de 1828 e voltou a França,
onde foi calorosamente acolhido por Carlos X.
Contudo, por essa altura, Dumont d’Urville, que desconhecia
as investigações de Dillon e os seus resultados, tinha já partido para procurar
em outras paragens o local do naufrágio. Com efeito, soubera-se por um baleeiro
que algumas medalhas e uma truz de São Luís foram vistas com os indígenas da
Luisiana e da Nova Caledônia.
Dumont d’Urville, que comandava o “Astrolábio”, fez-se ao
mar. Dois meses depois de Dillon ter deixado Vanikoro, ele fundeava diante de Hobart
Town, onde teve conhecimento dos resultados obtidos por Dillon. Ainda nessa
cidade ele foi informado de que um tal James Hobbs, imediato do “Union”, de
Calcutá, ao pisar terra numa ilha situada a 8° 18' de latitude sul e 156° 30'
de longitude leste, tinha visto barras de ferro e tecidos vermelhos nas mãos
dos indígenas.
Dumont d’Urville, bastante perplexo e não sabendo se devia
acreditar nessas histórias divulgadas por jornais pouco dignos de confiança, decidiu
seguir as pegadas de Dillon.
A 10 de fevereiro de 1828, chegava o “Astrolábio” a Tikopia.
Ele tomou por guia e intérprete um desertor que havia se fixado naquela ilha,
navegou para Vanikoro, que avistou a 12 de fevereiro, transpôs os seus recifes
e só no dia 20 fundeou no porto de Vanu.
No dia 23, seus oficiais deram uma volta à ilha e recolheram
alguns destroços sem importância. Os indígenas, com evasivas, recusaram-se a conduzi-los
ao local do sinistro. Esta conduta, que se lhes afigurou muito suspeita,
levou-os a pensar que os naturais da ilha teriam maltratado os náufragos. De
fato eles pareciam recear que Dumont d’Urville tivesse ido à ilha para vingar
La Pérouse e os seus infelizes companheiros.
Nó entanto, a 26, os indígenas, convencidos com presentes e
entendendo que nada tinham a recear, levaram o imediato Jacquinot ao local do naufrágio.
Ali, a três ou quatro braças de profundidade, entre os recifes Pacu e Vanu,
jaziam âncoras, canhões, barras de ferro e de chumbo.
Com muito custo a chalupa e a baleeira do “Astrolábio”
chegaram ao local, e os marinheiros conseguiram retirar das águas uma âncora pesando
mil e oitocentas libras, um canhão de ferro fundido, uma barra de chumbo e duas
peças de cobre.
Interrogando os indígenas, Dumont d’Urville conseguiu saber
que La Pérouse, depois de ter perdido os seus dois navios nos rochedos da ilha,
havia construído uma embarcação menor, que por sua vez afundaria... Em que
local? Ninguém sabia.
O comandante do “Astrolábio” mandou erigir um monumento à
memória do célebre navegador e dos seus companheiros. Era uma simples pirâmide
quadrangular, apoiada numa base de corais, desprovida de qualquer coisa que
pudesse suscitar a cobiça dos indígenas.
Tencionava Dumont d’Urville fazer-se ao mar imediatamente,
mas a sua tripulação estava minada pelas febres muito comuns naquelas costas.
Ele próprio foi atacado por elas e só pôde levantar âncora
no dia 17 de março. Nesse meio tempo o governo francês, receando que Dumont d’Urville
não estivesse sabendo das pesquisas de Dillon, enviara a Vanikoro a corveta
“Bayonnaise”, comandada por Legoarant de Tromelin. A “Bayonnaise fundeou diante
de Vanikoro alguns meses após a partida do “Astrolábio” e não encontrou qualquer
documento novo. Pôde verificar que os indígenas haviam respeitado o monumento de
La Pérouse.
Terminei nesse ponto o resumo do relato que fiz ao Capitão
Nemo.
Sem me dizer uma palavra ele me fez um sinal para
acompanhá-lo até o salão. O “Nautilus” mergulhou alguns metros e os painéis se
abriram.
Precipitei-me para o vidro e avistei alguns destroços. Cabos
de ferro, âncoras, canhões, balas, uma guarnição de cabrestante, uma roda de proa
e outros objetos provenientes de navios naufragados, cobertos de plantas
marinhas.
Enquanto eu observava esses destroços, o Capitão Nemo
disse-me:
- O Comandante La Pérouse partiu no dia 7 de dezembro de
1785 com os seus navios “Bússola” e “Astrolábio”. Fundeou primeiro em Botany
Bay, visitou o Arquipélago dos Amigos e a Nova Caledônia.
Dirigiu-se para Santa Cruz e aportou em Namuka, uma das
ilhas do grupo Havaí. Depois os seus navios chegaram aos recifes desconhecidos
de Vanikoro. O “Bússola”, que navegava à frente, encalhou na costa meridional,
o mesmo acontecendo ao “Astrolábio”, que fora em socorro dele. O primeiro
desfez-se quase imediatamente, mas o segundo, encalhado a sotavento, resistiu
alguns dias. Os indígenas deram bom acolhimento aos náufragos e eles se
instalaram na ilha, tendo construído uma embarcação bem pequena com o que
puderam aproveitar dos dois navios. Alguns marinheiros decidiram
volurftariamente ficar na ilha, enquanto os outros, fracos e doentes, partiram
com La Pérouse. Dirigiram-se para as ilhas Salomão e pereceram na costa
ocidental da ilha principal do grupo, entre os Cabos Decepção e Satisfação!
- Como sabe de tudo isso? - indaguei.
- Através do que encontrei no local desse último naufrágio.
O Capitão Nemo mostrou-me uma caixa de latão com as armas da
França gravadas, já corroída pelas águas do mar. Abriu-a e vi um maço de papéis
amarelados mas ainda legíveis. Eram as instruções do próprio Ministro da
Marinha ao Comandante La Pérouse, com anotações do punho de Luís XVI.
- É uma bela morte para um marinheiro!’- disse o Capitão
Nemo. – É um túmulo tranquilo este, feito de corais. Deus queira que tanto eu como
os meus companheiros nunca tenhamos outro!
Durante a noite de 27 para 28 de dezembro, o “Nautilus”
deixou a região de Vanikoro a grande velocidade. Tomou a direção sudoeste e em
três dias percorreu as setecentas e cinquenta léguas que separam o grupo Lã
Pérouse da ponta sueste da Papuásia.
No dia 1.0 de janeiro de 1868, Conselho foi ao meu encontro
na plataforma.
- Dá-me licença para lhe desejar um bom Ano Novo, senhor? -
perguntou-me, com a gentileza que o caracterizava.
- Aceito e agradeço os seus votos, meu amigo. É como se
estivéssemos em Paris, no meu gabinete do Jardim Botânico. Apenas lhe pergunto
o que você entende por “um bom Ano Novo” nas circunstâncias em que nos
encontramos. Será um ano que porá fim à nossa clausura ou um ano que verá
continuar esta estranha viagem?
- Para lhe ser franco, senhor, não sei o que responder -
disse-me Conselho. - É verdade que temos visto coisas curiosíssimas e nesses dois
meses não tivemos tempo para nos aborrecermos. A última maravilha é sempre mais
surpreendente do que a anterior e se esta progressão continuar, eu não sei onde
chegaremos. Na minha opinião, em nenhuma outra época teremos outra oportunidade
como esta.
- Nunca, Conselho.
- Além disso, o senhor Nemo vem cumprindo à risca a promessa
que nos fez. Não tem nos incomodado de modo algum.
- Tem razão. Gozamos de inteira liberdade aqui.
- Penso, portanto, que não desagradará ao senhor se eu
disser que um bom ano será aquele que nos permitir ver tudo...
- Tudo? Isso talvez
leve muito tempo. Entre vocês, como Ned Land está reagindo a essa situação?
- As idéias dele são exatamente opostas às minhas, senhor.
Ned é um espírito positivo e um estômago imperioso. Observar os peixes e
comêlos não é suficiente para ele. A falta de vinho, pão e carne é demais para
um digno saxão, familiarizado com bifes e habituado a beber gim ou “brandy”.
- Pela minha parte, isso não me atormenta, Conselho.
Adaptei-me muito bem ao regime de bordo.
- Eu também - disse-me ele. - Será por isso que eu penso
tanto em ficar, como Ned Land em fugir. Portanto, se o ano que começa não for bom
para mim, sê-lo-á para ele e vice-versa. Assim, sempre haverá alguém
satisfeito. Para concluir, o que eu realmente desejo é que aconteça o que mais
agradar ao senhor.
- Obrigado, meu amigo. Peço-lhe apenas que aguarde para
outra ocasião a troca dos presentes, e que agora a substituamos por um bom aperto
de mão. No momento é a única coisa que tenho.
- O senhor nunca foi tão generoso - respondeu ele, com rara
felicidade.
No dia 2 de janeiro havíamos percorrido onze mil trezentas e
quarenta milhas, desde a nossa partida dos mares do Japão. Diante do esporão do
“Nautilus” estendiam-se as perigosas paragens do mar de Coral, na costa
nordeste da Austrália. A 4 de janeiro avistamos as costas da Papuásia. Nessa
altura o Capitão Nemo me informou de sua intenção de chegar ao Oceano Indico
através do Estreito de Torres. Falei sobre isso a Ned Land e ele ficou
satisfeito. Aquela rota nos aproximava dos mares europeus.
O Estreito de Torres é considerado perigoso, tanto pelos
escolhos que o semeiam como pelos terríveis selvagens que habitam as suas
margens.
Separa da Nova Holanda a grande ilha da Papuásia, também
chamada de Nova Guiné.
O “Nautilus” chegou à entrada do estreito mais perigoso de
todas as rotas marítimas conhecidas, uma passagem da qual se afastam até os navegadores
mais corajosos, estreito que Luís Paz de Torres atravessou vindo dos mares do
sul para a Malásia, e no qual, em 1840, as corvetas de Dumont d’Urville quase
se perderam. O próprio “Nautilus”, superior a todos os perigos do mar, iria ter
problemas com aqueles recifes coralíneos.
O Estreito de Torres tem cerca de trinta e quatro léguas de
largura, mas está obstruído por numerosas ilhas, ilhotas, escolhos, que tornam
a navegação quase impraticável através dele. O Capitão Nemo tomou todas as
precauções para atravessá-lo. O “Nautilus”, navegando á superfície, avançava a
uma velocidade moderada. A sua hélice, como a cauda de um cetáceo, agitava as
águas com lentidão.
Aproveitando essa calma, eu e meus companheiros fomos para a
plataforma. Diante de nós elevava-se a caixa do timoneiro. Era o próprio
Capitão Nemo quem se encontrava a dirigir o seu barco. O mar encrespava-se
ondulando ao nosso redor.
Eram três horas da tarde. Eu conversava com Ned Land sobre o
local perigoso que estávamos atravessando. De repente fui derrubado por um
choque. O “Nautilus” acabava de bater num escolho e se imobilizara,
ligeiramente inclinado para bombordo. Quando me levantei, vi o Capitão Nemo e o
seu imediato examinando o estado do navio e trocando algumas palavras em seu
idioma incompreensível. Tínhamos encalhado num desses mares em que as marés são
fracas, circunstância desfavorável para o desencalhe do barco.
No entanto, o “Nautilus” não havia sofrido qualquer dano. O
grande risco era de que ele ficasse preso para sempre naqueles escolhos. Eu pensava
nessa desagradável possibilidade, quando o capitão, frio e calmo, sempre senhor
de si, parecendo não estar contrariado e nem sequer emocionado, aproximou-se de
mim e disse :
- Um simples incidente.
- Mas que talvez o force a pisar a terra de que fugiu! -
atrevi-me a falar.
Ele me olhou sem demonstrar a mínima irritação e fez um
gesto negativo, no qual se via a sua determinação de nunca tornar a pôr os pés
num continente. Então disse:
- A nossa viagem mal começou, Sr. Aronnax. Não desejo
privar-me tão depressa do prazer de sua companhia.
- No entanto, capitão - repliquei, ignorando o tom irônico
da frase dele - o “Nautilus” encalhou na maré alta. Ora, as marés são fracas no
Pacífico e como não pode tirar o lastro do seu barco, não sei como poderá
desencalhá-lo.
- As marés não são fortes no Pacífico, professor. Mas no
Estreito de Torres verifica-se uma diferença de um metro e meio entre o nível
das águas nas marés alta e baixa. Hoje é dia 4 de janeiro e dentro de cinco dias
teremos lua cheia. Muito me surpreenderia se esse bondoso satélite não
levantasse suficientemente as águas, prestando-me um serviço que só a ele quero
ficar a dever.
Dito isso, chamou o seu imediato e desceram para o interior
do submarino.
- Então? - perguntou-me Ned Land, aproximando-se.
- Esperaremos tranquilamente pela maré do dia 9. Segundo o
Capitão Nemo, a lua fará o favor de nos fazer flutuar de novo.
- O senhor pode acreditar em mim: este monte de ferro não
tornará a navegar nem em cima e nem debaixo das águas. Agora só serve para a sucata
- vaticinou ele. - Portanto, acho que chegou o momento de deixarmos a companhia
do Capitão Nemo.
- Eu não penso como você, meu caro Ned. Dentro de quatro
dias saberemos como agem as marés do Pacifico neste estreito. Aliás, a idéia de
fugirmos poderia ser oportuna se estivéssemos à vista das costas da Inglaterra
ou da Provença, mas nas costas da Papuásia...
- Mas pelo menos não poderíamos ir à terra, já que vamos
ficar parados aqui todos esses dias? - perguntou Ned e acrescentou: - Ali está uma
ilha onde há árvores e animais terrestres que forneceriam bons bifes e boas
costeletas, nas quais eu daria umas dentadas com imensa satisfação.
- Quanto a isso eu tenho a mesma opinião de Ned Land,
professor - disse Conselho. - O senhor poderia conseguir que o Capitão Nemo nos
mandasse levar a terra, pelo menos para não perdermos o hábito de pisar as
partes sólidas do nosso planeta.
- Posso experimentar - concordei - mas estou certo de que
ele se recusará.
- Pelo menos ficaremos informados sobre a amabilidade do
capitão - ponderou o meu criado.
Para minha grande surpresa, o Capitão Nemo concedeu a
autorização sem qualquer dificuldade, sem mesmo ter exigido a promessa de
voltarmos para bordo.
O bote foi posto à nossa disposição para a manhã seguinte.
Não procurei saber se o Capitão Nemo nos acompanharia. No dia seguinte, 5 de janeiro,
a pequena embarcação foi retirada do seu lugar e lançada ao mar por apenas dois
homens da tripulação. Os remos estavam no seu lugar, e só nos restava entrarmos
nela. Ainda me surpreendendo, o capitão não nos impôs nenhum tripulante. Ned
Land governaria sozinho a embarcação. A terra encontrava-se a menos de duas
milhas e para ele seria uma brincadeira conduzir o bote entre aqueles recifes
tão perigosos para os grandes navios.
As oito horas, armados com machados e espingardas, deixamos
o “Nautilus”. O mar estava bastante calmo. Uma brisa ligeira soprava da terra.
Conselho e eu remávamos vigorosamente, enquanto Ned governava o bote pelas
estreitas passagens que as rochas deixavam entre si.
O canadense não podia conter a sua alegria. Parecia um
prisioneiro fugido da prisão e nem sequer pensava que teríamos de voltar ao submarino.
Estava realmente vibrando com o acontecimento.
- Carne! - repetia ele sem cessar. - Vamos comer carne! Pena
não haver pão. Um bom pedaço de carne fresca, grelhada sobre umas brasas... O
que me diz disso, Conselho?
- Que você está me deixando com água na boca, seu glutão.
- Resta-nos saber - achei bom preveni-los para uma decepção
- se esta floresta tem caça e se ela não será de tamanho tal que possa caçar o caçador.
- Não importa, Sr. Aronnax - retrucou Ned Land. - Comerei
tigre, isso mesmo, lombo de tigre, se não houver outro quadrúpede na ilha.
- O amigo Ned é inquietante! - comentou, rindo, Conselho.
- Seja o que for, todo animal de quatro patas sem penas ou
de duas patas com penas, será cumprimentado com um tiro meu - jactou-se o canadense.
- Bom! - exclamei. - Aí temos promessas imprudentes, mestre
Land.
- Não tenha medo, Sr. Aronnax e reme com força. Dentro de
vinte minutos estarei lhe oferecendo um prato de verdadeira carne, feito por mim
com todo capricho.
As oito e meia, o bote do “Nautilus” foi encalhar suavemente no areal, depois de ter ultrapassado o anel de coral que rodeava a ilha.

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