quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 1 - Capitulo 19 e 20

Capítulo 19 e 20

 Fiquei vivamente impressionado ao pisarmos em terra. Ned Land experimentava o solo com os pés, como se estivesse praticando um ato para tomar posse dele. No entanto, havia apenas dois meses que, segundo a expressão do Capitão Nemo, éramos “passageiros” do “Nautilus”. Na verdade, éramos prisioneiros dele.

Caminhamos para o interior da ilha. Depois de atravessarmos uma mata pouco densa, encontramo-nos numa planície cheia de arbustos. Vi então elevarem-se nos ares magníficas aves. O vôo ondulado, a graça das curvas aéreas e o brilho das cores atraíam e deliciavam o olhar.

Não tive dificuldade em reconhecê-las.

- Aves-do-paraíso! - exclamei.

- Ordem dos pássaros, seção dos clistómoros - disse Conselho.

- Família dos pardais? - perguntou Ned Land.

- Não creio, mestre Land - falei-lhe. - Mesmo assim, conto com a sua destreza para apanhar um desses encantadores produtos da natureza tropical. Eu gostaria muito de ter um deles.

- Vou tentar, professor. No entanto, o senhor sabe que estou mais habituado a manejar o arpão do que a espingarda.

Os malaios, que fazem grande comércio destas aves com os chineses, dispõem de diversos meios para as apanhar, mas nós não tínhamos recursos para pô-los em prática.

Por volta. das onze horas da manhã, já tínhamos chegado ao primeiro plano das montanhas que formavam o centro da ilha. Para decepção de todos nós, mas principalmente de Ned Land, ainda não havíamos

caçado coisa alguma. A promessa dele já havia falhado. A fome apertava. Tínhamos nos fiado no produto da caça, mas ela não aparecera.

Felizmente, para sua grande surpresa, o meu criado assegurou-nos o almoço. Matou um pombo manso e um trocaz. Rapidamente depenados e espetados num pau, foram assados numa fogueira. Devorados até os ossos, nós os achamos excelentes. A noz-moscada de que costumam alimentar-se essas aves dá-lhes um sabor delicioso à carne.

- E agora, Ned, o que lhe falta? - perguntei ao canadense, ao terminarmos o repasto.

- Um quadrúpede, Sr. Aronnax. Esses pombos não passam de acepipes, de guloseimas. Enquanto não matar um animal que nos brinde com costeletas, não me senti- rei satisfeito.

- Nem eu, se não apanhar uma ave-do-paraíso - falei.

- Continuemos, portanto a caça - propôs Conselho - mas em direção ao mar. Chegamos às primeiras montanhas e acho que é melhor voltarmos à região das florestas.

Era uma proposta sensata e foi seguida. Após uma hora de marcha chegamos a uma floresta de salgueiros. Algumas serpentes inofensivas fugiam à nossa aproximação. As aves-do-paraíso desapareciam assim que nos viam e eu já me desiludia de apanhar uma delas quando Conselho, que ia à frente, abaixou-se de repente, soltou um grito de triunfo e correu para mim trazendo na mão uma delas.

- Você deu um golpe de mestre, Conselho! - elogiei-o, realmente admirado. - Apanhar uma ave-do-paraíso viva, à mão, não é façanha para qualquer um.

- Se o senhor a examinar de perto, verá que não tive grande mérito, professor - disse-me ele. A seguir, explicou o pouco valor de feito, em seu próprio julgamento: - Esta ave está. bêbada pela noz-moscada que devorava quando a peguei. Veja, amigo Ned, veja o resultado da intemperança!

- Com mil diabos! - retrucou o canadense. - Há dois meses que nem cheiro gim!

Entretanto, eu examinava a ave constatando que meu criado não se enganara. Ela estava realmente embriagada com o suco capitoso da fruta e completamente incapaz de voar. Pertencia à mais bela das oito espécies encontradas na Papuásia e nas ilhas vizinhas. Tratava-se de uma ave-do-paraíso “grande esmeralda”, uma das mais raras. Eu desejava ardentemente levar o soberbo espécime para o oferecer ao Jardim Botânico, que não possuía nenhum exemplar vivo dessas aves.

No entanto, se o meu desejo estava satisfeito com a captura da ave, o do canadense continuava desatendido. Felizmente, por volta das duas horas, Ned Land conseguiu abater um belo porco selvagem, ao qual os naturais da região chamam de bari-utang. O animal veio mesmo a calhar para nos fornecer verdadeira carne de quadrúpede. O arpoador não cabia em si de vaidoso, já que o porco caíra fulminado com o primeiro disparo que ele fizera. Teríamos costeletas na refeição da noite.

Estávamos muito satisfeitos com os resultados de nossa caçada. O alegre canadense propunha-se a regressar no dia seguinte àquela ilha encantada que ele pretendia despovoar de todos os quadrúpedes comestíveis. Mas não contava com o que estava para acontecer.

As seis horas da tarde, nós estávamos na praia, próximos ao bote. O “Nautilus”, semelhante a um grande escolho, emergia das águas a duas milhas de distância.

Ned Land, sem mais delongas, ocupou-se da importante tarefa de fazer o jantar. As costeletas do bari-utang, assando-se nas brasas exalavam um cheiro delicioso que perfumava a atmosfera. Degustávamos antecipadamente o prazer de um excelente jantar.

- E se não voltássemos esta noite ao “Nautilus?” -lembrou Conselho, numa perigosa proposta.

- E se nunca mais voltássemos? - Ned Land fez justamente a pergunta que eu esperava ouvir dele.

 Naquele momento, uma pedra caiu aos nossos pés, interrompendo a proposta do canadense.

As pedras não caem assim do céu! - disse Conselho.

Uma segunda pedra, cuidadosamente arredondada, que tirou da mão de Conselho um pedaço de carne, assustou-nos.

 Levantamo-nos os três, de espingardas em punho, prontos para responder a qualquer ataque.

- Serão macacos? - perguntou Ned Land.

- Mais ou menos - respondeu Conselho. - São selvagens.

- Corramos para o bote! - apressei-os, dirigindo-me para o mar.

De fato, era forçoso que fugíssemos, porque uns vinte indígenas, armados de arcos e fundas, surgiam na orla de uma mata à direita de onde estávamos, a cerca de cem passos. Aproximavam-se sem correr, mas demonstrando hostilidade, atirando suas pedras e flechas contra nós.

 Chegamos em dois minutos à beira do mar. Carregar o bote com as nossas provisões da caçada, empurrá-lo para a água e montar os remos, foi uma questão de segundos. Ainda não tínhamos avançado dez metros e já uma centena de selvagens, gritando e gesticulando, entrava na água.

 Vinte minutos depois estávamos chegando a bordo do “Nautilus”. Os alçapões estavam abertos e penetramos nele. Fui diretamente ao salão de onde saíam alguns acordes de órgão. Encontrei o Capitão Nemo curvado sobre ele e mergulhado num verdadeiro êxtase musical. Precisei de chamá-lo duas vezes, para que me desse atenção.

- Ah! É o professor - falou, voltando-se para mim. - Então fez boa caçada?

- Sim, capitão, mas infelizmente trouxemos um bando de bípedes cuja presença me parece muito inquietante.

- Selvagens - adivinhou ele e comentou num tom irônico. - O senhor admira-se de ter encontrado selvagens nesta região? Onde é que não há selvagens, professor? Aliás, os daqui serão piores do que aqueles que o senhor não considera como tais?

- Mas, capitão...

- Eu pelo menos os tenho encontrado em todos os lugares.

- Pois bem, não vou discutir o seu ponto de vista. Mas se não quer receber os selvagens daqui, a bordo do “Nautilus”, acho que deve tomar algumas precauções.

- Tranquilize-se, professor, não há motivo para preocupações.

- Mas são numerosos, capitão. Há uma centena deles vindo para cá.

- Sr. Aronnax - disse ele, voltando sua atenção para o teclado do órgão - mesmo que todos os indígenas da Papuásia se tivessem reunido na praia, o “Nautilus” nada teria a recear dos seus ataques.

Os dedos do capitão começaram então a percorrer o teclado. Notei que ele tocava apenas nas teclas pretas, o que dava à música um colorido essencialmente escocês. Não tardou a esquecer a minha presença e a mergulhar num devaneio que eu não quis perturbar.

Subi à plataforma. Já era noite, porque naquela latitude o sol se põe rapidamente e sem crepúsculo. Eu mal distinguia a ilha, mas as numerosas fogueiras acesas na praia indicavam que os indígenas não a tinham abandonado. Permaneci um longo tempo atento a qualquer movimentação deles. Por volta da meia-noite, vendo que tudo continuava tranquilo, voltei para o meu quarto e dormi sem maiores preocupações.

As oito horas da manhã seguinte, subi à plataforma. Os indígenas continuavam na praia, mas em número bem superior aos que eu vira na véspera. Agora seriam uns quinhentos ou seiscentos. Aproveitando a maré baixa alguns deles tinham avançado pelos corais e estavam a menos de quatrocentos metros do submarino. Eu podia vê-los muito bem. Eram papuas, de porte atlético, homens de uma bela raça, de testa alta, nariz grosso mas não achatado e dentes brancos. Em geral, andavam nus. Notei a presença de algumas mulheres, vestidas com uma verdadeira saia de ervas presa na cintura cobrindo até os joelhos.

Quase todos os homens estavam armados de arcos, flechas e portavam escudos. Traziam ao ombro uma espécie de rede que continha as pedras arredondadas que atiram certeiramente com as fundas.

Um dos chefes, bastante próximo do “Nautilus”, observava-o com atenção. Devia ser um “mado” de alta estirpe, porque trazia uma esteira de folhas de bananeira, recortada nas pontas e pintada com diversas cores. Eu poderia facilmente abatê-lo com um tiro, mas pensei que seria melhor aguardar demonstrações mais hostis da parte deles. Entre europeus e selvagens, convém que os europeus não ataquem primeiro.

Durante todo o tempo que durou a maré baixa, os indígenas rondaram perto do “Nautilus”, mas não se mostraram agressivos. Eu os ouvia dizendo seguidamente a palavra “assai”, e pelos seus gestos compreendi que me convidavam para ir a terra, convite que não aceitei. As onze horas da manhã, quando as cristas dos corais começaram a desaparecer sob as águas da maré que subia, eles voltaram para a terra.

Não tendo nada de melhor para fazer, chamei Conselho e pedi a ele que me trouxesse uma rede pequena, dessas utilizadas para apanhar ostras. Ele a trouxe logo e ficou ao meu lado, ajudando-me a puxar a rede que sempre vinha carregada com conchas comuns, ostras perlíferas e algumas tartarugas pequenas. Sempre observando o que apanhávamos, eu encontrei uma concha que me chamou a atenção porque a sua. espira em vez de estar enrolada da direita para a esquerda, estava enrolada da esquerda para a direita. Uma concha canhota.

Eu estava observando o meu precioso achado quando uma pedra atirada desastradamente por um indígena quebrou-a na mão de meu criado que a segurava naquele momento. Soltei uma exclamação de aborrecimento. Aquela concha era realmente um belo objeto.

Conselho pegou a espingarda e fez pontaria em um selvagem que balançava a sua funda a uma distância de dez metros de nós. Tentei impedi-lo de disparar, mas o tiro saiu e a bala foi quebrar a pulseira de amuletos que pendia do braço do indígena.

- Foi aquele canibal que começou o ataque, senhor! - desculpou-se ele, quando reprovei o seu ato.

A situação alterou-se em poucos instantes. Cerca de vinte pirogas cheias de indígenas se dirigiram para o “Nautilus”.

- Vou prevenir o Capitão Nemo - falei e desci rapidamente pelo alçapão. Uma chuva de flechas começara a cair na plataforma do barco.

Fui encontrar o capitão no seu quarto e lhe expus a situação.

Ele me ouviu tranquilamente e depois disse:

- Então só temos que fechar os alçapões.

- Precisamente, capitão. As pirogas dos indígenas estão a cercar-nos.

Dentro de alguns minutos seremos assaltados por algumas dezenas de selvagens.

- Não corremos tal risco, professor - sossegou-me o capitão.

Apertou um botão em sua mesa, aguardou um momento e me disse - Pronto, professor. O bote está guardado e os alçapões estão fechados. O senhor certamente não receia que esses cavalheiros derrubem as muralhas. que as balas da sua fragata não conseguiram penetrar.

- Não, capitão, mas existe ainda um perigo.

- Qual? A amanhã por esta hora, será preciso reabrir os alçapões para renovar o ar do “Nautilus”. Se nessa ocasião os papuas ainda estiverem na nossa plataforma, não vejo como os impedirá de entrarem a bordo.

Como são algumas centenas.

- Pois bem, que entrem. Não vejo motivo algum para impedi-los. No fundo, esses papuas são uns pobres-diabos, e não desejo que a minha estada na ilha Gueboroar fique assinalada pela morte de algum desses infelizes. Amanhã - acrescentou ele, após uma pequena pausa - às duas horas e quarenta minutos da tarde, o “Nautilus” flutuará e deixará, sem qualquer avaria, o Estreito de Torres.

Ditas estas palavras, o Capitão Nemo inclinou-se ligeiramente, indicando que a nossa entrevista havia terminado.

No dia seguinte trabalhei em minhas anotações até as onze horas. Não percebi nenhum movimento a bordo que significasse qualquer preparação para uma partida na parte da tarde. Aguardei mais algum tempo e depois me dirigi para o salão. O relógio marcava duas horas e meia.

Dentro de dez minutos a maré atingiria o máximo de sua altura e, se o Capitão Nemo não tivesse feito uma promessa vã, o “Nautilus” flutuaria imediatamente para partirmos.

Não tardei a perceber alguns estremecimentos de :bom augúrio no casco do navio e ouvi rangerem as asperezas calcárias do fundo coralígeno nas chapas de ferro.

As duas horas e trinta e cinco minutos, o Capitão Nemo apareceu no salão e me disse:

- Vamos partir. Já dei ordens para que os alçapões sejam abertos.

- E os papuas? Não vão entrar no “Nautilus”, capitão?

- Sr. Aronnax - respondeu-me ele, tranquilamente - não se entra à vontade pelos alçapões do meu barco, mesmo quando estão abertos.

Olhei para ele, sem esconder a minha incredulidade.

- Venha comigo, professor, venha ver pessoalmente.

Acompanhei-o para a escada central onde Ned Land e Conselho, muito intrigados, observavam alguns homens da tripulação que abriam os alçapões, enquanto se ouviam no exterior os gritos ameaçadores dos papuas. Os postigos foram descidos exteriormente e apareceram vinte caras horríveis. Mas o primeiro indígena que pegou no corrimão da escada foi projetado para trás, eu não sabia por que força invisível, e pôs-se em fuga, dando gritos de terror e enormes saltos. Seguiram-se lhe dez companheiros, que tiveram a mesma sorte.

Conselho estava extasiado. Ned Land, levado pelo seu instinto violento, precipitou-se para a escada. Assim que tocou no corrimão caiu também.

- Com mil diabos! Estou fulminado!

A exclamação do canadense explicava tudo. Aquilo não era um corrimão comum, mas um cabo de metal carregado de eletricidade. Quem lhe tocasse receberia um choque que seria mortal, se o Capitão Nemo tivesse lançado nele uma corrente de maior potência.

Os papuas, apavorados, tinham se retirado, enquanto nós ríamos e consolávamos o infeliz Ned Land, que continuava praguejando como um possesso. Sua ousadia fora bem castigada.

Logo depois, levantado pelas últimas ondas da maré cheia, o submarino deixava o leito de coral, exatamente na hora prevista pelo capitão. A hélice virava as águas com majestosa lentidão e a sua velocidade foi aumentando pouco a pouco. O “Nautilus”, navegando à superfície, deixou as perigosas paragens do Estreito de Torres, são e salvo. 

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS