quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 1 - Capítulo 16 e 17


 Capítulo 16

Chegávamos enfim à floresta, sem. dúvida uma das mais belas do imenso domínio do Capitão Nemo. Ele a considerava sua e julgava ter sobre ela os mesmos direitos que tinham os homens primitivos na alvorada da humanidade. Aliás, quem lhe disputaria aquela propriedade submarina? Que outro pioneiro mais ousado, viria, de machado na mão, cortar-lhe a mata?

Aquela floresta era composta por grandes plantas arborescentes, e assim que penetramos debaixo das suas ramagens, os meus olhos sentiram-se atraídos pela estranha disposição dos ramos, a qual nunca tinha visto até então nas florestas da superfície terrestre.

Nenhuma erva das que atapetavam o solo, nenhum ramo dos arbustos se enroscava ou se estendia num plano horizontal: todos subiam para a superfície do mar. Não havia um filamento, uma fita, por mais delgada que fosse, que não se mantivesse direita como se fosse um fio de ferro.

Notei também que todos os espécimes do reino vegetal: estavam presos ao solo apenas por uma ligação superficial. Desprovidos de raízes, indiferentes ao corpo sólido, areia, concha ou pedra, que as suportava apenas lhe pediam apoio e não vitalidade. Essas plantas provêm de si mesmas e o princípio de sua existência está na água, que as sustenta e alimenta.

Por volta de uma hora o Capitão Nemo fez sinal para que parássemos.

Por mim, fiquei muito satisfeito, e estendemo-nos debaixo de uma árvore, cujos longos e estreitos ramos se erguiam como flechas. Depois de quatro horas a andar, surpreendi-me por não sentir fome. Não sabia como explicar aquela disposição do estômago, mas em contrapartida, sentia uma irresistível vontade de dormir, como acontece a todos os mergulhadores. Portanto, os olhos não tardaram a fechar-se por trás do espesso vidro e mergulhei numa sonolência invencível, que até então tinha sido combatida pela marcha. O Capitão Nemo e o seu robusto companheiro, estendidos naquele líquido cristalino, também se entregaram ao sono.

Não posso precisar por quanto tempo permaneci naquela letargia, mas quando acordei pareceu-me que o sol se punha no horizonte. O capitão já se erguera, e eu começava a desentorpecer os membros quando uma inesperada aparição me fez levantar bruscamente.

A alguns passos de distância, uma monstruosa aranha do mar, com um metro de altura, olhava-me com os seus olhos vesgos, prestes a atirar se sobre mim. Embora o meu escafandro fosse suficientemente espesso para me defender contra as mordeduras da aranha não pude evitar um movimento de horror. O Capitão Nemo apontou ao seu companheiro o hediondo animal, que foi imediatamente abatido com uma coronhada. Vi as horríveis patas do monstro contorcerem-se em convulsões terríveis.

Esse episódio levou-me a pensar que outros animais ainda mais temíveis habitavam aquelas profundidades e que o meu escafandro não me protegeria contra os seus ataques. Até então ainda não me ocorrera tal idéia e decidi ter mais cuidado.

Por volta das quatro horas, aquela maravilhosa excursão chegou ao seu termo. Erguia-se diante de nós uma muralha de rochas soberbas, blocos gigantescos, enorme falésia de granito com grutas obscuras, mas sem nenhum caminho praticável. Eram as escarpas da ilha Crespo. Era a terra.

O capitão parou de repente. Com um gesto indicou-nos que fizéssemos o mesmo. Ali acabavam-se os seus domínios e ele não queria ultrapassá-los. Para diante era aquela porção do globo terrestre que ele não queria tornar a pisar.

De regresso ao “Nautilus” andávamos calmamente quando vi o Capitão Nemo apontar a arma e seguir um vulto móvel que se insinuava entre os arbustos. A bala partiu, ouvi um fraco silvo e um animal foi cair fulminado a alguns passos de nós. Era uma magnífica lontra do mar, o

único quadrúpede exclusivamente marinho. O companheiro do capitão apanhou o animal, colocou-o sobre os ombros e continuamos a caminhar.

Durante duas horas atravessamos, ora planícies arenosas ora pradarias de sargaço, muito difíceis de se caminhar nelas. Francamente eu já não aguentava mais, quando avistei uma luz fraca a cerca de meia milha, rompendo a obscuridade das águas. Era o farol do “Nautilus”. Fiquei realmente satisfeito com a proximidade do descanso.

Eu tinha ficado uns vinte passos para trás, quando vi o Capitão Nemo retroceder em minha direção. Com a sua mão vigorosa atirou-me ao chão, enquanto o seu companheiro fazia o mesmo ao meu criado.

A princípio eu não soube o que pensar daquele ataque brusco, mas fiquei mais tranquilo ao ver que o capitão se deitava a meu lado e permanecia imóvel. Estávamos estendidos no solo e abrigados por uma moita de sargaços, quando ao levantar a cabeça vi duas enormes massas que passavam ruidosamente, lançando clarões fosforescentes.

O sangue gelou-se-me nas veias ao reconhecer os enormes esqualos que nos ameaçavam. Era um casal de “tintoreas”, terríveis tubarões, com uma cauda comprida, olhar vítreo, que expelem uma matéria fosforescente por uns orifícios que possuem à volta do focinho. Animais monstruosos, que podem triturar um homem com os seus maxilares de ferro.

Felizmente esses vorazes animais têm uma visão muito débil, e passaram por nós sem nos ver, roçando-nos com as suas barbatanas negras.

Pudemos escapar como que por milagre àquele grande perigo, certamente maior do que o que existe num encontro com um tigre das florestas terrestres.

Três minutos depois, orientados pelo foco elétrico, estávamos entrando no “Nautilus”

Capítulo 17

Na manhã seguinte, dia 18 de novembro, já refeito das fadigas da véspera, subi à plataforma no momento em que o imediato pronunciava a sua frase quotidiana. Veio-me então a idéia de que ele devia estar informando sobre o estado do mar e que as suas palavras significariam:

“Nada à vista!”

Eu admirava o magnífico aspecto do oceano, quando o Capitão Nemo apareceu. Tive a impressão de que ele não se apercebeu da minha presença e iniciou uma série de observações técnicas. Terminado o trabalho, foi encostar-se ao farol e o seu olhar perdeu-se no horizonte.

Entretanto, uns vinte marinheiros do “Nautilus”, todos eles homens vigorosos e bem constituídos, tinham subido à plataforma para puxar as redes lançadas durante a noite. Percebi que os homens eram oriundos de nações diferentes, embora o tipo europeu fosse comum a todos.

Reconheci irlandeses, franceses, alguns escandinavos e um grego. Aliás, esses homens eram muito sóbrios de palavras, e só utilizavam entre si aquele estranho idioma, cuja origem eu nem suspeitava. Assim, tive de renunciar ao meu desejo de interrogá-los.

As redes foram içadas para bordo. Calculei que tinham trazido mais de mil libras de peixes. Terminada a pesca e renovada a provisão de ar, pensei que o “Nautilus” iria continuar a sua excursão submarina e me preparava para descer ao meu quarto quando, virando-se para mim, o Capitão Nemo disse:

- Veja este oceano, professor. Não é dotado de uma vida real? Não tem as suas iras e ternuras? Ontem adormeceu como nós, e agora desperta após uma noite de calma.

Nem bom-dia, nem boa-noite! Parecia que aquele estranho personagem reatava comigo uma conversa suspensa poucos minutos antes. Ele continuou falando:

- Repare: desperta com as carícias do sol. Vai reviver a sua existência diurna. É um estudo interessante seguir o funcionamento do seu organismo. Possui pulso, artérias, espasmos e dou razão ao sábio Maury, que descobriu no mar uma circulação tão real como a circulação sanguínea nos animais.

Era evidente que o Capitão Nemo não esperava qualquer resposta minha, e pareceu-me inútil pronunciar as habituais banalidades. Após uma breve pausa, ele continuou :

- Os sais encontram-se em quantidade considerável no mar. Se extraíssem todos os sais que o mar contém em suspensão, obteríamos uma massa de quatro e meio milhões de léguas cúbicas. Essa massa, espalhada no globo terrestre, formaria uma camada com mais de dez metros de altura. E não pense que a presença desses sais se deve a um capricho da natureza. Não! Tornam as águas marinhas menos evaporáveis e impedem o vento de lhes roubar uma quantidade demasiado grande de vapores que, ao se liquefazerem, submergiriam as zonas temperadas.

Papel importante e imenso, papel moderador na economia geral do globo terrestre.

Ao falar desse modo, o Capitão Nemo transfigurava-se, o que provocava em mim uma extraordinária emoção.

- Aqui - continuou ele - existe a verdadeira vida. Imagine a fundação de cidades aquáticas, de aglomerados de casas submarinas que, como o “Nautilus”, subissem todas as manhãs à superfície dos mares para respirar. Cidades livres, cidades independentes! E daí, talvez algum tirano...

O Capitão Nemo disse essas últimas palavras e fez um gesto violento.

Depois, como que para afastar algum pensamento funesto, perguntou-me:

- O professor sabe qual é a profundidade média dos oceanos?

- Sei apenas o que as últimas sondagens nos revelaram. Se não me engano, verificou-se uma profundidade média de oito mil e duzentos metros no Atlântico Norte e de dois mil e quinhentos metros no Mediterrâneo. As sondagens mais importantes foram feitas no Atlântico Sul, perto do trigésimo quinto grau, e deram: doze mil metros, quatorze mil e noventa “e um metros e quinze mil cento e quarenta e nove metros.

Resumindo, calcula-se que se o fundo do mar fosse uniforme teria uma profundidade média de cerca de sete quilômetros.

- Espero mostrar-lhe algo melhor do que isso - disse-me o capitão. -Quanto à profundidade média desta zona do Pacífico, digo-lhe que é de apenas quatro mil metros.

Dito isto, dirigiu-se para o alçapão e desapareceu pela escada. Eu o segui e fui para o salão. A hélice pôs-se imediatamente em movimento e o navio atingiu uma velocidade de vinte milhas por hora.

Nos dias e semanas que se seguiram, eu o vi muito raramente. O imediato fazia o ponto de nossa posição todos os dias e o assinalava no mapa. Assim eu podia seguir a rota do “Nautilus”.

Conselho e Land passavam muitas horas comigo. Conselho tinha contado ao amigo as maravilhas do nosso passeio e o canadense lamentava não nos ter acompanhado. Para consolo dele, todos os dias, durante algumas horas, abriam-se os painéis do salão e os nossos olhos nunca se cansavam de apreciar os mistérios do mundo submarino.

 No dia 26 de novembro, às três horas da manhã, o “Nautilus” chegou ao Trópico de Câncer, a cento e setenta e dois graus de longitude. A 27, passou pelas ilhas Sandwich, onde o ilustre Capitão Cook encontrou a morte no dia 14 de fevereiro de 1779. Tínhamos então percorrido quatro mil oitocentas e sessenta léguas desde a partida.

 De manhã, quando subi à plataforma, avistei, a duas milhas para sotavento, o Havaí, a maior das sete ilhas que formam o arquipélago do mesmo nome. A direção do “Nautilus” mantinha-se para sueste. Passou o Equador no dia 1.° de dezembro, a 142° de longitude, e no dia 4 do mesmo mês, após uma rápida travessia que decorreu sem qualquer incidente, avistamos o grupo das ilhas Marquesas- Distingui a três milhas, a 800 57' de latitude sul e 1390 32' de longitude oeste, a ponta Martin, de NoukaHiva, a ilha principal deste grupo, que pertence à França. Vi apenas as montanhas cobertas de arvoredo, que se desenhavam no horizonte, porque o Capitão Nemo não gostava de se aproximar de terra.

Após ter deixado essas ilhas paradisíacas, protegidas pela bandeira francesa, o “Nautilus” percorreu, do dia 4 ao dia 11 de dezembro, cerca de duas mil milhas. Passei o dia 11 de dezembro a ler no grande salão. Ned Land e Conselho observavam as águas luminosas através dos painéis entreabertos’ O “Nautilus” mantinha-se agora imóvel. Com os reservatórios cheios, conservava-se a uma profundidade de mil metros, região pouco habitada, onde os peixes de grande porte apareciam de vez em quando.

Eu lia o encantador livro de Jean Macé “Les Serviteurs de 1’estomac”, saboreando as suas engenhosas lições, quando Conselho me interropeu:

- Queira desculpar-me, professor, mas venha ver isso aqui.

Levantei-me, aproximei-me do vidro e olhei pelo painel.

Iluminada pela luz elétrica, uma enorme massa escura e imóvel mantinha-se suspensa no meio das águas. Observei-a atentamente, tentando reconhecer a natureza do gigantesco cetáceo. Mas de repente um pensamento atravessou-me o espírito.

- É um navio! - exclamei.

- Sim - confirmou o canadense. - Um navio que naufragou.

Tínhamos diante de nós um navio, cujos cabos cortados pendiam ainda das respectivas cadeias. O casco parecia estar em bom estado e o naufrágio devia ter ocorrido poucas horas antes. Três pedaços de mastros, cortados dois pés acima do convés, indicavam que o navio se vira forçado a sacrificar a mastreação. Mas, adernando de flanco, tinha-se enchido de água e afundara, inclinado para bombordo. Triste espetáculo, ver aquela carcaça perdida nas águas. Ainda mais triste era ver os cadáveres no convés, amarrados por cordas. Vi quatro homens, um dos quais se mantinha de pé, preso ao leme, e uma mulher meio saída pela clarabóia do tombadilho, segurando uma criança nos braços. Era uma mulher jovem, pois pude ver-lhe claramente as feições iluminadas pelo farol do “Nautilus”. Num esforço supremo, ela tinha erguido o filho acima da cabeça, pobre criatura cujos bracinhos se agarravam ao pescoço da mãe. A postura dos quatro marinheiros era assustadora, contorcendo-se em movimentos convulsivos, fazendo um derradeiro esforço para se libertarem das cordas que os prendiam ao navio. Só, mais calmo, o rosto grave e sério, cabelos grisalhos colados à testa e as mãos crispadas no leme, o timoneiro parecia ainda conduzir o seu navio naufragado através das profundezas do oceano.

Que espetáculo! Ficamos mudos, com os corações a palpitarem diante daquele naufrágio recente, e por assim dizer fotografado nos seus momentos derradeiros. Via já avançar, com os olhos inflamados, enormes esqualos, atraídos por aquelas iscas de carne humana.

Entretanto, o “Nautilus”, dando uma volta ao navio submerso, permitiu me ler-lhe na ré: “Flórida, Sunderland”.

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS