Chegávamos enfim à floresta, sem. dúvida uma das mais belas
do imenso domínio do Capitão Nemo. Ele a considerava sua e julgava ter sobre
ela os mesmos direitos que tinham os homens primitivos na alvorada da
humanidade. Aliás, quem lhe disputaria aquela propriedade submarina? Que outro
pioneiro mais ousado, viria, de machado na mão, cortar-lhe a mata?
Aquela floresta era composta por grandes plantas
arborescentes, e assim que penetramos debaixo das suas ramagens, os meus olhos sentiram-se
atraídos pela estranha disposição dos ramos, a qual nunca tinha visto até então
nas florestas da superfície terrestre.
Nenhuma erva das que atapetavam o solo, nenhum ramo dos
arbustos se enroscava ou se estendia num plano horizontal: todos subiam para a superfície
do mar. Não havia um filamento, uma fita, por mais delgada que fosse, que não
se mantivesse direita como se fosse um fio de ferro.
Notei também que todos os espécimes do reino vegetal:
estavam presos ao solo apenas por uma ligação superficial. Desprovidos de
raízes, indiferentes ao corpo sólido, areia, concha ou pedra, que as suportava apenas
lhe pediam apoio e não vitalidade. Essas plantas provêm de si mesmas e o
princípio de sua existência está na água, que as sustenta e alimenta.
Por volta de uma hora o Capitão Nemo fez sinal para que
parássemos.
Por mim, fiquei muito satisfeito, e estendemo-nos debaixo de
uma árvore, cujos longos e estreitos ramos se erguiam como flechas. Depois de
quatro horas a andar, surpreendi-me por não sentir fome. Não sabia como
explicar aquela disposição do estômago, mas em contrapartida, sentia uma
irresistível vontade de dormir, como acontece a todos os mergulhadores.
Portanto, os olhos não tardaram a fechar-se por trás do espesso vidro e
mergulhei numa sonolência invencível, que até então tinha sido combatida pela
marcha. O Capitão Nemo e o seu robusto companheiro, estendidos naquele líquido
cristalino, também se entregaram ao sono.
Não posso precisar por quanto tempo permaneci naquela
letargia, mas quando acordei pareceu-me que o sol se punha no horizonte. O
capitão já se erguera, e eu começava a desentorpecer os membros quando uma inesperada
aparição me fez levantar bruscamente.
A alguns passos de distância, uma monstruosa aranha do mar,
com um metro de altura, olhava-me com os seus olhos vesgos, prestes a atirar se
sobre mim. Embora o meu escafandro fosse suficientemente espesso para me
defender contra as mordeduras da aranha não pude evitar um movimento de horror.
O Capitão Nemo apontou ao seu companheiro o hediondo animal, que foi
imediatamente abatido com uma coronhada. Vi as horríveis patas do monstro
contorcerem-se em convulsões terríveis.
Esse episódio levou-me a pensar que outros animais ainda
mais temíveis habitavam aquelas profundidades e que o meu escafandro não me protegeria
contra os seus ataques. Até então ainda não me ocorrera tal idéia e decidi ter
mais cuidado.
Por volta das quatro horas, aquela maravilhosa excursão
chegou ao seu termo. Erguia-se diante de nós uma muralha de rochas soberbas,
blocos gigantescos, enorme falésia de granito com grutas obscuras, mas sem nenhum
caminho praticável. Eram as escarpas da ilha Crespo. Era a terra.
O capitão parou de repente. Com um gesto indicou-nos que
fizéssemos o mesmo. Ali acabavam-se os seus domínios e ele não queria ultrapassá-los.
Para diante era aquela porção do globo terrestre que ele não queria tornar a
pisar.
De regresso ao “Nautilus” andávamos calmamente quando vi o
Capitão Nemo apontar a arma e seguir um vulto móvel que se insinuava entre os arbustos.
A bala partiu, ouvi um fraco silvo e um animal foi cair fulminado a alguns
passos de nós. Era uma magnífica lontra do mar, o
único quadrúpede exclusivamente marinho. O companheiro do
capitão apanhou o animal, colocou-o sobre os ombros e continuamos a caminhar.
Durante duas horas atravessamos, ora planícies arenosas ora
pradarias de sargaço, muito difíceis de se caminhar nelas. Francamente eu já
não aguentava mais, quando avistei uma luz fraca a cerca de meia milha, rompendo
a obscuridade das águas. Era o farol do “Nautilus”. Fiquei realmente satisfeito
com a proximidade do descanso.
Eu tinha ficado uns vinte passos para trás, quando vi o
Capitão Nemo retroceder em minha direção. Com a sua mão vigorosa atirou-me ao chão,
enquanto o seu companheiro fazia o mesmo ao meu criado.
A princípio eu não soube o que pensar daquele ataque brusco,
mas fiquei mais tranquilo ao ver que o capitão se deitava a meu lado e
permanecia imóvel. Estávamos estendidos no solo e abrigados por uma moita de sargaços,
quando ao levantar a cabeça vi duas enormes massas que passavam ruidosamente,
lançando clarões fosforescentes.
O sangue gelou-se-me nas veias ao reconhecer os enormes
esqualos que nos ameaçavam. Era um casal de “tintoreas”, terríveis tubarões, com
uma cauda comprida, olhar vítreo, que expelem uma matéria fosforescente por uns
orifícios que possuem à volta do focinho. Animais monstruosos, que podem
triturar um homem com os seus maxilares de ferro.
Felizmente esses vorazes animais têm uma visão muito débil,
e passaram por nós sem nos ver, roçando-nos com as suas barbatanas negras.
Pudemos escapar como que por milagre àquele grande perigo,
certamente maior do que o que existe num encontro com um tigre das florestas
terrestres.
Três minutos depois, orientados pelo foco elétrico,
estávamos entrando no “Nautilus”
Capítulo 17
Na manhã seguinte, dia 18 de novembro, já refeito das
fadigas da véspera, subi à plataforma no momento em que o imediato pronunciava a
sua frase quotidiana. Veio-me então a idéia de que ele devia estar informando
sobre o estado do mar e que as suas palavras significariam:
“Nada à vista!”
Eu admirava o magnífico aspecto do oceano, quando o Capitão
Nemo apareceu. Tive a impressão de que ele não se apercebeu da minha presença e
iniciou uma série de observações técnicas. Terminado o trabalho, foi
encostar-se ao farol e o seu olhar perdeu-se no horizonte.
Entretanto, uns vinte marinheiros do “Nautilus”, todos eles
homens vigorosos e bem constituídos, tinham subido à plataforma para puxar as redes
lançadas durante a noite. Percebi que os homens eram oriundos de nações
diferentes, embora o tipo europeu fosse comum a todos.
Reconheci irlandeses, franceses, alguns escandinavos e um
grego. Aliás, esses homens eram muito sóbrios de palavras, e só utilizavam
entre si aquele estranho idioma, cuja origem eu nem suspeitava. Assim, tive de renunciar
ao meu desejo de interrogá-los.
As redes foram içadas para bordo. Calculei que tinham
trazido mais de mil libras de peixes. Terminada a pesca e renovada a provisão
de ar, pensei que o “Nautilus” iria continuar a sua excursão submarina e me preparava
para descer ao meu quarto quando, virando-se para mim, o Capitão Nemo disse:
- Veja este oceano, professor. Não é dotado de uma vida
real? Não tem as suas iras e ternuras? Ontem adormeceu como nós, e agora desperta
após uma noite de calma.
Nem bom-dia, nem boa-noite! Parecia que aquele estranho
personagem reatava comigo uma conversa suspensa poucos minutos antes. Ele continuou
falando:
- Repare: desperta com as carícias do sol. Vai reviver a sua
existência diurna. É um estudo interessante seguir o funcionamento do seu
organismo. Possui pulso, artérias, espasmos e dou razão ao sábio Maury, que descobriu
no mar uma circulação tão real como a circulação sanguínea nos animais.
Era evidente que o Capitão Nemo não esperava qualquer
resposta minha, e pareceu-me inútil pronunciar as habituais banalidades. Após uma
breve pausa, ele continuou :
- Os sais encontram-se em quantidade considerável no mar. Se
extraíssem todos os sais que o mar contém em suspensão, obteríamos uma massa de
quatro e meio milhões de léguas cúbicas. Essa massa, espalhada no globo
terrestre, formaria uma camada com mais de dez metros de altura. E não pense
que a presença desses sais se deve a um capricho da natureza. Não! Tornam as
águas marinhas menos evaporáveis e impedem o vento de lhes roubar uma
quantidade demasiado grande de vapores que, ao se liquefazerem, submergiriam as
zonas temperadas.
Papel importante e imenso, papel moderador na economia geral
do globo terrestre.
Ao falar desse modo, o Capitão Nemo transfigurava-se, o que
provocava em mim uma extraordinária emoção.
- Aqui - continuou ele - existe a verdadeira vida. Imagine a
fundação de cidades aquáticas, de aglomerados de casas submarinas que, como o “Nautilus”,
subissem todas as manhãs à superfície dos mares para respirar. Cidades livres,
cidades independentes! E daí, talvez algum tirano...
O Capitão Nemo disse essas últimas palavras e fez um gesto
violento.
Depois, como que para afastar algum pensamento funesto,
perguntou-me:
- O professor sabe qual é a profundidade média dos oceanos?
- Sei apenas o que as últimas sondagens nos revelaram. Se
não me engano, verificou-se uma profundidade média de oito mil e duzentos metros
no Atlântico Norte e de dois mil e quinhentos metros no Mediterrâneo. As
sondagens mais importantes foram feitas no Atlântico Sul, perto do trigésimo
quinto grau, e deram: doze mil metros, quatorze mil e noventa “e um metros e
quinze mil cento e quarenta e nove metros.
Resumindo, calcula-se que se o fundo do mar fosse uniforme
teria uma profundidade média de cerca de sete quilômetros.
- Espero mostrar-lhe algo melhor do que isso - disse-me o
capitão. -Quanto à profundidade média desta zona do Pacífico, digo-lhe que é de
apenas quatro mil metros.
Dito isto, dirigiu-se para o alçapão e desapareceu pela
escada. Eu o segui e fui para o salão. A hélice pôs-se imediatamente em
movimento e o navio atingiu uma velocidade de vinte milhas por hora.
Nos dias e semanas que se seguiram, eu o vi muito raramente.
O imediato fazia o ponto de nossa posição todos os dias e o assinalava no mapa.
Assim eu podia seguir a rota do “Nautilus”.
Conselho e Land passavam muitas horas comigo. Conselho tinha
contado ao amigo as maravilhas do nosso passeio e o canadense lamentava não nos
ter acompanhado. Para consolo dele, todos os dias, durante algumas horas,
abriam-se os painéis do salão e os nossos olhos nunca se cansavam de apreciar
os mistérios do mundo submarino.
No dia 26 de
novembro, às três horas da manhã, o “Nautilus” chegou ao Trópico de Câncer, a
cento e setenta e dois graus de longitude. A 27, passou pelas ilhas Sandwich,
onde o ilustre Capitão Cook encontrou a morte no dia 14 de fevereiro de 1779.
Tínhamos então percorrido quatro mil oitocentas e sessenta léguas desde a
partida.
De manhã, quando subi
à plataforma, avistei, a duas milhas para sotavento, o Havaí, a maior das sete
ilhas que formam o arquipélago do mesmo nome. A direção do “Nautilus”
mantinha-se para sueste. Passou o Equador no dia 1.° de dezembro, a 142° de
longitude, e no dia 4 do mesmo mês, após uma rápida travessia que decorreu sem
qualquer incidente, avistamos o grupo das ilhas Marquesas- Distingui a três milhas,
a 800 57' de latitude sul e 1390 32' de longitude oeste, a ponta Martin, de
NoukaHiva, a ilha principal deste grupo, que pertence à França. Vi apenas as
montanhas cobertas de arvoredo, que se desenhavam no horizonte, porque o
Capitão Nemo não gostava de se aproximar de terra.
Após ter deixado essas ilhas paradisíacas, protegidas pela
bandeira francesa, o “Nautilus” percorreu, do dia 4 ao dia 11 de dezembro, cerca
de duas mil milhas. Passei o dia 11 de dezembro a ler no grande salão. Ned Land
e Conselho observavam as águas luminosas através dos painéis entreabertos’ O
“Nautilus” mantinha-se agora imóvel. Com os reservatórios cheios, conservava-se
a uma profundidade de mil metros, região pouco habitada, onde os peixes de
grande porte apareciam de vez em quando.
Eu lia o encantador livro de Jean Macé “Les Serviteurs de
1’estomac”, saboreando as suas engenhosas lições, quando Conselho me
interropeu:
- Queira desculpar-me, professor, mas venha ver isso aqui.
Levantei-me, aproximei-me do vidro e olhei pelo painel.
Iluminada pela luz elétrica, uma enorme massa escura e
imóvel mantinha-se suspensa no meio das águas. Observei-a atentamente, tentando
reconhecer a natureza do gigantesco cetáceo. Mas de repente um pensamento
atravessou-me o espírito.
- É um navio! - exclamei.
- Sim - confirmou o canadense. - Um navio que naufragou.
Tínhamos diante de nós um navio, cujos cabos cortados
pendiam ainda das respectivas cadeias. O casco parecia estar em bom estado e o naufrágio
devia ter ocorrido poucas horas antes. Três pedaços de mastros, cortados dois
pés acima do convés, indicavam que o navio se vira forçado a sacrificar a mastreação.
Mas, adernando de flanco, tinha-se enchido de água e afundara, inclinado para
bombordo. Triste espetáculo, ver aquela carcaça perdida nas águas. Ainda mais
triste era ver os cadáveres no convés, amarrados por cordas. Vi quatro homens,
um dos quais se mantinha de pé, preso ao leme, e uma mulher meio saída pela clarabóia
do tombadilho, segurando uma criança nos braços. Era uma mulher jovem, pois
pude ver-lhe claramente as feições iluminadas pelo farol do “Nautilus”. Num
esforço supremo, ela tinha erguido o filho acima da cabeça, pobre criatura
cujos bracinhos se agarravam ao pescoço da mãe. A postura dos quatro
marinheiros era assustadora, contorcendo-se em movimentos convulsivos, fazendo
um derradeiro esforço para se libertarem das cordas que os prendiam ao navio.
Só, mais calmo, o rosto grave e sério, cabelos grisalhos colados à testa e as mãos
crispadas no leme, o timoneiro parecia ainda conduzir o seu navio naufragado
através das profundezas do oceano.
Que espetáculo! Ficamos mudos, com os corações a palpitarem
diante daquele naufrágio recente, e por assim dizer fotografado nos seus momentos
derradeiros. Via já avançar, com os olhos inflamados, enormes esqualos,
atraídos por aquelas iscas de carne humana.
Entretanto, o “Nautilus”, dando uma volta ao navio submerso, permitiu me ler-lhe na ré: “Flórida, Sunderland”.

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