quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Abutres humanos - Capítulo 04



CAPÍTULO QUATRO

Era quase meia-noite quando Robert Woodfarm chegou ao Saloon da Rose, sendo saudado em pé, com palmas, pelos presentes.
O filho do Coronel Swam Woodfarm era olhado com respeito. Mãos se estenderam em sua direção e ele as foi apertando, à medida que caminhava até o balcão.
Burt já o esperava com uma garrafa de brandy envelhecido, a bebida exclusiva do coronel e, agora, de seu filho. Era a mais cara do estabelecimento, mas nem o coronel nem seu filho pagavam alguma coisa ali.
— Veja lá na parede - apontou Burt, na direção da bandeira confederada, onde o velho havia pregado o pedaço de pano vermelho.
Robert e seus amigos sorriram. A notícia corria rapidamente. Seria fácil mobilizar um exército contra os ianques, mas os planos deles não previam nenhum ato meritório ou ação heróica.
— ã Confederação! — brindou ele e todos se puseram em pé para brindar também.
Um semicírculo se formou, deixando-o no centro, apoiado ao balcão e olhando aqueles rostos cheios de expectativa.
— E o que andam dizendo por aí? — devolveu ele.
— Aquilo! — insistiu o homem, apontando na direção da bandeira na parede.
— Nada posso dizer, rapazes. Eu estaria cometendo um crime de alta traição contra a União. Nada sei de heróis que pretendem resgatar a honra e o orgulho do povo sulista — afirmou ele e, nas entrelinhas, todos entenderam o que ele queria dizer.
— E poderíamos ajudar esses heróis, se eles por acaso aparecessem? - quis saber outro.
— Acredito que eles aceitariam toda a ajuda possível, amigos. Esperem. Quando for o momento, eles pedirão ajuda, se acaso existirem mesmo.
— E seu pai, como está?
— Meu pai só fia satisfeito no lombo de um cavalo e na expectativa de uma batalha. Posso lhes afirmar que ele nunca esteve melhor, rapazes.
— Um hurra para o coronel e seu filho! — propôs alguém e o saloon estremeceu com a saudação.
No momento seguinte ele se calou. No alto da escada surgia Rose, com seu vestido vermelho lembrando a bandeira confederada. Todos os olhos se voltaram para ela.
A admiração e o desejo estampava-se em todos os rostos.
Era a mulher mais desejadas de Atlanta, mas ninguém podia afirmar que tinha dormido com ela, nem o próprio coronel nem seu filho. Rose era bela e inatingível.
O pianista tocou os primeiros acordes de Dixieland. Rose começou a cantar com sua voz levemente rouca, mas cheia de emoção e vibração. Os homens contaram com ela.
Quando terminou, os aplausos explodiram no saloon.
— Uma rodada por conta da casa, Burt — declarou ela.
Os aplausos foram mais entusiasmados ainda. Todos correram para o balcão. Burt foi servindo os copos um a um.
Rose foi até a bandeira confederada na parede. Robert foi ter com ela.
— Está sabendo das novidades? — indagou ele.
— Sim, o xerife esteve aqui e me contou.
— Ótimo! Já começamos nosso trabalho. Estamos nos organizando para entrar em ação. Soube dos delegados federais?
— Sim, o xerife disse que eles estão sendo ameaçados.
Quem está por trás disso, afinal?
— Ainda não sabemos, mas a morte deles pode ser interessante para nós.
— Como assim?
— Seria ótimo para nós que apenas o xerife ficasse no controle da lei em Atlanta. Poderemos agir livremente, assaltando o banco, os coletores de impostos e os leiloeiros e compradores de terra.
— Se eles forem mortos, outros virão no lugar deles...
— O xerife pode insistir junto aos seus amigos ianques para que não façam isso. Não sei como ficaria.
— A vida daqueles dois não será nada fácil daqui para frente — comentou Rose.
— Hoje à noite escaparam de uma emboscada, mas sabemos que puseram quatro pistoleiros atrás deles. Cedo ou tarde eles serão apanhados. É só uma questão de tempo.
Rose ficou pensativa, traindo sua preocupação. Robert sorriu misteriosamente. Ele e alguns outros sabiam do caso entre ela e Oates, desde quando ele era major no Exército Confederado.
Naquela noite, quando o xerife a procurara, foi para que ela avisasse Oates da emboscada e ele pudesse se antecipar, apanhando o atirador com a arma e a munição nortista.
Aquilo daria o que pensar para o delegado e fazia parte do plano de jogá-los contra os ianques e vice-versa.
Enquanto eles se digladiavam, os sulistas agiriam, roubando e saqueando.
Sem saber, Rose estava sendo usada pelos líderes daquele plano, assim como todo o resto dos inocentes colaboradores e soldados que os ajudariam a enriquecer.
Apenas o Coronel, Robert, seus amigos e o xerife sabiam do plano real: roubar em proveito próprio.
— Vamos ter de contar com a sua ajuda, Rose, para esconder eventualmente algum dos nossos, tratar de feridos e até esconder o produto dos roubos.
— Claro que sim, Robert. Ainda temos toda a adega preparada para esse tipo de coisa.
— Ótimo. É possível que tenhamos que usá-la logo para esconder o produto do nosso primeiro roubo... Aqui estará a salvo e livre de encrencas. E falando nisso, olhe só quem está chegando — disse ele, com surpresa.
Oates estava entrando, acompanhado de Riley. Enquanto os dois entravam, um silêncio mortal pairou no saloon. Oates parou, olhando para a parede onde estavam Rose e Robert, junto à bandeira. Caminhou até lá.
— Não, de novo não, Oates — falou ele, seguindo-o, com a espingarda na mão, pronta para fazer fogo.
— Por que isto? — indagou ele, retirando o pano vermelho.
Alguns homens fizeram menção de reagir, mas calaram-se quando Robert fez um gesto pedindo calma.
— Pensei que ainda se lembrasse — ironizou Robert. — Seu juramento à União afetou sua memória?
— Lembro que este era o símbolo de um cachorro louco chamado Quantrill, um maldito bandido que matava mulheres e crianças.
— Ele matava nortistas! — gritou alguém.
— Americanos! — corrigiu Oates, rasgando o pano e jogando-o no chão.
Um velho, sem o braço direito levantou-se, aproximou-
se, apanhou o pano e o guardou com respeito.
— Maldição, Oates! Não precisava se indispor com esses veteranos.
O delegado não o ouvia. Olhava para Robert e para Rose alternadamente.
— O ar está ficando irrespirável — disse a garota, deixando-os.
Oates acompanhou-a com os olhos, enquanto ela ia para trás do balcão, ajudar a servir os homens que, furiosos, bebiam procurando ignorar a presença ofensiva dos dois homens da lei, principalmente Oates, a quem consideravam um traidor.
— Você pode ter seus defeitos, Oates, mas devo reconhecer que é um sujeito valente. Ou valente ou louco.
Difícil descobrir o que você é exatamente.
Oates ficou olhando para ele. Conhecia Robert havia muito tempo. Era um covarde, que passara a guerra toda num campo de prisioneiros, após ter sido apanhado em sua primeira batalha. Voltara para casa sem um arranhão.
— Pensei que estivesse na festa — disse-lhe Oates.
— Que festa?
— A festa que houve lá na Mansão O'Brien.
O rosto de Robert não se alterou.
— Não pude ir — respondeu, simplesmente, esboçando um sorriso irônico e misterioso.
Oates não teve dúvida. Ele, assim como o xerife, sabiam de alguma coisa.
Alguma coisa que tinha a ver com aquele fuzil nortista encontrado com o emboscador, naquela noite. Oates e Riley haviam procurado em seus arquivos alguma informação sobre o roubo de armas daquele tipo, mas nada haviam encontrado. Teriam de escrever uma carta e mandar para o
Exército para descobrir isso.
— Ficou preso a algum compromisso — devolveu Oates, num tom de zombaria que Robert entendeu imediatamente, pois o delegado federal não perdia uma oportunidade para alfinetá-lo por sua medíocre participação na guerra.
Robert empalideceu e todo o seu corpo enrijeceu. Mesmo assim, ele não perdeu o controle. Num momento como aqueles valia a pena manter a calma. Começar uma briga com o delegado ali dentro poderia pôr a perder todo o plano.
Oates deu-lhe lentamente as costas e rumou para o balcão. Ele e Riley foram ocupar uma das pontas, de onde podiam observar todo o saloon, sem ninguém atrás deles.
Os homens que bebiam por perto se afastaram. Ele fez um sinal, pedindo que Burt o
— Eu cuido disso — antecipou-se Rose, apanhando uma garrafa de seu pior uísque.
— Quero do outro — exigiu Oates, quando ela se aproximou.
Ela demonstrou sua contrariedade pela careta em seu rosto e recuou, apanhando outra garrafa.
Serviu os dois.
— Fico contente em ver que está bem... — disse ela com sua voz de mulher apaixonada, fazendo-o arrepiar-se dos pés à cabeça.
— Você se arriscou muito... Como soube da emboscada?
— O xerife me contou. Alguma coisa vai começar a acontecer.
— Precisamos conversar a sós, de alguma forma... — pediu ele.
— Não posso... Pode ser muito perigoso... Você deve tomar muito cuidado de agora em diante. Eles vão tentar matá-los.
— Quem?
— Ninguém sabe... Quando você sair, fique atento a quatro cavaleiros. Estão no seu encalço...
Os dois conversavam como se Oates estivesse dizendo gracejos a ela, que demonstrava contrariedade no rosto. Só Riley, ao lado, podia perceber o verdadeiro conteúdo da conversa.
Seu olhar estava vigiando o saloon. Via todos aqueles homens ansiosos para ter um pretexto e partir para cima deles. A única coisa que parecia mantê-los em calma era Robert, ainda em pé junto à bandeira, conversando com seus amigos e a espingarda que ele, Riley, segurava ostensivamente.
— É melhor eu me afastar ou você começará a ter problemas com meus fãs.
— Preciso saber mais sobre o que está acontecendo.
— Eu o aviso quando tiver mais informações — arrematou ela, saindo de perto deles.
— O que acha, Oates?
— Ainda não sei. Vamos investigar isso mais a fundo. O problema agora é que há alguém lá fora a nossa espera — disse. — E o diabo é que estou apenas com o meu Colt...
— Estou com minha espingarda aqui, não se preocupe.
Quando sairmos eu lhe dou cobertura, até que pegue a Winchester.
— Vamos terminar nossa bebida e sair logo daqui. O clima está ficando cada vez mais pesado — observou Oates.
— Fiquei curioso com uma coisa, Oates — disse Riley.
— Se não são os rebeldes que nos caçam, quem poderá ser?
— Se descobrirmos de onde veio aquele fuzil ianque teríamos uma resposta.
— Pensei nisso também. Se os rebeldes não são os responsáveis, acho bom começarmos a considerar que nossos inimigos estão no meio dos ianques.
— É isso que me preocupa. Se somos hostilizados pelos sulistas e caçados pelos nortistas, estamos no inferno, meu amigo. No inferno e não sabemos o momento em que seremos apresentados ao demônio em pessoa — comentou Oates, examinando disfarçadamente a carga de seu Colt.
— Vamos sair?
— Sim. Eu saio na frente. Você fica na porta, de olho.
Quando eu chegar ao meu cavalo e empunhar a Winchester, você sai e vai ao meu encontro. Ok?
— Ok! — confirmou Riley, verificando a carga da espingarda e retirando dois cartuchos da bandoleira e deixando-os de reserva na mão.
Oates deixou uma moeda sobre a mesa. Caminharam na direção da porta. Robert olhou o rosto de Rose, que demonstrava toda a sua expectativa, confirmando que havia contado a Oates sobre a emboscada.
Pela maneira como os dois federais rumavam para a porta, percebia-se a cautela e a tensão em seus rostos.
Oates adiantou-se, saindo rapidamente e caminhando na direção onde estava seu cavalo. Riley parou na porta, com a espingarda pronta para atirar.
Olhou para os lados. Diante do saloon havia um beco.
Riley teve certeza que viu algo brilhar ali, mas hesitou. Não podia disparar sem um motivo justo. Poderia matar um inocente.
Seu amigo chegou no cavalo e começou a sacar a Winchester.
Riley adiantou-se, olhando nas duas direções, enquanto caminhava ao encontro de Oates. Naquele momento, línguas de fogo brotaram do beco e os projéteis passaram assobiando ao redor dele, indo encravar-se na parede do saloon.
— No beco! — gritou Riley, atirando-se ao chão, protegendo-se atrás dos cavalos amarrados no travessão.
Oates fez o mesmo. Uma dezena de disparos foram feitos numa seqüência atordoante, depois o silêncio dominou a rua.
Momentos depois, o tropel de cavalos indicava que os atacantes haviam se afastado.
Os dois se levantaram, espanando a poeira das roupas.
Rose foi a primeira a deixar o saloon. Ao vê-los com vida, respirou aliviado, levando as mãos ao peito.
— Está tudo bem, pessoal! Eles não tinham muita pontaria — comentou Oates, guardando a Winchester na sela.
Montou seu cavalo, imitado por Riley. Robert Woodfarm estava parado na porta, olhando-os e sua expressão não era de desapontamento. Parecia satisfeito e isso Oates não entendeu.
— Vamos tentar seguí-los? — indagou Riley.
— Aqui, no setor sulista da cidade? Jamais os encontraríamos e eles teriam facilidade para nos preparar nova emboscada.
— Não estou gostando nada disso, Oates. Esse negócio de servir de alvo não me agrada nem um pouco.
— Paciência, meu amigo! Vamos descobrir quem está por trás disso tudo — afirmou Oates, esporeando seu cavalo.
Os dois delegados já haviam se afastado, quando chegou o xerife. Ao ver Robert, foi ter com ele na mesa onde bebia com seus amigos.
— Puxe uma cadeira, xerife! — convidou-o.
O xerife se sentou, cheio de curiosidade.
— E então? — indagou.
— Tudo perfeito, xerife.
— Eles não desconfiaram?
— Nem um pouco.
— E Rose?
— Perfeita em seu papel.
— Ela vai ser muito útil para nós, despistando os federais, enquanto agimos. Estive com alguns compradores de terras no hotel hoje à noite. Amanhã vai haver o leilão da Fazenda Graceland. Algumas das carteiras mais abarrotadas do Estado estarão lá.
— Excelente, xerife! Poderemos dar nosso primeiro golpe amanhã, então.
— Sim, a operação já está toda montada. Eu e meus rapazes estaremos montando guarda, mas não haverá reação.
Os homens chegarão no início do leilão, roubarão todos que estiverem lá, depois fugirão para o outro lado do rio. Um emissário será mandado para cá, para trazer o produto do roubo.
— Ótimo! Vamos escondê-lo na adega do saloon. Rose já concordou.
— Acha que poderemos confiar nela quanto a isso? Se ela contar ao delegado federal, perderemos todo o nosso tesouro.
— Não se preocupe quanto a isso. Rose é fiel à Confederação. Seu único mal foi apaixonar- se por Oates.
Enquanto não fizermos mal a ele, ela se manterá do nosso lado, ajudando-nos como fez durante toda a guerra.
— Espero que tenha razão quanto a isso.
— Tenho, não se preocupe. É uma pena que meu pai não possa estar presente. Ele iria adorar ver a cara desses anques, enquanto entregam suas carteiras.
— Pois eu vou ter essa felicidade. Depois eu conto a ele — falou o xerife e todos riram.
No outro lado do salão, Rose servia alguns cowboys que acabavam de chegar, mas mantinha-se atenta ao que se passava lá na mesa, agora que o xerife chegara.
Não estava se sentindo muito segura a respeito deles.
Pareciam não estar lhe contando toda a verdade. Havia alguma coisa no ar que ela não conseguia entender.
A começar por aqueles atentados contra os dois delegados federais. Como o xerife e Robert haviam tomado conhecimento disso? Sua intuição feminina lhe dizia que não estavam lhe contando toda a verdade a respeito daquele plano de resistência contra a dominação dos ianques.
Roubar dos malditos ianques para ajudar os compatriotas rebeldes era uma ação meritória, segundo ela. Só que, agora, não se sentia tão segura a respeito disso.
Oates e Riley voltaram para o escritório. Oates estava intrigado com tudo aquilo que estava acontecendo. Duas emboscadas numa noite davam o que pensar. Foi apanhar o fuzil militar que haviam tentado usar contra eles algumas horas antes.
— O que o preocupa, Oates? — indagou Riley.
— Não sei, companheiro, mas há alguma coisa errada nisso tudo.
— Sim, muito errada. Estão nos usando como alvo.
— Não é isso. Na primeira emboscada, alguém deixou escapar o plano para Rose. Na segunda, também, só que eles tiveram chance de atirar. Você erraria daquela distância?
— Mesmo considerando a escuridão, eu acho que não.
Atirando no escuro eu acho que acertei um deles...
— Também tive essa impressão. Mas por que homens treinados ou hábeis para atirar teriam errado o alvo tão vergonhosamente?
— Acha que erraram deliberadamente?
— É uma hipótese.
— Por quê?
— Por que talvez querem que pensemos que alguém quer nos matar.
— Não vejo lógica nisso.
— Nem eu, mas é o que me vem à cabeça.
Enquanto os dois pensavam, lá fora, num beco, os quatro homens que haviam participado da emboscada diante do saloon conversavam.
Um deles havia sido atingido e estava inconformado.
— As ordens foram claras, Pete. Só tínhamos que assustá-los.
— E isto é susto? — retrucou o rapaz, mostrando a mão suja de sangue.
Um dos tiros de Riley havia acertado seu braço esquerdo, deixando ali alguns caroços de chumbo grosso.
— Foi aquele maldito com a espingarda e eu vou acertar contas com ele — disse o rapaz, sacando seu Colt.
— Vai ter que explicar isso ao Coronel depois.
— Dane-se o Coronel — respondeu ele, atravessando a rua com a arma engatilhada.
— Então vai fazer isso sozinho — disseram os outros, indo apanhar seus cavalos.
Aproximou-se de uma janela aberta, espreitando sorrateiramente. Viu Riley em pé, de costas e não hesitou.
Levantou a arma e atirou.
Riley foi jogado para cima da mesa de Oates, que sacou rapidamente a arma, enquanto amparava o amigo.
— Riley! — gritou, ao sentir sangue em sua mão.
Acomodou-o no assoalho e correu para a porta. Viu o homem que corria na direção de um beco e fez fogo. O matador rodopiou e caiu na poeira.
— Oates! — chamou-o Riley.
Ele retornou para junto do amigo.
— Estou mal... Estou mal, Oates! — murmurou Riley.
— Vou chamar o médico, Riley. Agüente firme! — disse o delegado, levantando-se e indo até a porta.
Não viu o homem em quem atirava. Havia um médico logo ali perto e, com alívio, Oates viu que já havia luz naquela casa. Quando abriu a porta para ir até lá, o médico já vinha saindo com sua maleta. Foi ao encontro dele.
— Lá dentro, foi meu amigo, acertaram-no nas costas — avisou, retornando.
O médico fez um rápido exame.
— Teve sorte, a bala não atingiu nenhum órgão vital.
Vou tentar tirá-la a parar a hemorragia.
— Precisa de ajuda?
— Não, só traga aquela luz para mais perto.
Oates fez o que ele pedira, depois apanhou seu rifle e foi no encalço do homem que havia disparado contra Riley.
Aquilo mudava todas as suas conclusões.
Estavam querendo matá-los de verdade.
— Demônios! — murmurou ele. — Foi para o lado rebelde da cidade — concluiu, seguindo a trilha de sangue que havia entrado pelo beco e saído na outra rua.
Dali rumava na direção da linha férrea. Aquele homem tinha poucos minutos de dianteira. Estava rumando para um lugar definido. Se descobrisse para onde iam, tudo se tornaria mais fácil, pois poderia antecipar suas ações.
Naquele caso, tinha uma motivação especial. Apanhar aquele homem vivo era uma questão de honra. Poderia fazê-lo falar e descobrir o que estava acontecendo na cidade realmente.
Atravessou a linha férrea. A trilha de sangue continuava na poeira na direção de um saloon que havia ali perto. Era para lá que o ferido se dirigia.
Deixou seu rifle engatilhado e caminhou lentamente na direção do saloon.
Não havia movimento nas ruas. Diante daquele saloon, havia apenas dois cavalos amarrados.
Aproximou-se cuidadosamente da porta. Antes de entrar, sondou o interior.
Apenas dois homens bebiam, conversando com o bartender. Nenhum deles estava ferido. A trilha de sangue era nítida, no entanto, entrando, passando pelo salão e subindo as escadas na direção do pavimento superior.
Entrou e dirigiu-se calmamente ao balcão.
— O que vai ser, delegado? — indagou-lhe o bartender.
— Uísque.
O homem serviu-o rapidamente.
— Parece assustado, delegado. O que houve?
— Procuro um homem — respondeu Oates, os olhos atentos aos dois homens ao seu lado e ao alto da escada.
— Acho que veio ao lugar errado, delegado. Se quiser uma garota... — ironizou o bartender.
Os dois homens ao lado riram. O homem atrás do balcão também segurou-se para não rir. Oates fuzilou-o com seu olhar mais glacial.
— Procuro um homem ferido. Deve ter entrado aqui há poucos minutos — disse ele.
— Não me lembro de ter visto ninguém entrar... Viram alguma coisa assim, rapazes? — indagou aos dois homens que bebiam ao lado.
— Depende de quem quer saber — respondeu um deles e os dois se viraram para encarar Oates .
— Eu quero saber — falou o delegado federal.— E quem é você?
— Meus amigos me chamam de Oates ... Meus inimigos costumavam me chamar de Fordd
— afirmou ele, desabotoando a capa e abrindo-a para revelar o Colt.
— Fordd? Oates Fordd? — repetiu o homem, engolindo seco.
— Sim, você ouviu bem, rapaz. Viu um homem ferido
entrar ainda há pouco?
— Não estava de costas... Sinto muito, Sr. Fordd .
Uma garota estava tirando garrafas de uma caixa e arrumando-as na prateleira, atrás do balcão. Parou e voltou-se para encarar Oates.
— Eu vi aquele rapaz ferido, o amiguinho de Norma. Os dois estão juntos lá encima — falou
ela.
— Há mais alguém com eles?
— Apenas os dois.
— Não sei.
— Em que quarto estão?
— Quarto cinco, no meio do corredor, à direita.
Oates entornou o uísque, depois retirou o Colt do coldre, verificando sua carga. Guardou-o em seguida. Apanhou o rifle que deixara sobre o balcão, já engatilhado. Caminhou na direção da escada.
— Espere um pouco, homem! O que pretende fazer?
— Vou pegar aquele filho da mãe! — respondeu Oates, sem se deter.
— Bob, vá chamar o xerife ou um de seus auxiliares.
Deve encontrar alguém no Saloon da Rose! — pediu o bartender a um dos homens que bebiam ali.
— Vai haver encrenca da grossa — falou Bob, apressando-se em fazer o que o outro lhe pedira.
Enquanto ele saía, Oates subia a escada.
Avançou lentamente pelo corredor, até parar diante da porta. A trilha de sangue era bem nítida. Respirou fundo.
Não sabia o que encontraria pela frente, mas sabia como enfrentar uma situação como aquelas. Não era diferente de muitas que enfrentara antes.
Segurou firme o rifle. Em seguida, meteu o pé na porta.
Com um barulho de madeira sendo lascada lascando, a porta se abriu até o fim.
Na cama, Pete assustou-se ao ver aquele homem entrar com a arma apontada para ele. A garota que lhe fazia um curativo pulou para um canto.,
— O que está havendo aqui? — indagou ela, assustada.
Pete olhava para o coldre de seu cinturão, que pendia ao lado de sua cabeça, preso na cabeceira da cama.
— Quem é você? O que pensa que está fazendo aqui? —
indagou o pistoleiro, assustado.
Oates aproximou-se, apanhou o cinturão dele e jogou-o para longe. Olhou o ferimento no braço, feito por uma espingarda, e o outro na coxa, feito por um Colt.
— Onde conseguiu esses ferimentos? — indagou.
— Numa briga...
— Onde?
— Por que quer saber? — retrucou o rapaz.
Oates inclinou-se sobre ele como se fosse dizer-lhe alguma coisa. Ao invés disso, o cano de sua arma atingiu a coxa ferida, que urrou de dor.
O sangue começou a escorrer novamente, enquanto o rapaz encolhia-se todo na cama.
Oates o fez sentar-se com as costas apoiadas contra a cabeceira da cama. Pete tentava fazer parar o sangue que escorria.
— Não pode fazer isso — falou a garota.
— Este bastardo e mais alguns amigos atacaram-me ainda há pouco. Balearam meu parceiro. Acha que não tenho o direito de fazer o mesmo com ele?
— Eu não fiz nada disso — defendeu-se Pete.
— Dê o fora! — disse o delegado a ela.
A garota sumiu rapidamente pela porta.
— Agora só nós — falou-lhe Oates, olhando-o com profundo ódio.
Pete viu a frieza estampada nos olhos daquele homem diante dele. Eram olhos assustadores, que pareciam vasculhar sua alma.
— Você tem que acreditar em mim... Não fiz nada...
Novamente o cano da arma atingiu Pete, desta vez no braço ferido. Um filete de sangue começou escorrer por debaixo da bandagem aplicada às pressas.
— Vamos por parte, seu covarde. Antes de mais nada, quero saber os nomes de seus amigos e para onde eles foram — indagou-lhe Oates.
— Não sei de nada... Não posso lhe dizer nada...
— Não sabe ou não pode? — insistiu Oates.
O rapaz ficou indeciso, sem saber o que fazer.
— Vista-se! — ordenou-lhe Oates.
— Não pode fazer isso comigo... Eles vão me matar... — choromingou ele.
— Quem vai matá-lo?
— Não posso dizer — insistiu Pete, sentando-se com dificuldade e apanhando suas botas.
Calçou com dificuldade a primeira. Quando apanhou a segunda, sua mão firmou-se no cabo de uma faca.
— Preciso de uma camisa limpa. Tem naquele guarda-roupa — falou o rapaz.
Oates olhou na direção. Pete sacou a faca e ergueu o braço para arremessá-la nas costas de Oates. O delegado federal, no entanto, estava alerta.
Girou o corpo rapidamente e bateu com a coronha do rifle encima do nariz do pistoleiro, que soltou a faca, gemendo e tentando estancar o sangue que brotava de seu nariz quebrado.
— Se tentar mais uma dessas gracinhas, acabo com sua raça, seu bastardo! — rugiu Oates. — Vista essa bota.
Foi até o armário, apanhou uma camisa e jogou-a encima de Pete. O rapaz terminou de se vestir com dificuldade.
— Vamos dar um passeio agora — ordenou Oates, segurando-o pelo pescoço e jogando-o na direção da porta.
Ele caiu exatamente nos pés do xerife e de Robert Woodfarm, que acabavam de chegar.
— O que está havendo aqui, delegado? — indagou o xerife, trêmulo de raiva.
Robert reconheceu logo Pete, um dos homens que haviam sido mandados para emboscar os delegados.
— Estou efetuando uma prisão, xerife. Vou levar este homem para interrogatório.
— Ele está ferido... Precisa ser medicado primeiro — argumentou o xerife.
— O médico está ocupado agora, xerife. Está tratando Riley, que foi baleado por este bastardo — informou Oates, chutando as costelas de Pete, que tentava se levantar. — E é melhor que saiam todos de minha frente. Não estou com muita paciência esta noite.
O xerife olhou na direção de Robert, que fez um sinal.
— Precisa de ajuda com o prisioneiro, delegado? — indagou o homem da lei.
— Não, eu dou conta disto sozinho — afirmou Oates, segurando Pete pelos colarinhos e chutando-o para o corredor.
Os homens se afastaram para dar passagem aos dois.
Entre eles estavam os três amigos de Pete, que olharam temerosos para o prisioneiro, temendo que ele viesse a falar.
Assim que Oates desceu as escadas, Robert chamou os três pistoleiros.
— Que diabos aconteceu? — indagou, furioso.
— Estávamos a sua procura para lhe contar. Pete foi ferido lá no saloon e ficou furioso, querendo ir à forra.
Tentamos detê-lo, mas não houve como segurá-lo...
— Saem o que vai acontecer se ele falar? — indagou Robert, olhando-os significativamente.
— Ele não vai falar, Robert. Prometemos — disse um
dele, fazendo um sinal para que seus amigos o seguissem.
— Acha que eles dão conta do recado? — perguntou o xerife a Robert.
— Pode ficar sossegado. Pete não abrirá a boca. Nem que queira...
Lá embaixo, Oates sentia o clima hostil que pairava no saloon, enquanto empurrava Pete, seguro pelo colarinho da camisa. O ferido deixava uma trilha de sangue para trás.
Saíram do saloon e foram para o meio da rua. Ao longo da rua, tocheiros acesos iluminavam-na. Lá na frente, porém, Oates viu alguns deles sendo derrubados, deixando o trecho na escuridão.
Não tinha outra alternativa. Sabia que não seria fácil sair dali. A questão toda era garantir a vida de Pete para tirar dele a verdade sobre o que estava acontecendo.
Fazê-lo falar era necessário. De qualquer maneira.
— Viu aquilo lá na frente, Pete?
— Não vai conseguir me levar, delegado.
— Não é isso o que me preocupa, Pete. Minha preocupação é levá-lo vivo até o escritório. Lá pode ficar certo que saberei fazê-lo falar. Só que acho que não vou conseguir...
— O que quer dizer com isso?
— Neste momento, Pete, quem seus amigos desejariam matar? A mim ou a você!
Pete estacou, após pensar no assunto por instantes. As ordens que haviam recebido era apenas para disparar contra os delegados, não matá-los.
Deveria haver um motivo para não querer que eles morressem. Quanto a ele, reconhecia que cometera um erro e que poderia ser morto por isso.
Seus amigos não iriam deixar que ele falasse. Essa situação assustou-o. Oates percebeu isso.
— E então, Pete? Quem acha que eles estão esperando para matar lá na frente.
— Eles não fariam isso... Não atirariam em mim...
— Você pode levar todos eles para a forca, Pete. Acha que eles não estão com medo? — continuou Oates, assustando-o.
— Tem que me tirar dessa, delegado...
— Só se me contar o que sabe...
O pistoleiro hesitou, mas percebeu logo de estava condenado à morte de qualquer maneira. Saber que seus amigos poderiam matá-lo enfureceu-o, tornando-se maior que seu ódio pelos ianques.
— Está bem... Eu falo.
— Diga-me alguma coisa importante para que eu me convença de que ala a verdade — pediu o delegado.
— Certo, certo. Vou lhe dar algo realmente grande, delegado... — ia dizendo Pete.
Não continuou. De um ponto no escuro adiante deles surgiu uma língua de fogo. O pistoleiro foi jogado para trás, no exato instante que o som do tiro chegava até eles.
Oates não precisou examinar atentamente para ver que Pete estava nas últimas, com um rombo no peito.
Arrastou-o para a beirada da rua. Pete tentava respirar, com o peito aberto. Seus olhos arregalados refletiam seu pavor. Ele ficou olhando pateticamente para o delegado.
— Vamos, fale, Pete! O que tinha para me dizer? — insistiu Oates, furioso por perder aquela chance de descobrir alguma coisa.
— Graceland... Fazenda Graceland... — conseguiu dizer Pete, estrebuchando em seguida.
O xerife e seus homens avançaram pela rua logo em seguida. Ao perceberem que Pete estava morto,
demonstraram alívio.
— Diabos! Eu poderia ter arrancado alguma coisa dele — falou Oates.
— Ele não disse nada? — indagou o xerife.
— Nada! — assegurou Oates, afastando-se.
Estava intrigado com aquela informação. O que Pete quisera dizer ao se referir à Fazenda Graceland?
Deixou o setor rebelde da cidade, ao passar pela linha férrea. Rumava com pressa agora para o escritório, ansioso para ter notícias de Riley.
Ao passar diante do prédio do Banco, no entanto, parou, olhando o cartaz que anunciava o leilão da Fazenda Graceland, no dia seguinte, ao meio-dia.
— Diabos! O que vai acontecer lá amanhã? — indagou-se.
Quando chegou ao escritório, o médico já havia atendido Riley e o ajudara a se levantar para ir até a cama, num dos quartos nos fundos do escritório.
— Pode ficar tranqüilo, delegado! A bala apenas passou pelos músculos. Consegui retirá-la sem maiores danos. Em alguns dias ele estará em pé novamente. Virei vê-lo amanhã
— informou o médico.
Oates pagou-o e agradeceu-o, depois foi até o quarto ver o amigo.
— E então? Tem o couro mais duro do que eu imaginava — falou Oates.
— Pura sorte! Você pegou o bastardo?
— Sim, eu o trazia vivo para cá, mas seus próprios amigos o mataram.
— Demônios! Conseguiu arrancar alguma coisa dele?
Oates pensou por instantes. O melhor era não preocupar Riley, por isso resolveu esconder o que sabia.
— Não, nada! — afirmou. — De qualquer forma, o importante agora é que você fique bem. Eu estou bem, pode ficar sossegado — garantiu Riley.
Era madrugada. Riley gemia de dor. O médico havia deixado algumas pílulas para isso. Oates se levantou para ir atender o amigo. Foi quando ouviu ruídos no escritório.
Armou-se rapidamente e ficou à espreita. Viu a porta aberta. Vultos se moviam lá dentro. Contra a claridade opaca que vinha da rua, divisou um homem.
Parecia um militar, pelo tipo de chapéu que utilizava.
— Não se movam! — ordenou Oates, embora não soubesse exatamente quantos homens haviam entrado ali.
A resposta foi fulminante. Um fuzil disparou na sua direção, mas o tiro foi alto demais. Ele respondeu ao fogo.
Viu os homens saindo pela porta. Eram três. Disparou, mas não acertou nenhum.
Correu para a porta. Viu os três homens atravessando a rua, na direção do beco. Ia sair e atirar, mas do beco alguém disparou contra ele, abrindo um rombo na porta.
Estavam usando uma arma muito potente, um rifle militar, com certeza. Recuou. Pouco depois ouviu o tropel de cavalos saindo pelos fundos do beco e se afastando rapidamente.
— Oates! Você está bem? — indagou Riley, em algum ponto atrás dele.
— Riley! Demônios! Você não devia fazer isso — comentou Oates, riscando um fósforo e indo acender um lampião.
Riley estava apoiado ao batente da porta, pálido e com dores, segurando sua espingarda engatilhada.
— Venha, vamos voltar para a cama — disse Oates, ajudando-o a caminhar.
Enquanto o acomodava ali, chegou o médico novamente, com sua maleta.
— Tudo bem por aqui? — indagou.
— Sim, doutor. Entraram aqui...
— Quem, homem?
— Não se, não vi. Estava escuro...
— Como está o Riley?
— Acordei com ele gemendo.
— Está doendo o ferimento? — perguntou-lhe o médico.
— Sim, um pouco.
— Pegue água, Oates. Vamos lhe dar duas destas pílulas e ele dormirá como se tivesse levado uma pancada na cabeça — falou o doutor.
Oates acendeu um outro lampião para ir até a cozinha, anexa ao escritório buscar água.
Foi até lá, apanhou uma moringa com água e, quando retornava, observou algo no chão do escritório. Foi ver. Era um chapéu militar, da Cavalaria da União.
— Diabos! — murmurou ele, sem entender. — Por que homens das União teriam entrado aqui? — indagou-se.
Foi levar a água, mas escondeu o chapéu para que Riley não o visse.
O médico o fez tomar duas daquelas pílulas e em pouco tempo ele estava adormecido.
O barulho de cavalos lá fora chamou a atenção de Oates, que armou-se e foi até a porta. O xerife e seus ajudantes desmontavam naquele momento.
— Não dorme mais, xerife? — ironizou Oates.
— Tem gente nesta cidade que parece atrair encrenca e isso não me deixa dormir. O que houve por aqui?
— Alguém entrou aqui, xerife.
— Viu quem era?
— Não, mas eles deixaram cair algo muito interessante.
— E o que foi?
Oates fez um sinal para que o homem da lei o seguisse.
No escritório, mostrou-lhe o chapéu que um dos atacantes havia deixado cair. O xerife demonstrou certa surpresa.
— Demônios, Oates! Você parece que conseguiu fazer inimigos dos dois lados. Primeiro aquele rifle militar, agora este chapéu... Por que os soldados da União querem matá-lo?
Será porque na guerra você matou muitos deles?
— Pode até ser, xerife. Não duvido que haja pessoas para as quais a guerra ainda não terminou e para quem o meu juramento de servir à União agora não tenha nenhum valor.
A questão é que estamos milhas e milhas distantes de qualquer destacamento militar...
— Engano seu, delegado — cortou-o xerife.
— Como assim?
— Temos um pequeno destacamento próximo daqui.
Oates ficou surpreso ao ouvir aquilo.
— Onde?
— Na Fazenda Graceland. Amanhã ela será leiloada. Um tenente e meia dúzia de soldados estão lá cuidando da ordem e fiscalizando o leilão.
Oates lembrou-se imediatamente do que Pete dissera, antes de morrer. Mencionara a Fazenda Graceland. Estaria querendo dizer, com isso, que o perigo vinha de lá?
Tinha algum sentido. Aqueles soldados vinham de alguma parte, sabiam dele e tentavam matá-lo. Fatos como aquele eram muito comuns no pós-guerra. A rendição do Sul e o juramento de lealdade imposto aos rebeldes que queriam o perdão não haviam sido assimilados muito bem por gente
de ambas as partes.
— Quer que eu investigue os soldados, delegado? — indagou o xerife.
— Não, eu mesmo farei isso.
— Sugiro que espere até o final do leilão. Os soldados passarão por aqui. Não quero nenhum tumulto durante o leilão. Como vou estar lá amanhã, posso pedir ao tenente que, antes de ir embora, passe por aqui para falar com você.
O xerife estava sendo camarada. Camarada como nunca fora antes, o que despertava alguma suspeita.
— Vou agradecer isso, xerife.
— Ótimo! Assim você poderá estar aqui, cuidando de seu amigo — lembrou o homem da lei, com um tom solidário na voz, deixando o delegado federal em dúvida.
O médico aproximou-se.
— Ele dorme, Oates. O ferimento não sangrou quando ele se levantou, o que é um bom sinal. Vai dormir muito bem e estará melhor amanhã. Faça-o comer alimentos leves e nutritivos. Ele é forte como um touro e estará de pé em um ou dois dias.
— Obrigado, doutor! Jamais esquecerei sua atenção — agradeceu Oates, acompanhando- o até a porta.
Quando voltou, o xerife e seus homens preparavam-se para ir embora também.
— Se tiver qualquer problema, não hesite em me chamar — falou o homem da lei, saindo com seus ajudantes.
Oates ficou pensativo. Parecia haver uma lógica naquilo tudo. Estavam querendo a sua cabeça e poderia ser por pura vingança. Até aí, tudo bem, podia compreender.
Quando essa vingança pessoal começava a atingir pessoas inocentes como Riley, que lutara lealmente no Exército da União, aquela situação começava a aborrecer.
Talvez tivesse ainda que quebrar algumas cabeças e chutar alguns traseiros para que as pessoas compreendessem isso.
Enquanto isso, não longe dali, o xerife parava diante do Saloon da Rose. Havia poucos freqüentadores. Robert esperava-o, numa das mesas ao fundo. Atrás do balcão, Rose observava tudo com muita atenção.
Robert e o xerife haviam confabulado muito, naquela noite. Apesar do avançado da hora, Robert ainda estava ali, esperando o xerife.
Demonstrou alívio e satisfação, quando o homem da lei chegou. Rose desejou poder entender o que estava realmente acontecendo naquela noite.
— E então? — indagou Robert, assim que o xerife se sentou diante dele.
— Perfeito, Robert. Os homens agiram como você ordenou. O chapéu ficou lá. Com ele e com o fuzil militar, Oates ficou realmente confuso.
— Alguém se feriu?
— Não, tudo esteve como o planejado.
— Contou ao Oates sobre o destacamento?
— Sim, prontifiquei-me, inclusive, a pedir ao Tenente que o procure na cidade, antes de ir embora.
— Vai ser divertido isso — comentou Robert. — Esse golpe de sorte vai nos ajudar muito.
— Sim, quem diria que os dois heróis da Batalha de Stonewall estariam frente a frente de novo?
— Isso vai dar a Oates o que pensar. Quando ele souber que é o Tenente Johnson quem comanda o destacamento, o mesmo tenente que o enfrentou em Stonewall. Apesar do heroísmo de Johnson, ele foi humilhado com a derrota.
Todos sabem que ele jurou solenemente vingar-se, quando depôs sua espada.
— Está tudo perfeito, Robert. Com certeza eles vão se desentender. Oates é esquentado, vai acabar arrumando confusão com o tenente, que é um herói idolatrado pelos ianques.
Seguramente todos irão contra Oates e isso só beneficiará nosso plano.
— Ótimo! Agora precisamos fazer alguma coisa em relação a Rose. Ela me parece muito desconfiada. A todo momento ela está olhando para cá. Vigiou-nos toda a noite.
— Deixe-a comigo! Vou plantar mais um pouco de confusão na cabeça dela. Como mulher apaixonada ela tem sido muito útil para nós. Temos que conservá-la assim.
— Certo, xerife! Eu vou para casa dormir um pouco.
Amanhã quero estar no leilão da Fazenda Graceland. Quero ver as caras dos homens com as malas de tecido cheias de dinheiro, quando nossos rapazes entrarem em ação.
— Sim, vai ser divertido. Os homens vão recolher todo o dinheiro. Um deles trará uma valise cheia de papéis para Rose guardar. O dinheiro de verdade irá para as mãos do Coronel, que será o nosso guardião do tesouro — comentou o xerife, com um sorriso significativo.
— Sim, o nosso nobre e querido guardião — confirmou Robert, com um sorriso de cumplicidade.
Levantou-se e apanhou seu chapéu. Acordou seus amigos, que dormia nas mesas próximas. Eram todos filhos da aristocracia destronada do Sul. Todos com uma educação refinadas, amantes do que havia de bom na vida, mas agora mendigos das migalhas que os homens do Norte atiravam.
Era difícil para o orgulho deles conviver com isso indefinidamente. Sabiam agora, porém, que era por pouco tempo. Robert era a chance de mudar isso, por isso o apoiariam até a morte.
Assim que Robert saiu, o xerife foi até o balcão. Rose continuava intrigada com tudo aquilo.
— Noite movimentada, não, xerife? — observou ela.
— Tem razão, Rose. Já aconteceu de tudo nesta cidade. É demais para uma só noite realmente.
— O que houve anda há pouco?
— Tentaram matar de novo o delegado federal.
Rose estremeceu e suas mãos tremeram.
— Ele está ferido? — indagou ela, aflita.
— Não, ele está bem.
Ela respirou aliviada.
— Quem está por trás disso tudo, xerife? — quis ela saber.
— Difícil dizer, Rose, mas tudo indica que é gente do outro lado.
— Do outro lado? Gente da União?
— Sim, isso mesmo.
— Por quê?
— Oates foi um herói rebelde. Um herói oportunista, que jurou lealdade à União, quando a guerra acabou. Dos dois lados ele tem inimigos... — disse o xerife, embora sua expressão demonstrasse que ele sabia de mais alguma coisa ainda.
Rose apanhou uma garrafa do melhor uísque e serviu a ele.
— Esta é por conta da casa — disse ela.
O xerife agradeceu, depois tomou o uísque num só gole.
— Sabe, Rose, na emboscada hoje, Oates encontrou um rifle militar, com mira telescópica, daqueles usados pelos ianques no final da guerra. Ainda há pouco, no novo atentado, um dos homens que invadiu o escritório deles deixou para trás um chapéu... Um chapéu da Cavalaria da União. Somando-se um mais um, temos a conclusão. O rifle e o chapéu ianques demonstram que há gente do outro lado querendo pegá-lo. E se continuarem insistindo, vão acabar conseguindo. Obrigado pelo uísque, Rose. Preciso dormir um pouco. Amanhã tenho de estar presente no leilão da Fazenda Graceland.
— Espera encrencas?
— Talvez nossos rapazes comecem a agir.
— Vai haver muito dinheiro vivo circulando em Graceland.
— Sim. Se nossos rapazes conseguirem pegá-lo, ele será mandado todo para cá. Você o esconderá para nós na adega?
— Pode contar com isso, xerife.
— Ótimo, Rose! Sei que sempre poderemos contar com você — afirmou o xerife, despedindo-se com um aceno.
Enquanto ele deixava o saloon, agora vazio, e o bartender começava a fechar as janelas e a porta, Rose serviu um uísque para si mesma.
Tomou-o em pequenos goles, enquanto pensava.
— Não vai dormir, Rose? — indagou Burt, quando terminou de fechar e apagar os lampiões principais.
— Estou sem sono, Burt. Acho que vou tomar alguns drinques, antes de ir para a cama.
— Faça bom proveito. Eu estou morto de sono e de cansaço — falou Burt, retirando-se.
Rose apanhou uma garrafa e foi se sentar numa das mesas. Apenas os lampiões acesos nas laterais do balcão iluminava o amplo salão vazio.
Lá encima, as garotas dormiam com os últimos fregueses da noite, normalmente seus namorados.
Alheia a isso, ela pensava e não conseguia esconder a aflição e a preocupação que a tomavam de assalto.
Amava Oates e não conseguia mais esconder isso. Tinha certeza que todos sabiam disso, inclusive o xerife e Robert.
Era justamente por isso que ela pressentia alguma coisa de errado naquelas informações que eles lhe passavam. Era como se soubessem que ela contaria ao delegado federal, no que estavam certos.
Rose continuava leal ao Sul. Esconderia o dinheiro roubado, juntamente com os soldados que fizessem algum ataque e precisassem de proteção. Fizera isso durante a guerra, quando Atlanta caiu sob o domínio do Exército da União.
Fizera parte da resistência inútil que tentara manter os ianques longe da cidade. Tudo fora inútil mesmo. O sonho rebelde havia sido um pesadelo e todos tinham de acordar um dia e enfrentar a realidade.
Os planos do Coronel tinham algum sentido. Rose os apoiava. Alguma coisa precisava
mesmo ser feita, mas com inteligência, ou todo o Sul seria sufocado pela invasão ianque.
Nada demais para quem perdeu a guerra, se isso não implicasse em jogar na rua fazendeiros, comerciantes e pessoas que queriam apenas trabalhar em paz.
Isso era preocupante para ela, mas nem tanto quanto a preocupação pela vida de Oates. Se algo acontecesse a ele, Rose não sabia o que faria.
Desejou poder sair dali e ir ao encontro dele. Sabia que isso era arriscado, no entanto. Muito arriscado.
Tomou mais um uísque e pensou naquele risco. Vivera toda a sua vida correndo riscos. Esse poderia ser um que valeria a pena. Só que era um risco que dependeria da aceitação de Oates e ela não sabia como ele pensava a respeito.
Talvez fosse hora de aceitar aquele convite dele para conversarem. Tinham muita coisa pendente para resolver.
Mal o dia amanhecera e Oates estava fora da cidade, com o rifle militar ianque e a caixa de munição. Havia levado algumas garrafas consigo, alinhando-as sobre uma pedra.
Montou seu cavalo e afastou uns duzentos metros.
Desmontou. Amarrou o animal numa arbusto, depois procurou um lugar onde pudesse apoiar a arma para ter firmeza na hora do disparo.
Encontrou um local adequado. Carregou a arma e apoiou-a contra um galho caído. Uma das garrafas surgiu nítida na luneta da arma.
Apertou o gatilho com suavidade. Apesar da potência do fuzil, o recuo foi mínimo, demonstrando que a arma era realmente apropriada para a finalidade a que se propunha.
Quando a fumaça se dissipou, Oates percebeu que a garrafa tinha sumido da mira.
— Demônios! — praguejou ele, olhando a arma com admiração e respeito.
Parecia ser infalível naquela distância.
— Vejamos o que você pode fazer — murmurou ele, caminhando para mais longe ainda.
Andou mais uns cem metros, até uma árvore, com um tronco em forquilha, onde pôde apoiar a arma e mirar de novo contra uma das garrafas.
Atirou. Novamente atingiu o alvo, demonstrando a grande precisão daquela arma.
Ficou satisfeito com os resultados. Voltou ao seu cavalo, montou-o e cavalgou na direção da sede da Fazenda Graceland, que ficava a umas duas horas a cavalo.
Conhecia um pouco aquela região. A sede da fazenda ficava num vale, próxima do rio. Do alto de uma das colinas ele poderia observar o que se passava lá embaixo.
Para chegar lá, evitou a trilha normal para não ser visto.
Uma vez no alto da colina escolhida, viu como os interessados chegavam aos montes.
A Fazenda Graceland era uma das maiores e mais cobiçadas da região. Acres e mais acres de boa terra para o plantio do amendoim, alfafa e pastagens.
— Lá estão eles! — murmurou o delegado, ao perceber quatro barracas armadas nas proximidades da casa principal da fazenda.
Eram barracas da Cavalaria, sem dúvida. Ele usou a luneta do fuzil para observar melhor.
Os homens chegavam em carroças ou a cavalo. Eram os famosos compradores, que carregavam o dinheiro em maletas de pano.
Muita gente foi se concentrando no local. Oates nada via de anormal em tudo aquilo.
Parecia com outros leilões, dos quais havia participado.
Muita gente interessada, lances baixos, acordos e conchavos entre eles e uma fortuna mudava de mãos por uma bagatela.
Era assim que o Sul estava sendo espoliado pelos vencedores e seus compradores de terras.
Algo, no entanto, chamou a atenção do delegado. Não muito distante da fazenda, no sentido oposto à cidade e antes do rio, havia um grupo de cavaleiros, no mínimo de uns cinqüenta homens.
Olhou-os melhor com a luneta do fuzil. Eles saíam de dois ou três de cada vez, voltando até cruzar com a trilha, depois misturavam-se às carroças e cavaleiros que rumavam para Graceland.
Intrigou-se, pois alguns dos homens que ficavam pareciam usar uniformes cinzas. Os mesmos uniformes usados pelos rebeldes durante a guerra.
— Que diabos temos aqui? — indagou-se ele.
Já era quase meio-dia. Em breve o leilão começaria.
Pouca gente ainda se apressava, de carroça ou a cavalo, pela trilha. Os homens de uniformes cinzas, então, num grupo de uns trinta cavaleiros, começaram a se movimentar, cavalgando na direção da fazenda.
O delegado percebeu que alguma coisa aconteceria. Fosse o que fosse, iria acontecer em breve. Nada havia que ele pudesse fazer, a não ser observar.
Depois de tudo que havia acontecido nas últimas horas, o delegado federal tinha razões para acreditar que toda aquela movimentação tinha algum sentido, embora ele não conseguisse percebê-lo.
Aquelas emboscadas haviam sido preparadas para afastá-los do caminho. O que gerava confusão era saber quem estava por trás delas.
Reconhecia que Riley e ele tinham inimigos dos dois lados, pois aplicavam a lei sem preferências pessoais por este ou aquele lado.
Oates afirmava a todo momento, inclusive, que, para ele, não havia um lado vencedor e um perdedor naquela cidade, agora que a guerra tinha terminado.
Muita gente, no entanto, não se convencia disso. Essa intolerância era o motivo de muitas desavenças e das brigas quase que diárias ainda.
Para melhor observar o que acontecia na Fazenda Graceland, foi apanhar seu potente binóculo de campanha na sela do cavalo. Escolheu uma posição à sombra onde poderia observar e ficou atento.
Observou melhor os homens de cinza que haviam se aproximado e estavam a uma distância prudente da fazenda.
Conhecia muito bem aqueles uniformes: eram do Exército Confederado.
Na fazenda, sobre uma carroça, o leiloeiro, vestido de preto, se preparava para iniciar o leilão. Próximo dali havia um boi inteiro sendo assado. Os leilões em Atlanta e em todo o Sul haviam se transformado numa grande fresta para a gente do Norte, que vinham, cada vez em maior número,
com suas malas recheadas de dinheiro, comprando terras e mais terras a um preço aviltante.
De repente, uma confusão ao redor do leiloeiro. Os cavaleiros de cinza avançaram, então, dominando a situação e cercando todo os presentes.
— Demônios! — praguejou o delegado, quando viu os soldados rebeldes desarmando os poucos soldados da União.
Depois, com uma frieza inesperada, enfileiraram todos eles contra a parede de um celeiro e fuzilaram-nos sumariamente.
Aquele era o tipo de intolerância que o deixava aborrecido, só que nada havia que pudesse fazer. Se
estivesse lá, com certeza também seria morto, pois os do Sul não aceitavam o fato dele ter prestado juramento à bandeira americana, após o término da guerra.
Estava acontecendo um grande roubo na Fazenda Graceland. Todos estavam sendo despojados de suas carteiras, de seu dinheiro e de suas jóias.
Algumas mulheres foram levadas para o celeiro, sob protestos dos homens, que foram derrubados a coronhadas.
Com certeza seriam violentadas.
Os homens foram empurrados para um depósito e trancados. O boi que assava ao fogo foi o alvo seguinte dos soldados confederados, que resolveram transformar aquilo numa festa particular.
Oates viu algo, então, que lhe chamou a atenção. Podia jurar que era o xerife o homem que confabulava com um grupo de oficiais rebeldes, bem destacados pelo tipo de chapéu que usavam, ao invés do quepe dos demais.
Dois deles montaram seus cavalos. Um recebeu uma grande sacola. Ambos deixaram a fazenda rapidamente, rumando na direção de Oates.
— O que há para este lado? — indagou-se ele, olhando ao redor.
A única coisa que lhe passou pela cabeça foi que naquela direção ficava a fazenda decadente do Coronel Woodfarm, o herói confederado de Atlanta, que em breve acabaria sendo leiloada, como todas as outras da região.
De qualquer forma, ficou curioso para saber o que aqueles homens levavam.
O ataque transformara-se numa festa. As mulheres divertiam forçadamente os homens. A comida e a bebida que fora preparada para os nortistas estava sendo consumida pelos sulistas. Os dois cavaleiros avançavam agora pela trilha, na direção mesmo da Fazenda Woodfarm.
Oates apanhou seu cavalo e adiantou-se a eles, até uma curva. Pegou seu laço, amarrou-o numa árvore e esticou-o, passando a outra ponta por uma pedra.
O laço ficou esticado, a meia altura, logo após a curva.
Vindo em velocidade, os cavaleiros não teriam tempo de qualquer ato de defesa, pois quando percebessem estariam sobre ele.
Armou-se de sua Winchester e esperou. Ouviu o galope se aproximando. Os cavaleiros vinham à toda pela trilha.
Quando fizeram a curva, os cavalos bateram as pernas contra o laço, desabando numa nuvem de poeira.
O delegado viu a bolsa voar no ar e cair pesadamente, abrindo-se e revelando seu interior. Havia ali carteiras, relógios, jóias e muito dinheiro nortista, em maços de toda espessura.
O produto do saque era uma pequena fortuna, talvez mais dinheiro do que ele vira em toda a sua vida.
Um dos homens, ainda aturdido, levantou-se e, cambaleando, tentou entender o que estava acontecendo. Ao ver o delegado federal próximo dele, tentou reagir.
— Oates, seu maldito traidor bastardo! — vociferou, tentando sacar sua arma.
O delegado não lhe deu chance de sacá-la. A coronha da Winchester atingiu a testa do soldado sulista, jogando-o de costas na poeira.
Oates viu uma sombra se mover atrás dele e se voltou a tempo de ver o segundo soldado, tentando sacar sua arma.
Não podia deixar que ele atirasse, pois poderia atrair a atenção dos homens na fazenda.
Por isso, lançou-se sobre ele, caindo os dois na poeira.
Oates socou-o no queixo repetidas vezes, até que ele se imobilizasse. Amarrou-os, então. Depois foi examinar a mala feita de tecida, uma "carpetbag", ou bolsa feita de carpete, usada pelos homens do Norte.
Havia mesmo uma pequena fortuna ali e o interesse do delegado era saber por que eles a levavam naquela direção.
Foi examinar os cavalos. Nenhum deles se machucara na queda. Apanhou os cantis de água e foi acordar os dois soldados, jogando-lhes água na cara.
— Oates, seu maldito! Você deveria estar morto, seu renegado — disse um deles, olhando o delegado com ódio e se debatendo, tentando se livrar da corda que o prendia.
— Se falar desse jeito de novo, eu lhe quebro todos os dentes da boca — rugiu Oates. — Para onde iam com aquela sacola?
— Jamais saberá.
— Iam levá-la ao Coronel, não?
— Vai pagar por isso, Oates...
— Está falando demais para o meu gosto — ameaçou Oates. — Será que ainda não percebeu sua situação? Aliás, será que ainda não percebeu a minha situação? — emendou.
Os dois sulistas se olharam, sem entender.
— Estou com uma pequena fortuna naquela mala e os únicos que sabem que ela está comigo são vocês... Se eu ficar com ela, não vou querer que ninguém saia por aí abrindo o bico e dizendo o que eu fiz... Assim, algum de vocês tem uma pá no cavalo? Senão, vão ter de cavar com as próprias mãos...
— O que quer dizer com isso? — indagou um deles.
— Que terei de matá-los, rapazes. É simples, não? Ali tem mais dinheiro do que ganharei em toda a minha vida — continuou Oates. — Não posso perder essa chance. Não pretendo passar o resto de minha vida servindo de alvo para gente do Norte e do Sul.
— É um miserável renegado, Oates! Um ladrão!
— Não serei melhor do que vocês.
— Que causa?
— A gloriosa causa do Sul...
— Ao diabo com o Sul! Não percebem que o Sul está morto? Que seus despojos estão sendo disputados por vermes vindos de todo o país? Que não será possível lutar contra isso?
— indignou-se o delegado.
— Fala isso porque é um covarde, que se vendeu...
Não chegou a terminar. Oates acertou-o na boca, jogando-o para trás. O soldado caiu, cuspindo pedaços de dentes e sangue.
— Não estou com muita paciência para lidar com vermes agora — falou Oates. — Principalmente depois do que vi lá embaixo. Gloriosos soldados matando gente a sangue-frio e atacando mulheres. Isto é o que sobrou da glória do Sul?
Sem dizer mais nada, Oates apanhou sua faca e cortou o laço em duas partes. Começou a trançar um macabro nó de forca no primeiro pedaço, depois fez o mesmo no outro.
Os dois soldados olhavam-no apavorados. Ele passou as cordas pelo galho de uma árvore, depois trouxe os cavalos dos soldados para perto.
— O que vai fazer? — indagou um deles, apavorado.
— Vou mostrar como devem ser tratados os covardes e assassinos...
— Não pode fazer isso conosco... — berrou um deles, quando Oates o agarrou pelos colarinhos, fazendo-o se levantar.
— Eu lhe digo o que pode ou não ser feito...
— Temos direito a um julgamento justo...
— Tiveram, quando fuzilaram aqueles homens lá embaixo e atacaram aquelas mulheres.
O soldado tentou protestar. Oates acertou-o no estômago, depois o carregou, jogando-o sobre a sela do cavalo. Passou o laço em seu pescoço, depois esticou a corda.
— Espera, Oates, vamos conversar — disse o outro, de quem o delegado tinha quebrado alguns dentes.
— O que tem para me dizer? — perguntou, erguendo-o e levando-o para a sela do outro cavalo.
— Espere, Oates... Não pode fazer isso... Eu falo... Eu digo tudo que quiser saber...
Oates já havia passado o laço pelo pescoço dele. Esticou a corda. Escolheu um galho caído no chão, limpou-o das folhas secas, improvisando um chicote.
— Oates, pelo amor de Deus! Não pode nos matar assim!
Você foi um dos nossos... Pelos velhos tempos...
O delegado parou, como se pensasse. Ficou agitando a vara em sua mão, fazendo-a assobiar. Os cavalos se moveram inquietamente diante daquele barulho.
Ele olhou para os dois.
— O que acham que podem me contar que lhes salvará a vida? — perguntou.
— O que você quiser saber.
— Para começar, para onde iam com a mala de dinheiro?
— Levar para o Coronel...
— Muito bem! Nosso herói se transformou num ladrão — comentou ele. — Sabem alguma coisa das emboscadas contra mim e Riley.
— Não, disso não sabemos de nada.
Examinou-os. Pareciam sinceros. Conhecia aqueles dois.
Haviam servido juntos sob o comando do Coronel. Eram homens de confiança e leais não à causa rebelde, mas fiéis ao comando do Coronel, que sempre fora, naquela região, uma figura de peso, uma lenda viva realmente.
Se estavam de novo metidos em escaramuças, não o faziam por vontade própria, mas por lealdade ao velho militar.
— O que mais estão preparando? — indagou.
— Não sei... Recebemos ordens de atacar Graceland... Só isso... Talvez haja mais coisas... Não sei... — respondeu o homem com os dentes quebrados, ainda cuspindo sangue.
— Vou levá-los presos, rapazes — falou.
— Será o mesmo que nos matar aqui — informou um deles.
— Não se preocupe! O xerife e seus ajudantes tomarão conta de vocês...
Os dois homens se olharam apavorados.
— Quando ele souber que falamos, estaremos mortos — disse um deles, num fio de voz, confirmando as suspeitas do delegado.
— Por quê? — insistiu. — Porque o xerife estava mancomunado com vocês durante o ataque? Porque eu o vi junto com os oficiais, antes de vocês montarem para vir para cá?
Os dois abaixaram a cabeça e não precisaram dizer nada.
Apesar de tudo, Oates não conseguia culpá-los. Eram homens de quem tudo fora tirado: a família, as colheitas, a terra, a sobrevivência. Viviam de esperanças, por mais desesperadas que fossem. Eram vítimas dos espertalhões ou de fanáticos como o Coronel.
Só que, por trás daquilo tudo, Oates via um grande golpe.
Um golpe para tornar alguns poucos ricos à custa da miséria dos desesperados.
Olhou-os com pena. A questão agora era saber o que fazer com eles. Se os levasse para o xerifado, com certeza seriam mortos para não falar, como acontecera com Pete, na noite anterior.
Havia uma pequena cela no escritório ocupado pelos delegados federais, mas, com Riley ferido, não haveria como montar guarda todo o tempo. Soltá-los seria outra estupidez.
O elemento surpresa e o suspense a respeito do paradeiro do dinheiro roubado poderiam ser mais úteis naquele momento para ele, enquanto continuava suas investigações.
— Está bem, rapazes, não morrerão agora — disse o delegado, cortando com sua faca o laço do pescoço de um deles.
Quando se preparava para fazer o mesmo com o segundo, o primeiro esporeou seu cavalo, tentando escapar.
— Maldição! — exclamou o delegado.
Sem pestanejar ele arremessou sua faca, cravando-a pouco abaixo da nuca do soldado, que pendeu para o lado e caiu pesadamente na poeira.
— Seu bastardo nojento! — berrou o outro, tocando o cavalo para cima de Oates.
O delegado saltou para o lado. O cavalo avançou e passou rente a ele. O soldado ficou dependurado na ponta da corta, com os olhos esbugalhados e o pescoço grotescamente retorcido.
— Maldição! — praguejou.
Acabava de perder duas importantes testemunhas. Com eles em suas mãos poderia intimidar os conspiradores. Agora nada havia que pudesse fazer.
Pensou em enterrá-los, mas achou melhor não fazer isso.
Iria dar o que pensar quando fossem encontrados, quando não aparecessem com o dinheiro.
Voltou ao seu posto de observação. Os soldados de cinza já haviam saído e uma grande confusão reinava no local.
Pensou em ir até lá, mas já sabia o que havia acontecido e nada poderia mais ser feito para salvar aqueles homens nem evitar o sofrimento e a humilhação daquelas mulheres.
Em parte não deixava de ser um castigo para todos eles, sedentos de diversão, tripudiando sobre aquela terra castigada e sofrida.
Cavalgou de volta para a cidade, mas, antes de chegar lá, arrumou um esconderijo para a mala numa velha mina abandonada. O local era seguro. Oates o conhecia desde garoto, quando brincava por ali.
As notícias do ataque já circulavam. Assim que desmontou diante do escritório, já surgiram pessoas
perguntando se ele sabia alguma coisa a respeito.
— Não sei o que houve — disse ele. — Onde está o xerife?
— Deve estar lá...
— O que houve, realmente?
— Estão dizendo que um exército confederado atacou a Fazenda Graceland...
— Um exército! — surpreendeu-se Oates, notando nos olhos das pessoas um brilho de
esperança.
Era isso apenas o que as mantinha vivas naqueles tempos de humilhação.
— Vou ver isso em seguida. Antes quero ver como está meu amigo — disse, entrando.
O médico vinha saindo. Havia acabado de examinar Riley.
— Eu disse que ele era forte como um touro. Se não o amarrar na cama, ele vai acabar se levantando antes do tempo. Mas, pelo menos, ele está em boas mãos. Tenho certeza que vai se recuperar logo — disse o médico, com um sorriso divertido nos lábios.
— Em boas mãos? Como assim? — estranhou Oates.
— Uma boa enfermeira, boa comida... Vai se levantar logo — confirmou o médico, rindo e saindo.
Oates foi até o quarto de Riley conferir o que estava acontecendo.
Parou na porta, surpreso, quando viu quem estava com o ferido, dando-lhe sopa na boca.
— Rose! — exclamou.
Apertando-a em seus braços e beijando-a, Oates nem tentava se lembrar mais de quantas e quantas vezes sonhara com aquela cena. A mesma coisa acontecia com Rose.
Desde que a guerra terminara e que fora dada oportunidade aos soldados e oficiais rebeldes de jurarem fidelidade à bandeira da União, Oates passara a ser hostilizado pelos seus ex-companheiros de batalhas.
Para Rose aquilo fora terrível, porque a afastara dele por algum tempo. Oates fora para Washington, onde acabara sendo nomeado Delegado Federal.
Ele mesmo insistiu para ser mandado para Atlanta, uma cidade que a maioria dos outros delegados evitava.
— Oh, Deus! Como eu sonhei com isso! — murmurou ela, com os olhos brilhantes e o corpo trêmulo de emoção.
— Oh, Rose! Fique comigo!
— Não posso...
— E por que não?
— Meus amigos...
— Nossos amigos, não se esqueça. Quero o bem deles, mas não da forma como eles querem obter isso. Atacaram a Fazenda...
— O que soube sobre o ataque?
— Eu não soube, Rose. Eu estava lá.
Ela demonstrou surpresa, olhando-o com atenção, apalpando-o para se certificar de que ele não estava ferido.
— Como conseguiu sair com vida?
— Não participei do ataque. Estava numa colina, observando tudo. Nada pude fazer. Eles simplesmente fuzilaram os soldados, sem lhes dar chances de defesa...
— Meu Deus! Perderam a razão!
— E atacaram as mulheres. Estão agindo como os loucos de Quantrill. Não são soldados, são animais recalcados, assassinando e violentando, Rose. Temos que detê-los.
— Estão fazendo isso por dinheiro, Oates. Vão arrecadar fundos para pagar as dívidas dos fazendeiros e evitar que suas terras vão a leilão... Um emissário chegou há pouco,
trazendo o produto do ataque à Fazenda Graceland...
— Como? — surpreendeu-se ele.
— A adega do saloon vai ser usada novamente como esconderijo. Está lá a mala com o
dinheiro roubado...
— Você a examinou?
— Não, e deveria?
Oates ficou intrigado com o que estava acontecendo. Pelo visto, Rose estava sendo enganada. E não apenas ela. Todos os que confiavam nos planos loucos de ressurgimento do
Sul.
A guerra estava irremediavelmente perdida e aquelas terras eram agora devastadas por abutres de todos os tipos.
— Rose, preciso examinar essa mala.
— Por quê? Sabe que não posso. Seria loucura! Traição!
Eu seria morta por isso... — surpreendeu-se ela.
— E se eu lhe garantir que não há dinheiro nela?
A garota olhou-o desconfiada, mas sem entender o que poderia estar se passando.
— Como pode afirmar isso?
— A mala com o produto do roubo está bem escondida agora. Eu a tirei dos emissários que a levavam para o Coronel.
Ela recuou, olhando-o atônita.
— Fala sério?
— Sim, eu a escondi.
— Nesse caso, o que há naquela mala que escondi na adega?
— Acredito que não encontrará nada de valor lá.
— Neste caso...
— Acho que está sendo enganada, querida. Você e todos os outros. Desconfio que o produto do roubo, não apenas desse, mas de todos os outros que seguramente serão cometidos, não irá ajudar fazendeiros ou qualquer outro necessitado.
— Meu Deus! Como puderam pensar em semelhante traição?
— São os tempos, querida. Poderia me deixar ver essa mala?
Ela hesitou por instantes. Se fossem apanhados juntos, examinando aquela mala, seria o fim para os dois.
Por outro lado, a suspeita que Oates lançar sobre a sinceridade dos planos do Coronel e de seus comandados era terrível demais para não ser apurada.
— E tem mais, Rose. O xerife participou pessoalmente do ataque. Estava lá todo o tempo, enquanto os soldados ianques eram fuzilados e as mulheres eram violentadas.
Deve chegar daqui a pouco à cidade com uma história bem fantástica.
— Está bem — concordou ela. — Vamos até o saloon, disse ela, decididamente.
Os dois saíram juntos. Algumas pessoas os viram e se surpreenderam. Eles pegaram seus cavalos e cavalgaram para o saloon.
Quando haviam atravessado a divisa entre as duas partes da cidade, foram barrados pela aproximação do xerife com seus ajudantes. O homem da lei ficou surpreso ao ver Rose na companhia do delegado federal, mas não se manifestou a respeito.
— Atacaram a Fazenda Graceland, mataram os soldados, violentaram algumas mulheres...
— informou o homem da lei, fazendo um ar solene e grave.
— Quem atacou, xerife? — indagou o delegado.
— Guerrilheiros...
— Rebeldes?
— Sim... Roubaram uma fortuna — afirmou, olhando na direção de Rose.
Percebia alguma coisa estranha nela. Não via ali aquele olhar de cumplicidade que conhecia, mas uma inesperada acusação, como se Rose o olhasse com asco.
— Se eram guerrilheiros e mataram soldados da União, só há uma coisa a fazer neste caso — falou Oates.
O que via no olhar dela deixava-o muito preocupado.
— Pedir a implantação da Lei Marcial novamente na cidade e solicitar a vinda de um destacamento da Cavalaria.
— O quê? — surpreendeu-se o xerife, percebendo que aquela medida jogaria por terra todos os planos feitos pelo Coronel.
A presença dos soldados ianques representava um perigo inesperado para qualquer ação mais ousada. Os soldados rebeldes seriam caçados com a mesma animosidade que motivara aquela guerra.
— Deveria pensar melhor nisso, delegado. A presença de soldados ianques na cidade pode ser uma ameaça à ordem e encarada como uma provocação...
— E a cada vez que um deles circulasse pelas ruas com seu uniforme azul, seria considerado um alvo por algum rebelde encima de um telhado, não?
— Já passamos por isso antes, delegado. Pense bem, por favor — insistiu o xerife. — Agora temos que ir. Se quiser discutir melhor o fato, estarei em meu gabinete.
O homem da lei e seus ajudantes se afastaram, dobrando uma esquina. Rose e Oates continuaram seu caminho.
O xerife, porém, preocupava-se com o que vira na expressão de Rose. Assim que saíram das vistas dos dois, ele se deteve.
— Don e Billy, quero que vocês sigam aqueles dois e vejam o que vão fazer — ordenou.
— Quer que tome alguma providência em relação ao delegado?
— Não, ele não me preocupa no momento. Vai pensar duas vezes, antes de chamar os soldados. Também não quer a cidade em pé de guerra. O que me preocupa é Rose. O que ela fazia com ele, assim abertamente?
— Está bem, xerife. Vamos seguí-los — afirmou Don, fazendo um sinal para Billy.
Os dois se afastaram e o xerife esporeou seu cavalo.
Esperava encontrar Robert Woodfarm a sua espera no gabinete para discutirem os últimos acontecimentos e o sucesso do primeiro ataque.
Enquanto isso, Rose e Oates chegavam ao saloon. Assim que desmontaram, alguns homens diante do prédio já se puseram em guarda.
O delegado demonstrou que estava ali em paz, mantendo suas mãos próximas das armas, no entanto. Rose arrastou-o para dentro do saloon.
Assim que entraram, os homens se levantaram e ficaram na porta, olhando com curiosidade o que se passava lá dentro.
Burt, o sócio de Rose, surpreendeu-se ao vê-la com o delegado.
— O que está havendo, Rose? — indagou.
— Venha comigo, Burt. Você poderá testemunhar algo abominável — disse ela, apanhando um lampião e acendendo-o.
— Aonde vai? — quis ele saber.
— À adega!
— Espere! - pediu ele, olhando-a assustado.
Sabia que a mala contendo o produto do ataque estava escondida lá dentro. Seria um risco para Rose levar o delegado federal lá dentro.
— Não se preocupe, Burt. Se estamos certos, não há dinheiro naquela mala — falou ela, entendendo a preocupação dele.
— Como?
— É isso mesmo o que você ouviu — falou ela, caminhando na frente dos dois.
Os homens na porta do saloon haviam ouvido aquilo, inclusive Don e Billy, que se olharam surpresos.
— O que faremos? — indagou Billy.
— Vá avisar o xerife do que está acontecendo aqui — ordenou Don.
— E você?
— Eu vou ficar e observar. Não estou gostando do que está acontecendo. Segundo o xerife, o dinheiro estaria em segurança aqui, no saloon, com Rose. Se estamos sendo enganados, quero saber quem está por trás disso, Billy.
— Está bem, vou avisar o xerife, então.
Rose e os dois homens desceram por uma escada, até uma grande porta feita com pranchas de madeira maciça. Burt se adiantou, abrindo-a. Entraram na escuridão fria da adega.
O lampião iluminou garrafas dispostas em estruturas de madeira, caixas e teias de aranhas. A garota foi até uma dessas estruturas de madeira e puxou-a.
Oates se apressou em ajudar. Atrás daquela espécie de estante havia uma caverna, que se estendia sob o saloon.
Caminharam alguns passos, até uma mesa. Sobre ela estava a mala.
Com gestos nervosos, Rose desamarrou os laços que a fechavam, depois abriu-a.
— Eu sabia! — afirmou Oates.
Burt estava perplexo, sem entender. Vira quando os emissários haviam trazido aquela mala, informando que era o produto do roubo na fazenda. Só via ali, agora, papeis
velhos, gravetos e folhas secas.
— E o dinheiro? — indagou ele, atônito.
— Acho que todos vocês estão sendo enganados — falou Oates.
— Maldição! O que significa isto, afinal? — perguntou Rose, indignada com aquilo.
— Temos abutres dos dois lados, querida. Ambos estão rapinando esta terra e sua gente
— informou Oates.
— Os outros precisam saber disso — disse Burt.
— Mas temos que fazer isso de forma a não provocar uma revolta. Já basta o que fizeram na fazenda, matando soldados e violentando mulheres. Isso já é suficiente para que a Cavalaria seja mandada para cá, com funestas conseqüências. É hora de apaziguar, não de fomentar o ódio.
Todos terão muito a perder com um recrudescimento nas hostilidades.
— Oates tem razão, Burt. O povo tem direito de saber o que está se passando, mas deve deixar para a lei as providências. Não temos mais aqui um caso de revolta
popular, mas de uso das esperanças do povo em proveito próprio.
— Não será uma tarefa fácil — reconheceu Burt.
— Eu farei isso. Todos me ouvirão, tenho certeza — afirmou a garota.
O xerife entrou sorridente em seu gabinete, ao perceber que Robert estava ali a sua espera. Foi direto a um armário para apanhar uma garrafa de uísque e comemorarem.
— Seu estúpido! Onde está o dinheiro? — indagou Robert, furioso.
— Como? — retrucou o homem da lei, olhando-o surpreso, sem entender aquela fúria inesperada.
Robert já estava junto dele, olhando-o nos olhos, com o dedo em riste quase enfiado em seu nariz.
— Tínhamos combinados que o dinheiro seria mandado para a nossa fazenda... — ia dizendo Robert.
— Mas foi o que fizemos...
— Mentira! Ele não chegou lá.
— Mandamos dois homens... Mas... O que está havendo afinal? Onde foi parar todo aquele dinheiro? Se aqueles malditos...
— Encontramos dois homens mortos no caminho. Um estava com uma faca em suas costas. O outro foi enforcado.
Eram Ted e Simon. Seriam esses os emissários?
Os olhos do xerife estavam arregalados. Ele se lembrou do olhar de Rose e da determinação do delegado federal, quando cruzara com eles na rua.
— Espere um pouco, Robert — disse o xerife, pensativo.
— Meu pai está possesso com o que aconteceu. Esperava sentir esse dinheiro em suas mãos...
— Se Ted e Simon foram mortos, alguém roubou esse dinheiro deles...
— E quem sabia que esse dinheiro estava sendo mandado para a fazenda, além de você e alguns oficiais? Para todos os outros, o dinheiro estava sendo mandado para ser oculto por
Rose, no saloon, não?
— Está insinuando que algum de nós...
— Não se trata de insinuação, xerife. Algum de nós nos traiu e roubou todo aquele dinheiro...
Naquele momento, Billy entrou no gabinete esbaforido.
— Que diabos está havendo, Billy? — indagou o xerife, exasperado.
— Alguma coisa está acontecendo lá no saloon, xerife.
Rose levou o delegado federal para lá. Estão dizendo que não há dinheiro na mala que foi escondida por ela...
O xerife e Robert empalideceram, trocando olhares atônitos e raivosos.
— Reuna o pessoal, Billy — ordenou o xerife.
— Demônios! Como ele descobriu isso?
— Não tenho a menor idéia. Só sei que teremos muito trabalho para explicar ao povo o que está acontecendo. O ataque e sua finalidade já devem ser do conhecimento de todos eles. Não teremos como evitar uma revolta contra nós...
— Espere, xerife... Vamos manter a calma... Tem certeza que não se enganou com as malas, mandando a que tinha o dinheiro para Rose?
— Absoluta!
— Neste caso, temos de ser espertos...
— Não haverá esperteza que nos livre da fúria de nossa gente, quando descobrirem o que
— Não se preocupe. O ódio aos ianques sempre será maior do que qualquer coisa. Podemos fazer o feitiço se voltar contra o feiticeiro — falou Robert, tentando pensar como seu pai naquele momento.
— O que tem em mente?
— Se o dinheiro foi mandado para Rose e sumiu, ela tem que dar conta dele. Principalmente se ela nos traiu, aliando-se ao renegado Oates Fordd, um bastardo que renegou nossa 
bandeira para servir à da União.
— Acha que pode dar certo?
— Se você instruir corretamente seus ajudantes, eles poderão dar a partida numa manifestação de ódio contra Rose. Vai ser difícil impedir que o povo linche aqueles dois, o que será conveniente para nós todos.
— Pode dar certo... Vou falar com meus rapazes. Eles serão o instrumento que desencadeará o inferno sobre Rose e Oates, livrando, assim, nossa cara.
Quando os três retornaram da adega, trazendo a mala, uma pequena multidão já havia se juntado no saloon.
— Rose, quer nos dizer o que está havendo? —indagou alguém. — O que esse renegado está fazendo aqui?
— Eu lhes digo o que está havendo — falou Oates,
apanhando a mala e jogando-a no meio do salão.
Seu conteúdo espalhou-se, diante dos olhares surpresos de todos.
— É isso o que está havendo. Vocês estão sendo usados com falsas esperanças. Têm que entender que o Sul acabou.
Agora somos parte da União e é assim que será de agora em diante...
— Cale a boca, renegado! — gritou um dos presentes.
— Eu lhe mostro quem é renegado — disse Oates,
saltando sobre ele.
Agarrou o homem pelo pescoço e socou-o no nariz, fazendo o sangue espirrar.
Os outros foram em auxílio do amigo, caindo sobre Oates e derrubando-o com socos e pontapés.
Rose apanhou a cartucheira que ficava atrás do balcão e disparou um tiro para o alto, abrindo um rombo no forro.
— O próximo que se mexer ou tocar num fio de cabelo de Oates, vai se haver comigo — ameaçou ela e todos tinham certeza que ela cumpriria a promessa. — Oates não é um renegado. Pelo contrário, está fazendo por nossa cidade muito mais do que vocês querem admitir. Ao jurar lealdade à bandeira da União ele apenas foi inteligente diante de uma situação que não poderemos mais mudar... Temos de admitir: a guerra acabou e fomos derrotados. A Confederação do Sul não existe mais. E Oates poderia ter ido para qualquer parte do país, mas preferiu voltar para cá e nos ajudar a entendermos o que havia acontecido.
Um silêncio doloroso pairou no saloon, enquanto os homens, cabisbaixos, ouviam o que Rose dizia.
Oates se levantou e caminhou até onde estava a mala com papeis, gravetos e folhas.
— Eis o sonho que restou, pessoal... Estão sendo usados... Estão tripudiando em suas esperanças de voltar no passado... É impossível... Perdemos a guerra...
— Oates está certo, pessoa. — confirmou Burt. — Temos de arregaçar as mangas agora e tentar reconstruir nossas vidas. Ficar se lamentando agora não vai adiantar nada...
O xerife, seus ajudantes e Robert chegaram naquele momento. Todos os olhares se voltaram para os dois.
— O que está havendo aqui? — indagou o homem da lei.
— Nós é que lhe perguntamos isso, xerife — falou Oates, chutando a mala que escorregou pelo assoalho e foi parar aos pés do homem da lei.
— E isto, o que significa? — continuou.
— Como se não soubesse, não é, xerife? — ironizou Rose. — Esta é a mala que os emissários trouxeram para ser escondida. A mala com o produto do roubo na Fazenda Graceland.
Oates percebeu que os ajudantes do xerife se distribuíam pelo saloon. Eram todos ex- combatentes, homens acostumados ao rigor das batalhas e bons no gatilho.
A maneira como se comportavam indicava que estavam seguindo ordens, preparando-se para a ação.
Eram cinco ao todo e pela maneira como se distribuíram, seria impossível para Oates acertá-los com rapidez.
Teria de atingir uns dois ou três, depois procurar um esconderijo. O problema era afastar Rose do caminho.
— Não sei do que está falando — falou o homem da lei, abaixando-se para examinar o conteúdo da mala.
Oates se aproximou de Burt.
— Tente tirar Rose da linha de tiro. Acho que isto aqui vai pegar fogo — falou-lhe o delegado.
— Certo, tentarei. Tenho uma arma comigo. Se precisar de ajuda...
— Terá que atirar contra seus amigos, como Billy ali na frente, Don à direita, Thomas, ao fundo...
— Diabos!
— Apenas tire Rose do caminho e deixe o resto comigo, está bem?
— Não sei do que está falando, Rose — afirmou o xerife, levantando-se e encarando a garota.
Robert, ao seu lado, estava lívido e tremia de indignação.
Todo o plano poderia ir por água abaixo, por causa daqueles dois malditos.
— Mas eu sei, xerife. Eu estava numa colina próxima da fazenda. Eu vi o ataque. Eu vi os soldados sendo fuzilados e as mulheres sendo violentadas. Eu os vi mandando o dinheiro para
a fazenda do Coronel... Robert deve saber onde está o dinheiro.
Todos os olhares se concentraram no filho do coronel, o herói que passara toda a guerra num campo de prisioneiros.
— Não sei do que está falando — gaguejou Robert, recuando alguns passos.
A multidão já era compacta atrás deles.
— Acho que podem abrir o jogo, pessoal — falou Oates.
— Como sei do que o xerife fez, dos crimes que foram cometidos hoje em Graceland e do dinheiro que foi roubado, acho que não sairei vivo daqui. Assim, Por que não contam a eles o que aconteceu com o dinheiro? — propôs Oates.
A multidão silenciosa concordou com movimentos de cabeça e olhares interrogativos.
Burt conseguira levar Rose para o outro extremo do balcão, deixando a linha de tiro livro. Oates já analisara suas ações. Balearia dois dos ajudantes, os mais próximos e mais perigosos, depois se esconderia atrás do balcão.
Billy, um dos ajudantes, estava inquieto. Seu pai e seus irmãos haviam morrido na guerra. Ele, mais do que todos, tinha motivos para odiar os ianques e todos os que se ligavam a eles, como o delegado federal.
Não podia admitir, porém, que a memória de seus mortos em batalha fosse usada para fins tão mesquinhos.
— Ele tem razão, Robert. Se o que ele afirma é verdade, temos de reconhecer que é um homem morto mesmo. Assim, onde está o dinheiro? — quis ele saber.
O rapaz encolheu-se, olhando o xerife com apreensão. O homem da lei percebeu que a situação começava a se inverter.
— Acho que temos de perguntar isso a Rose — devolveu o xerife. — O dinheiro foi entregue a ela, ela tem que dar conta.
— Pois aí está ele, a seus pés, xerife — disse ela.
— Estão sendo enganados, rapazes. Rose e esse renegado estão nos enganando. Pegaram o dinheiro e...
— O dinheiro foi mandado para a casa do Coronel e não chegou lá. O que houve com O xerife olhou-o nos olhos, compreendendo tudo. Oates tinha observado todos os acontecimentos e seguido os
emissários, roubando-lhes o dinheiro.
— Bastardo! — rugiu ele. — Foi você, não?
— E quem mais poderia ter sido? — retrucou o delegado.
— Fogo nele, rapazes! — ordenou o xerife, levando sua mão à arma.
Oates percebeu a indecisão dos ajudantes, chocados com aquela dúvida que pairava no ar.
Concentrou sua atenção no xerife e em Robert. Este, ao ver o xerife sacando, imitou-o.
O delegado federal teria que tentar não podia matar aqueles homens porque não sabia qual seria a reação daquela multidão diante dele.
Assim, sacou velozmente sua arma e atirou no ombro direito do xerife e no quadril de Robert, antes que os dois conseguissem sacar suas armas.
— Maldição, rapazes! Atirem nele! — ordenou a seus ajudantes, mas Oates já os tinha sob sua mira.
Todos o haviam visto sacar. Sabiam que ele era rápido e tiveram uma demonstração ali, diante dos olhos. Ninguém iria se arriscar a enfrentá-los, principalmente após o que haviam tomado conhecimento.
— Muito bem, rapazes, vejo que perceberam a voz da razão — comentou Oates, indo até os dois feridos e desarmando-os. — Vou nomeá-los ajudantes federais agora.
Temos de levar estes dois...
— Deixe-os aqui, Oates! Sabemos o que fazer com eles.
Vão dançar na ponta de uma corda — gritou alguém.
— Não, pelo contrário. Acho que a lei deve prevalecer agora. Estes homens têm de ser julgados para servir de exemplo a todos os aproveitadores — sentenciou o delegado.
A multidão concordou, muito embora alguns estivessem anda indignados com a ação de Robert e do xerife.
Riley já estava bem melhor e fora para a cadeia, fazer companhia ao seu amigo e aos ajudantes. O clima na cidade estava tenso. Oates telegrafara pedindo um destacamento da Cavalaria, que ainda não chegara.
— Deveria ter deixado que a multidão os linchasse lá no saloon — comentou Rose.
— Teria nos poupado aborrecimentos, tenho certeza, mas estaríamos atrasando a chegada da lei e da ordem à cidade.
— Só que agora estamos pior do que antes — comentou Riley. — Agora todo mundo quer nos matar. Os rebeldes, para tirarem o xerife e Robert daqui e lincharem-nos. Os ianques, porque estamos protegendo os homens que participaram do ataque a Graceland. E como se não bastasse tudo isso, temos o Coronel e seus homens fiéis a ele ainda, ameaçando atacar a cidade para resgatar o filho e nos matar.
O que mais nos falta agora?
— Fique calmo, Riley. A situação não é desesperadora ainda. A Cavalaria vai chegar logo...
— Tomara!
Naquele momento, gritos lá fora indicaram a chegada de encrenca.
— Rose, é melhor sair pelos fundos e ficar longe — recomendou Oates.
— Nem pensar — afirmou ela, apanhando uma Winchester e engatilhando-a.
Um grupo de homens, em esfarrapados uniformes do Exército Confederado, faziam um protesto.
— Queremos os traidores! — gritavam eles.
Oates ia sair para tentar apaziguá-los, quando um bando de cavaleiros surgiu. Eram ianques, revoltados com o ataque a Graceland.
Uma briga se iniciou no meio da rua, diante da cadeia.
— Demônios! — praguejou Oates, apanhando uma Overland de dois canos e saindo.
Disparou uma vez para o ar.
— Se não pararem com isso agora mesmo, vou ser forçado a usar isto contra vocês — disse ele, recarregando.
Os homens na rua pararam. De repente, toda a cidade ficou em silêncio. As cabeças se voltaram na direção do fim da rua. Ali, um pequeno exército a cavalo se organizava.
ã frente deles, num cavalo branco imponente, no seu uniforme de batalha completo, o Coronel Woodfarm em pessoa liderava um grupo de fanáticos.
— Oh, droga! — murmurou Oates, retornando para o interior da cadeia. — Vamos fazer uma barricada nas portas e janelas. O Coronel está chegando com seus homens. Se
vocês quiserem sair, rapazes, não os impedirei — disse aos ajudantes.
Os homens se olharam.
— Achamos que estamos do lado certo agora, Oates.
— Certo, rapazes! Vamos nos preparar. Eles devem ser uns trinta homens mais ou menos, contra nós sete...
— Oito! — corrigiu Rose, manobrando a Winchester com familiaridade.
Barricadas foram postas nas portas e janelas. A rua diante da cadeia ficou vazia. O grupo de soldados confederados avançou sem oposição.
Pararam e desmontaram, sob as ordens do Coronel. Um homem, após receber instruções, avançou rapidamente pela rua, até diante da prisão.
— Oates, o Coronel manda que você solte Robert e o xerife. Caso contrário, será obrigado a ordenar o ataque.
— Pois volte e dia a ele que eu mandei que ele se entregasse. Caso contrário, terei que ir prendê-lo.
O soldado olhou-o intrigado, como se julgasse Oates um louco.
— Vá lá e diga a ele — insistiu Oates.
— É loucura! — falou o soldado.
— É loucura o que vocês estão fazendo. Não há chances.
Neste momento, um destacamento da Cavalaria está chegando à cidade. Vocês não terão chance. Serão caçados e exterminados como animais perigosos. Tenho certeza absoluta que eles não farão prisioneiros.
O soldado hesitou. Havia dúvida em seu rosto. Ele puxou as rédeas do cavalo e cravou-lhe as esporas, retornando para junto do Coronel.
— E então? — indagou o militar.
— Ele não vai se render, senhor...
— E o que mais? — insistiu o Coronel, percebendo que o soldado tinha mais alguma coisa a dizer.
— Ele mandou que o senhor se entregasse...
O coronel riu e fez um sinal para seus homens. Parte deles começou a avançar pela rua, ocupando janelas e portas, entrando pelos becos, subindo nos telhados.
O restante ficou ao lado dos cavalos, esperando as ordens.
O Coronel esperou até que os homens se posicionassem, depois levantou seu sabre e deu sinal.
Um cerrado tiroteio se abateu contra a cadeia. As balas arrebentavam os vidros das janelas e tiravam lascas da porta, que foi sendo cravejada de projéteis.
Nas grossas paredes de tijolos, as balas batia com violência e encravavam-se, abalando os alicerces, fazendo toda a construção tremer.
— Mantenham-se abaixados! — gritou Oates, enquanto as balas entravam pelas janelas e iam arrebentar tudo que encontravam pelo caminho.
Os prisioneiros estavam protegidos no corredor das cela e não seriam atingidos. Oates pensou que um bom lugar para eles seria ali, na frente, servindo de alvo para as balas que choviam, vindo de toda parte.
De repente, o tiroteio cessou e um silêncio mortal pairou sobre a cidade.
Olhando rapidamente pela janela, Oates viu os homens deixando suas posições e correndo na direção dos outros.
— O que está havendo? — quis saber Rose.
Oates desobstruiu a porta e saiu para olhar. Os homens do Coronel haviam acabado de montar seus cavalos. De um lado e do outro da rua, fechando a passagem deles, haviam soldados da União, desmontados e postados em posição de tiro, com suas armas apontadas.
O Coronel, em seu cavalo, analisava a situação.
— Renda-se, Coronel! — gritou-lhe Oates, percebendo que não havia saída para o velho militar.
— Nunca! — respondeu ele.
— Não vai conseguir passar — afirmou, entendendo o que ele queria fazer.
Seria uma manobra de fuga desesperada, indo direto para os atiradores e tentando passar a todo custo.
Poderia dar algum resultado em campo aberto, mas ali estava encurralados.
— Não, Coronel, não faça isso! — insistiu Oates.
O militar olhou-o de longe, prestou-lhe continência, depois sacou o sabre e posicionou-o no ombro.
— Carga! — gritou ele, esporeando seu cavalo, seguido por seus homens.
O grupo foi se desfazendo pela rua, na medida que avançava e era recebido por tiros, ao mesmo tempo em que tinha sua retaguarda sob ataque.
— Oh, Deus! — murmurou Rose, abraçando-se a Oates.
O último dos confederados a cair foi justamente o Coronel. Seu cavalo avançou por alguns metros ainda, depois fez a volta e retornou, parando ao lado do corpo crivado de balas.

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS