Capítulo 19 e 20
Fiquei vivamente
impressionado ao pisarmos em terra. Ned Land experimentava o solo com os pés,
como se estivesse praticando um ato para tomar posse dele. No entanto, havia
apenas dois meses que, segundo a expressão do Capitão Nemo, éramos
“passageiros” do “Nautilus”. Na verdade, éramos prisioneiros dele.
Caminhamos para o interior da ilha. Depois de atravessarmos
uma mata pouco densa, encontramo-nos numa planície cheia de arbustos. Vi então
elevarem-se nos ares magníficas aves. O vôo ondulado, a graça das curvas aéreas
e o brilho das cores atraíam e deliciavam o olhar.
Não tive dificuldade em reconhecê-las.
- Aves-do-paraíso! - exclamei.
- Ordem dos pássaros, seção dos clistómoros - disse
Conselho.
- Família dos pardais? - perguntou Ned Land.
- Não creio, mestre Land - falei-lhe. - Mesmo assim, conto
com a sua destreza para apanhar um desses encantadores produtos da natureza tropical.
Eu gostaria muito de ter um deles.
- Vou tentar, professor. No entanto, o senhor sabe que estou
mais habituado a manejar o arpão do que a espingarda.
Os malaios, que fazem grande comércio destas aves com os
chineses, dispõem de diversos meios para as apanhar, mas nós não tínhamos recursos
para pô-los em prática.
Por volta. das onze horas da manhã, já tínhamos chegado ao
primeiro plano das montanhas que formavam o centro da ilha. Para decepção de todos
nós, mas principalmente de Ned Land, ainda não havíamos
caçado coisa alguma. A promessa dele já havia falhado. A
fome apertava. Tínhamos nos fiado no produto da caça, mas ela não aparecera.
Felizmente, para sua grande surpresa, o meu criado
assegurou-nos o almoço. Matou um pombo manso e um trocaz. Rapidamente depenados
e espetados num pau, foram assados numa fogueira. Devorados até os ossos, nós
os achamos excelentes. A noz-moscada de que costumam alimentar-se essas aves
dá-lhes um sabor delicioso à carne.
- E agora, Ned, o que lhe falta? - perguntei ao canadense,
ao terminarmos o repasto.
- Um quadrúpede, Sr. Aronnax. Esses pombos não passam de
acepipes, de guloseimas. Enquanto não matar um animal que nos brinde com
costeletas, não me senti- rei satisfeito.
- Nem eu, se não apanhar uma ave-do-paraíso - falei.
- Continuemos, portanto a caça - propôs Conselho - mas em
direção ao mar. Chegamos às primeiras montanhas e acho que é melhor voltarmos à
região das florestas.
Era uma proposta sensata e foi seguida. Após uma hora de
marcha chegamos a uma floresta de salgueiros. Algumas serpentes inofensivas fugiam
à nossa aproximação. As aves-do-paraíso desapareciam assim que nos viam e eu já
me desiludia de apanhar uma delas quando Conselho, que ia à frente, abaixou-se
de repente, soltou um grito de triunfo e correu para mim trazendo na mão uma
delas.
- Você deu um golpe de mestre, Conselho! - elogiei-o,
realmente admirado. - Apanhar uma ave-do-paraíso viva, à mão, não é façanha para
qualquer um.
- Se o senhor a examinar de perto, verá que não tive grande
mérito, professor - disse-me ele. A seguir, explicou o pouco valor de feito, em
seu próprio julgamento: - Esta ave está. bêbada pela noz-moscada que devorava
quando a peguei. Veja, amigo Ned, veja o resultado da intemperança!
- Com mil diabos! - retrucou o canadense. - Há dois meses
que nem cheiro gim!
Entretanto, eu examinava a ave constatando que meu criado
não se enganara. Ela estava realmente embriagada com o suco capitoso da fruta e
completamente incapaz de voar. Pertencia à mais bela das oito espécies
encontradas na Papuásia e nas ilhas vizinhas. Tratava-se de uma ave-do-paraíso
“grande esmeralda”, uma das mais raras. Eu desejava ardentemente levar o
soberbo espécime para o oferecer ao Jardim Botânico, que não possuía nenhum
exemplar vivo dessas aves.
No entanto, se o meu desejo estava satisfeito com a captura
da ave, o do canadense continuava desatendido. Felizmente, por volta das duas horas,
Ned Land conseguiu abater um belo porco selvagem, ao qual os naturais da região
chamam de bari-utang. O animal veio mesmo a calhar para nos fornecer verdadeira
carne de quadrúpede. O arpoador não cabia em si de vaidoso, já que o porco
caíra fulminado com o primeiro disparo que ele fizera. Teríamos costeletas na
refeição da noite.
Estávamos muito satisfeitos com os resultados de nossa
caçada. O alegre canadense propunha-se a regressar no dia seguinte àquela ilha encantada
que ele pretendia despovoar de todos os quadrúpedes comestíveis. Mas não
contava com o que estava para acontecer.
As seis horas da tarde, nós estávamos na praia, próximos ao
bote. O “Nautilus”, semelhante a um grande escolho, emergia das águas a duas milhas
de distância.
Ned Land, sem mais delongas, ocupou-se da importante tarefa
de fazer o jantar. As costeletas do bari-utang, assando-se nas brasas exalavam um
cheiro delicioso que perfumava a atmosfera. Degustávamos antecipadamente o
prazer de um excelente jantar.
- E se não voltássemos esta noite ao “Nautilus?” -lembrou
Conselho, numa perigosa proposta.
- E se nunca mais voltássemos? - Ned Land fez justamente a
pergunta que eu esperava ouvir dele.
Naquele momento, uma
pedra caiu aos nossos pés, interrompendo a proposta do canadense.
As pedras não caem assim do céu! - disse Conselho.
Uma segunda pedra, cuidadosamente arredondada, que tirou da
mão de Conselho um pedaço de carne, assustou-nos.
Levantamo-nos os
três, de espingardas em punho, prontos para responder a qualquer ataque.
- Serão macacos? - perguntou Ned Land.
- Mais ou menos - respondeu Conselho. - São selvagens.
- Corramos para o bote! - apressei-os, dirigindo-me para o
mar.
De fato, era forçoso que fugíssemos, porque uns vinte
indígenas, armados de arcos e fundas, surgiam na orla de uma mata à direita de
onde estávamos, a cerca de cem passos. Aproximavam-se sem correr, mas demonstrando
hostilidade, atirando suas pedras e flechas contra nós.
Chegamos em dois
minutos à beira do mar. Carregar o bote com as nossas provisões da caçada,
empurrá-lo para a água e montar os remos, foi uma questão de segundos. Ainda
não tínhamos avançado dez metros e já uma centena de selvagens, gritando e gesticulando,
entrava na água.
Vinte minutos depois
estávamos chegando a bordo do “Nautilus”. Os alçapões estavam abertos e
penetramos nele. Fui diretamente ao salão de onde saíam alguns acordes de
órgão. Encontrei o Capitão Nemo curvado sobre ele e mergulhado num verdadeiro
êxtase musical. Precisei de chamá-lo duas vezes, para que me desse atenção.
- Ah! É o professor - falou, voltando-se para mim. - Então
fez boa caçada?
- Sim, capitão, mas infelizmente trouxemos um bando de
bípedes cuja presença me parece muito inquietante.
- Selvagens - adivinhou ele e comentou num tom irônico. - O
senhor admira-se de ter encontrado selvagens nesta região? Onde é que não há selvagens,
professor? Aliás, os daqui serão piores do que aqueles que o senhor não
considera como tais?
- Mas, capitão...
- Eu pelo menos os tenho encontrado em todos os lugares.
- Pois bem, não vou discutir o seu ponto de vista. Mas se
não quer receber os selvagens daqui, a bordo do “Nautilus”, acho que deve tomar
algumas precauções.
- Tranquilize-se, professor, não há motivo para
preocupações.
- Mas são numerosos, capitão. Há uma centena deles vindo
para cá.
- Sr. Aronnax - disse ele, voltando sua atenção para o
teclado do órgão - mesmo que todos os indígenas da Papuásia se tivessem reunido
na praia, o “Nautilus” nada teria a recear dos seus ataques.
Os dedos do capitão começaram então a percorrer o teclado.
Notei que ele tocava apenas nas teclas pretas, o que dava à música um colorido
essencialmente escocês. Não tardou a esquecer a minha presença e a mergulhar
num devaneio que eu não quis perturbar.
Subi à plataforma. Já era noite, porque naquela latitude o
sol se põe rapidamente e sem crepúsculo. Eu mal distinguia a ilha, mas as
numerosas fogueiras acesas na praia indicavam que os indígenas não a tinham abandonado.
Permaneci um longo tempo atento a qualquer movimentação deles. Por volta da
meia-noite, vendo que tudo continuava tranquilo, voltei para o meu quarto e
dormi sem maiores preocupações.
As oito horas da manhã seguinte, subi à plataforma. Os indígenas
continuavam na praia, mas em número bem superior aos que eu vira na véspera.
Agora seriam uns quinhentos ou seiscentos. Aproveitando a maré baixa alguns
deles tinham avançado pelos corais e estavam a menos de quatrocentos metros do
submarino. Eu podia vê-los muito bem. Eram papuas, de porte atlético, homens de
uma bela raça, de testa alta, nariz grosso mas não achatado e dentes brancos.
Em geral, andavam nus. Notei a presença de algumas mulheres, vestidas com uma verdadeira
saia de ervas presa na cintura cobrindo até os joelhos.
Quase todos os homens estavam armados de arcos, flechas e
portavam escudos. Traziam ao ombro uma espécie de rede que continha as pedras
arredondadas que atiram certeiramente com as fundas.
Um dos chefes, bastante próximo do “Nautilus”, observava-o
com atenção. Devia ser um “mado” de alta estirpe, porque trazia uma esteira de
folhas de bananeira, recortada nas pontas e pintada com diversas cores. Eu
poderia facilmente abatê-lo com um tiro, mas pensei que seria melhor aguardar
demonstrações mais hostis da parte deles. Entre europeus e selvagens, convém
que os europeus não ataquem primeiro.
Durante todo o tempo que durou a maré baixa, os indígenas
rondaram perto do “Nautilus”, mas não se mostraram agressivos. Eu os ouvia dizendo
seguidamente a palavra “assai”, e pelos seus gestos compreendi que me
convidavam para ir a terra, convite que não aceitei. As onze horas da manhã,
quando as cristas dos corais começaram a desaparecer sob as águas da maré que
subia, eles voltaram para a terra.
Não tendo nada de melhor para fazer, chamei Conselho e pedi
a ele que me trouxesse uma rede pequena, dessas utilizadas para apanhar ostras.
Ele a trouxe logo e ficou ao meu lado, ajudando-me a puxar a rede que sempre
vinha carregada com conchas comuns, ostras perlíferas e algumas tartarugas
pequenas. Sempre observando o que apanhávamos, eu encontrei uma concha que me
chamou a atenção porque a sua. espira em vez de estar enrolada da direita para
a esquerda, estava enrolada da esquerda para a direita. Uma concha canhota.
Eu estava observando o meu precioso achado quando uma pedra atirada
desastradamente por um indígena quebrou-a na mão de meu criado que a segurava
naquele momento. Soltei uma exclamação de aborrecimento. Aquela concha era
realmente um belo objeto.
Conselho pegou a espingarda e fez pontaria em um selvagem
que balançava a sua funda a uma distância de dez metros de nós. Tentei impedi-lo
de disparar, mas o tiro saiu e a bala foi quebrar a pulseira de amuletos que
pendia do braço do indígena.
- Foi aquele canibal que começou o ataque, senhor! -
desculpou-se ele, quando reprovei o seu ato.
A situação alterou-se em poucos instantes. Cerca de vinte
pirogas cheias de indígenas se dirigiram para o “Nautilus”.
- Vou prevenir o Capitão Nemo - falei e desci rapidamente
pelo alçapão. Uma chuva de flechas começara a cair na plataforma do barco.
Fui encontrar o capitão no seu quarto e lhe expus a
situação.
Ele me ouviu tranquilamente e depois disse:
- Então só temos que fechar os alçapões.
- Precisamente, capitão. As pirogas dos indígenas estão a
cercar-nos.
Dentro de alguns minutos seremos assaltados por algumas
dezenas de selvagens.
- Não corremos tal risco, professor - sossegou-me o capitão.
Apertou um botão em sua mesa, aguardou um momento e me disse
- Pronto, professor. O bote está guardado e os alçapões estão fechados. O
senhor certamente não receia que esses cavalheiros derrubem as muralhas. que as
balas da sua fragata não conseguiram penetrar.
- Não, capitão, mas existe ainda um perigo.
- Qual? A amanhã por esta hora, será preciso reabrir os
alçapões para renovar o ar do “Nautilus”. Se nessa ocasião os papuas ainda
estiverem na nossa plataforma, não vejo como os impedirá de entrarem a bordo.
Como são algumas centenas.
- Pois bem, que entrem. Não vejo motivo algum para
impedi-los. No fundo, esses papuas são uns pobres-diabos, e não desejo que a
minha estada na ilha Gueboroar fique assinalada pela morte de algum desses infelizes.
Amanhã - acrescentou ele, após uma pequena pausa - às duas horas e quarenta
minutos da tarde, o “Nautilus” flutuará e deixará, sem qualquer avaria, o
Estreito de Torres.
Ditas estas palavras, o Capitão Nemo inclinou-se
ligeiramente, indicando que a nossa entrevista havia terminado.
No dia seguinte trabalhei em minhas anotações até as onze
horas. Não percebi nenhum movimento a bordo que significasse qualquer
preparação para uma partida na parte da tarde. Aguardei mais algum tempo e depois
me dirigi para o salão. O relógio marcava duas horas e meia.
Dentro de dez minutos a maré atingiria o máximo de sua
altura e, se o Capitão Nemo não tivesse feito uma promessa vã, o “Nautilus”
flutuaria imediatamente para partirmos.
Não tardei a perceber alguns estremecimentos de :bom augúrio
no casco do navio e ouvi rangerem as asperezas calcárias do fundo coralígeno
nas chapas de ferro.
As duas horas e trinta e cinco minutos, o Capitão Nemo
apareceu no salão e me disse:
- Vamos partir. Já dei ordens para que os alçapões sejam
abertos.
- E os papuas? Não vão entrar no “Nautilus”, capitão?
- Sr. Aronnax - respondeu-me ele, tranquilamente - não se
entra à vontade pelos alçapões do meu barco, mesmo quando estão abertos.
Olhei para ele, sem esconder a minha incredulidade.
- Venha comigo, professor, venha ver pessoalmente.
Acompanhei-o para a escada central onde Ned Land e Conselho,
muito intrigados, observavam alguns homens da tripulação que abriam os
alçapões, enquanto se ouviam no exterior os gritos ameaçadores dos papuas. Os
postigos foram descidos exteriormente e apareceram vinte caras horríveis. Mas o
primeiro indígena que pegou no corrimão da escada foi projetado para trás, eu
não sabia por que força invisível, e pôs-se em fuga, dando gritos de terror e
enormes saltos. Seguiram-se lhe dez companheiros, que tiveram a mesma sorte.
Conselho estava extasiado. Ned Land, levado pelo seu
instinto violento, precipitou-se para a escada. Assim que tocou no corrimão
caiu também.
- Com mil diabos! Estou fulminado!
A exclamação do canadense explicava tudo. Aquilo não era um
corrimão comum, mas um cabo de metal carregado de eletricidade. Quem lhe
tocasse receberia um choque que seria mortal, se o Capitão Nemo tivesse lançado
nele uma corrente de maior potência.
Os papuas, apavorados, tinham se retirado, enquanto nós
ríamos e consolávamos o infeliz Ned Land, que continuava praguejando como um
possesso. Sua ousadia fora bem castigada.
Logo depois, levantado pelas últimas ondas da maré cheia, o submarino deixava o leito de coral, exatamente na hora prevista pelo capitão. A hélice virava as águas com majestosa lentidão e a sua velocidade foi aumentando pouco a pouco. O “Nautilus”, navegando à superfície, deixou as perigosas paragens do Estreito de Torres, são e salvo.

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