terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Abutres humanos - Capítulo 03



CAPÍTULO TRÊS

Um grupo de cowboys que acabava de chegar à cidade entrou no saloon com ar cansado e poeira cobrindo seus rostos. Quando chegaram no balcão, O bartender já servira a bebida preferida de todos eles, uísque puro.
— Burt, se minha mulher soubesse meus gostos como você sabe, eu seria um homem feliz
— comentou um deles.
— Como foi o dia, rapazes? — indagou Burt, que havia sido cowboy antes da guerra e agora era sócio do Saloon da Rose, o mais frequentado da zona sulista da cidade.
— O mesmo trabalho de sempre, Burt — falou Doyle, tirando o chapéu e esfregando uma das mãos nos ralos cabelos. — O dia inteiro olhando traseiros de vacas. Pelo menos estamos livres do chumbo que anda correndo solto pelas ruas de Atlanta, não? Houve briga feia ainda há pouco.
Passamos por lá e vimos os cadáveres espalhados.
— Algum dos nossos?
— Dos dois lados.
— Sem contar que tentaram assaltar um coletor de impostos nas barbas sabe de quem?
— Oates Fordd?
— Ele mesmo. O bastardo é mais esperto que uma serpente. Ele e Riley despacharam uma porção deles para o inferno.
— Eram dos nossos?
— Acho que não, só pode ser gente de fora. Quem seria maluco de tentar isso na frente daqueles dois?
— É... Não devia mesmo conhecer Oates, aquele demônio — comentou o bartender, mas ninguém mais o ouvia, ocupados com suas bebidas.
O bartender foi até o fim do balcão, onde um velho grisalho, num surrado uniforme confederado, bebia sozinho seu uísque.
— Como eu estava lhe dizendo, Burt, parece que alguma coisa grande vai começar a acontecer por aqui, depois daquela reunião hoje na Mansão O'Brien. Os rapazes todos estavam lá — comentou ele.
— Tem alguma idéia do que seja?
— Nenhuma, mas o Coronel está no meio.
— E o resto dos rapazes?
— Não falei com nenhum deles. Esperei encontrá-los aqui.
— Ficarei atento. Alguém deverá saber o que está acontecendo.
O bartender retornou ao balcão, onde os cowboys terminavam suas bebidas. Repetiu-lhes a dose.
Chamou-os para mais junto de si. Os homens debruçaram-se sobre o balcão.
— Sabem alguma sobre o que houve lá para os lados do rio esta noite, pessoal? — indagou ele.
— Nada que saibamos com detalhes, Burt. Parece que houve uma reunião do nosso pessoal. Um amigo passou por lá, mas muito depois e já não havia mais ninguém para informar o que havia sido resolvido. Sei apenas que há uma notícia correndo por aí...
— Que notícia?
— Manda limparmos e remendarmos nossos uniformes e dobrarmos o lenço vermelho — informou o cowboy.
— Ninguém tem ao menos uma ideia do que esteja acontecendo?
— Não sabemos ao certo, Burt, mas estávamos justamente comentando isso. Exceto por esses dois tiroteios, percebeu como a noite está calma?
O bartender olhou ao seu redor. Percebeu que a maioria de seus habituais fregueses ainda não havia chegado. Sempre apareciam com uma história a mais de humilhação e sofrimento para contar. Naquela noite, porém, pareciam não ter motivos para beber e chorar as mágoas.
ã medida que a noite avançava, ao invés de aumentarem as confusões, como sempre acontecia, elas foram diminuindo. Dava para sentir nos ossos que alguma coisa estava acontecendo.
— Estranho? — comentava o bartender, a todo momento, com ar pensativo.
Todos os fregueses que entravam tinham a mesma sensação. Alguma coisa estava acontecendo e eles
desconheciam.
Era como se as pessoas tivessem alguma coisa muito importante para fazer naquela noite. Essa idéia não lhe saía da cabeça.
Passava um pouco das onze da noite, quando o xerife e seus assistentes passaram por ali para beber um trago.
— Que diabos estão fazendo aqui tão cedo? — indagou ele.— Estão desertando do serviço?
— Burt, tudo está em paz lá fora — afirmou o xerife, num tom misterioso.
— Isso tem alguma coisa a ver com a reunião na Mansão O'Brien?
— É possível...
A maneira como o xerife falava e sorria misteriosamente dava a entender que sabia o que estava acontecendo. E não podia ser de outra maneira.
O Xerife Jefferson era um sulista que, graças a sua tremenda habilidade e o apoio do Coronel Woodfarm, conseguira ser nomeado xerife da cidade dividida, tendo livre trânsito nos dois territórios.
— O que está acontecendo? — insistiu o bartender.— Os rapazes todos estão curiosos, Rose está curiosa. Se é algo contra os ianques, queremos todos saber e participar.
— Vocês terão sua chance, só posso lhe dizer isso por enquanto — assegurou o homem da lei.
— Espero que seja para breve, xerife. Estamos todos com esses ianques atravessados na garganta — comentou o bartender, mas interrompeu quando viu um velho soldado, apoiado numa muleta, entrar no bar e ir até uma parede, onde havia uma bandeira confederada pregada.
Espetou um pedaço de pano vermelho com um alfinete nela, deu o grito de guerra rebelde, depois retirou-se diante de todos os outros, que haviam feito silêncio.
O bartender deixou seu posto e foi até lá, olhar o pano que ele deixara. Era um pedaço de uma antiga bandeira confederada, com um nome escrito nela: Quantrill, o guerrilheiro que por muito tempo infernizara os ianques com seus ataques às cidades nortistas.
Seu bando havia sido, finalmente, destruído, sobrando apenas alguns nomes que agora enfeitavam cartazes de procura-se, espalhados nas árvores de todo o país.
O pano vermelho significava que Quantrill ou sua idéia estava de volta.
Quando retornou ao balcão, o xerife o olhava com interesse. Burt podia sentir em seus ossos que ele sabia algo sobre aquela historia toda, mas não a contaria.
— É um recado para limparmos as armas e os uniformes, xerife. Vamos voltar a agir contra os ianques?
— Vamos deixar esse assunto de lado, Burt. Apenas espere e vá limpando as armas... — recomendou o xerife. —
Onde está Rose?
— Lá encima.
— Vou falar com ela.
— Vai contar o que está havendo?
— Talvez.
— E ela dirá a nós?
— Pergunte a ela — finalizou o xerife, deixando-o sem resposta.
* * *
Os dois delegados haviam voltado para o escritório, onde ficava a Delegacia Federal. Após aqueles tiroteios, uma incrível calma havia se abatido no lado sulista da cidade.
— O que acha que pode estar havendo? — questionou Oates.
— Diabos como há muito tempo não vejo esta cidade tão parada. Alguma coisa está acontecendo?
— Será que tem alguma coisa a ver com o que houve lá na beira do rio?
— Refere-se à movimentação na velha Mansão O'Brien?
— Sim... Mas nada havia quando fomos lá. Será que o negro não se enganou?
— Quem pode saber. O pobre Pete "Noite Escura" não fica sóbrio desde que começou a guerra, pelo que sei.
— Talvez possamos obter algumas respostas — comentou Oates.
— Como?
— Indo ao Saloon da Rose.
— Onde?
— No Saloon da Rose — repetiu Oates.
Riley olhou-o com atenção, tentando descobrir se realmente o amigo falava sério.
— Não, Oates, de jeito nenhum — comentou, quando percebeu que sim.
— E por que não? Já estivemos lá antes...
— Ainda tenho a cicatriz nas costas da garrafada que levei, quando você cismou de não prestar continência àquela bandeira esfarrapada na parede.
— Ora, Riley, eu não podia. Jurei minha lealdade à União.
De repente, na janela que dava para um beco ao lado da delegacia, alguém bateu levemente.
Os dois delegados se olharam e sacaram seus Colts ao mesmo tempo.
— Oates! — chamou alguém lá fora.
O delegado se aproximou da janela e, quando ia abrí-la, uma voz feminina sussurrou lá de fora.
— Não, não abra, delegado!
Oates sentiu suas velhas cicatrizes doerem, alertando-o para um perigo muito próximo e muito mais perigoso que um tiro de Winchester.
Conhecia aquela voz, por mais que ela tentasse disfarçá-la.
— O que deseja? — indagou ele.
— Oates — disse a voz feminina. — Se for passar pela via férrea esta noite, olhe no telhado da loja de ferragens.
— É você?
Um riso surpreso e ao mesmo tempo envaidecido se ouviu do outro lado.
— Por favor, não abra a janela nem me siga, delegado.
Pode pôr a minha vida em perigo — murmurou ela.
Oates ficou ali, colado à janela, tendo a certeza de que aspirava o perfume dela, mas nada podia fazer. A mulher tinha razão. Toda e qualquer ação da parte dele poria a vida
dela em perigo.
— O que houve, Oates? — indagou Riley.
— Acho que já demoramos demais para fazermos nossa última ronda, Riley.
— Era ela?
— Com certeza.
— Quem pode querer sua cabeça tanto assim, a ponto de querer matar um delegado federal?
— Tem que ser mais do que pessoal, Riley. Vamos ver se descobrimos o que é...
Riley apanhou sua espingarda, uma bandoleira cheia de cartuchos, e seguiu-o.
— Desconfio, Riley, que há muita gente que não gosta de nós nesta cidade, não acha?
— É... Acho que você tem razão — concordou Riley, seguindo-o. — Esta noite estava calma demais para o meu gosto mesmo. Detesto o sossego, a paz, a tranqüilidade e a felicidade...
Uma tensão já conhecida instalou-se nos dois delegados federais.
Alguma coisa estava acontecendo na cidade. Uma coisa estranha que estava tirando das ruas os rebeldes brigões e deixando apenas os ianques provocadores à procura de encrenca, sem encontrar. Teria sido isso que os levara a armar aquela emboscada?
Seria uma forma daqueles malditos se divertirem?
Oates sabia muito bem que havia muitos ianques veteranos de guerra que não conseguia ir para a cama sem quebrar algumas cabeças confederadas.
Desde o término da guerra e com a chegada dos vencedores, Atlanta jamais fora daquele jeito. Podia-se sentir no ar que alguma coisa estava para acontecer. Era a mesma sensação que precedia as batalhas, na guerra de que haviam participado.
— Já percebeu, Riley? Já fizemos esta ronda dezenas de vezes, mas nunca é a mesma coisa. Nunca sabemos o que vamos encontrar pela frente, não?
— Se não fosse pelos avisos que ela nos manda, já teríamos morrido há muito tempo, não?
— Com certeza!—
— E o que acha que está havendo na cidade? O que significa essa trégua?
— Significa muita encrenca a caminho, pode ter certeza — falou Oates, verificando a barrigueira de seu cavalo, apertando-a bem firme, depois montando.
Riley fez o mesmo.
— Como vamos enfrentar essa? — indagou Riley,
acomodando a espingarda no coldre da sela.
— Vamos ver o cenário da batalha primeiro — falou Oates, pondo seu cavalo para andar.
Não rumaram direto para a rua paralela à via férrea, onde era a divisa entre os dois territórios da cidade.
Foram para a rua que ficava atrás da loja de ferragens.
Oates parou seu cavalo e desceu, levando sua Winchester.
— O que vai fazer? — indagou Riley.
— Vamos ver como estão as coisas.
Riley desceu e seguiu-o. Aproximaram-se e entraram num beco de onde podiam observar o telhado da loja de ferragens.
— Vê alguma coisa? — indagou Riley.
— Se está lá, está imóvel e muito bem escondido. Vamos ter de fazê-lo sair de lá, Riley.
— Como quer fazer?
— Vou ficar aqui e você retorna até o começo da rua.
Avança devagar. Quando o bastardo lá encima pôr o nariz para fora, eu o acerto...
— E se houver mais de um lá?
— Eu tenho uma Winchester, acerto os dois, não se preocupe.
— Ok, Oates! Vou voltar a fazer o que me pede.
Enquanto Riley retornava até os cavalos, Oates procurou a melhor posição para apoiar sua Winchester, no beco. Dali, no escuro, podia observar todo o telhado da loja sem ser
visto. Não via sinal de ninguém lá. Subitamente, porém, viu a chama de um cigarro ardendo no alto do telhado.
Aquela brasa indicava a presença de alguém lá.
Engatilhou a Winchester e esperou, atento a qualquer movimento. Riley já devia estar no começo da rua. A qualquer momento alguém teria de surgir lá em cima.
— Bastardo filho da mãe! — murmurou ele, quando uma cabeça surgiu lá encima, com um fuzil na mão.
Um homem alto, usando chapéu, apontou no alto do prédio, olhando a rua. Depois abaixou- se para, em seguida, tomar posição de tiro com seu fuzil.
Pelos movimentos de mão que fez, Oates percebeu logo que se tratava de uma arma especial. Sabia de que tipo era.
Os soldados sulistas haviam usado muito aquelas armas no fim da guerra. Eram armas de longo alcance, com luneta rudimentar e projéteis especiais.
Riley estava em perigo, porque poderia ser atingido de longe. Tratou de agir rápido. Mirou cuidadosamente e disparou. Viu o chapéu voar para cima, levando junto parte da cabeça do atirador.
Riley esporeou seu cavalo e avançou em disparada, ao ouvir o tiro.
— Você o pegou? — indagou, saltado do cavalo com sua espingarda engatilhada e pronta para disparar.
Oates havia corrido esconder-se atrás de um bebedouro, olhando o telhado atentamente.
— Sim, arranquei a cabeça do bastardo.
— Algum sinal de mais alguém?
— Não, havia apenas um. Vou subir lá para verificar.
Fique aqui e me dê cobertura.
Oates atravessou a rua e entrou no beco atrás do prédio.
Havia uma escada ali. Enroscou a correia da Winchester no ombro e começou a subir.
Tudo estava em silêncio ao redor. Oates estava achando tudo aquilo muito estranho.
Viu o corpo caído no telhado. Não precisaria chegar perto para ver que faltava-lhe parte da cabeça. Mesmo assim foi até lá. Estava interessado em algo. Junto ao corpo havia um fuzil especial para atiradores de emboscada, com mira telescópica, semelhantes aos usados pelos nortistas, como ele
deduzira.
Conhecia aquela arma muito bem. Apenas se ouvia seu som ao longe e um corpo caía em algum lugar ao redor deles.
Quem estivesse na mira dele no momento do disparo dificilmente escaparia.
A caixa de projéteis junto ao rifle mostrava o tipo de bala empregada e sua procedência: Exército dos Estados Unidos.
— Bastardos! — murmurou ele, sem entender, inclinando-se para examinar o rifle.
— Tudo bem, Oates? — indagou Riley, surgindo no telhado.
— Sim, só havia um. Conhece este tipo de arma? — indagou Oates.
— Sim, usei uma na guerra. É infalível.
De lá de cima Oates ficou olhando as pessoas que saíam à rua, nos dois lados da cidade, observando e tentando adivinhar o que havia acontecido.
Oates ficou pensando como alguém conseguiria aquela arma e a munição, exclusivas do
Exército da União. E por que se daria ao trabalho de preparar uma emboscada como aquelas. Quem estava por trás de tudo aquilo?
Quem o desejava morto?
E por quê?
Tudo isso apenas confirmava para ele que alguma coisa estranha, muito estranha, acontecia em Atlanta.
E só havia uma forma de começar a encontrar as respostas.

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS