CAPÍTULO DOIS
Aquela prometia ser mais uma daquelas longas e malditas noites de ronda naquele território selvagem, o mais perigoso, o mais temido e o mais assustador da cidade, uma terra de
ninguém separando perdedores de vencedores.
Os dois delegados tinham, ainda, uma razão especial para detestar aquele trabalho, naquela região. O Xerife Jefferson não via com bons olhos aquilo que ele julgava como uma intromissão da União nos negócios da cidade.
A presente dos dois federais criava um problema de jurisdição, principalmente considerando que os dois estavam onde a encrenca acontecia, enquanto, para sua felicidade ou infelicidade, o xerife estava sempre no canto oposto.
Assim, com caras de poucos amigos o xerife e seus auxiliares tiveram de ouvir o cobrador de impostos derramar elogios sobre a atuação dos delegados federais, os únicos com competência para tornar as ruas de Atlanta seguras para um cidadão honesto.
— Veremos se vai se sentir dessa forma, quando a situação mudar — murmurou o xerife, entredentes.
O Delegado Oates Fordd ficou pensativo, demonstrando a preocupação nas rugas que vincavam sua testa.
O xerife não gostava deles, isso era um fato incontestável e os dois sabiam disso. Estava sempre preparando algo para tornar mais difíceis a vida e o trabalho deles. Algo lhe dizia que o xerife sabia de algo que eles ainda não sabiam.
— Ele o deixou preocupado, Oates. O que foi? —
perguntou Riley.
— Esse sacana está sabendo de algo que não sabemos.
— E você acha que pode ser o quê?
— Não sei ainda, mas vou descobrir.
— Como?
— Pensarei em algo. Vou ao restaurante tomar um café.
Vamos comigo?
— Particularmente eu preferiria um uísque, depois dessa agitação toda. A cada dia isto aqui se torna mais perigoso.
Essa gente está desesperada, meu amigo.
Caminhavam pela rua, puxando seus cavalos, deixando para trás o xerife e seus homens para limpar toda a sujeira.
Um negro com os cabelos cortados bem curtos, roupas sujas e esfarrapadas, apontou a cabeça num beco, chamando por Oates.
Os dois foram até ele.
— Ei, Oates, está acontecendo alguma coisa lá para os lados do rio — disse ele.
— E o que é, Pete "Noite Escura"?
— Não sei dizer, mas havia muitos homens... Gente com armas e uniformes...
— Alguma briga?
— Não, mais parecido com festa.
— Pete é muito esperto para ter ido ver de perto...
Bastante gente... Carroças e cavalos... Grande festa, com certeza.
— Se era uma festa, por que não foi até lá, Pete?
— Pensa que sou louco? — retrucou o outro, rindo e estendendo a mão.
— Onde foi isso, Pete?
— Na Mansão O'Brien, sabe onde é?
— Sim, acho que sim, Pete. Obrigado pela informação — disse, enquanto punha uma moeda na mão estendida.
Pete sumiu para dentro do beco.
— O que acha que pode ser? - indagou Riley.
— Não sei, mas adoraria dar uma olhada.
— Pena que já acabou, não?
— Talvez encontremos alguma coisa ainda... O que me diz? — indagou, olhando para o parceiro
Era aquilo que tornava Oates um delegado eficiente.
Nada o intimidava. Aquela sua maldita curiosidade o levava a qualquer lugar, não importavam os riscos e Riley já perdera a conta das encrencas em que os dois já haviam se Oates fizera pergunta apenas por fazer. Riley já o conhecia bem. Ele fazia pergunta e já tratava de pô-la em prática, montando seu cavalo. Riley tratou de fazer o mesmo.
Seu amigo já galopava a sua frente.
* * *
Todo o andar de cima da casa estava destruído. A parte de baixo havia sido precariamente adaptada para oferecer um mínimo de conforto.
Nas paredes, pedaços retalhados de telas e pinturas indicavam o bom gosto dos moradores daquela mansão. Os lampiões acesos não lembravam em nada o brilho antigo, quando os candelabros de cristal iluminavam soberbamente as paredes luxuosamente decoradas, os tapetes e cortinas
vindos direto de Paris, além dos móveis maciços e finamente entalhados por mãos hábeis.
A mesa posta com um resto de luxo era ocupado por apenas um velho, servido por uma equipe de dois fiéis e antigos criados, velhos demais para entenderem o significado da libertação. Swam Woodfarm chegava aos sessenta anos com grande vitalidade e uma lucidez impressionante para sua
idade.
Havia lutado várias batalhas e conseguido muitas vitórias, mas caíra na batalha final de Kennesaw, quando os confederados ofereceram a última e decisiva resistência, antes da queda de Atlanta.
A derrota fora um golpe violento em seu orgulho. Já não tinha mais a vitalidade de antes e não conseguia se adaptar àquela vida de privações. Para um homem como ele, habituado ao luxo e ao comando, ver-se naquela condição quase de um mendigo era doloroso demais.
Por isso vinha preparando seu filho, Robert Woodfarm, para levar adiante aquele plano.
Havia relutado em prepará-lo, mas os dias de miséria tornavam-se cada vez mais dolorosos para ele. Aquela poderia ser sua última chance de sair daquela situação de penúria e recuperar a honra e a riqueza perdidas.
— Bom trabalho, filho — disse-lhe o velho, assim que Robert chegou.
— Pelo menos neste início, tudo aconteceu conforme havia previsto, meu pai.
— Eu tinha certeza que seria assim — afirmou o velho.
— Continuo curioso, no entanto, para saber o que tem em mente com tudo isso.
— Agora posso lhe contar, meu filho. Essas ações contra os ianques, bem planejadas, vão tornar esse tesouro que pretendo amealhar muito grande, o bastante para darmos o fora daqui, meu filho. Há terras boas e baratas na Califórnia e no Oregom. É para lá que iremos, recuperar a tradição do
nome Woodfarm.
Os olhos do rapaz brilharam de cobiça.
— Pensou nisso mesmo, pai?
— Sim, vamos tirar dos ianques o que eles tiraram de nós...
— Mas os outros...
— Os outros são soldados e soldados dão a vida, sem esperar recompensa, Robert. Serem roubados pelos ianques ou por nós, não fará nenhuma diferença para eles.
— Entendo! Parece-me um bom plano, pai.
— E seu trabalho vai ser importante para o sucesso de tudo isso, filho.
— Farei minha parte, pai. Pode ter certeza — garantiu o rapaz, apanhando de novo seu chapéu.
— Vai sair?
— Sim, vou tomar um trago com os rapazes.
— Cuide-se, filho. Não aceite provocações dos ianques, mas não volte para casa trazendo uma ofensa.
— Entendido, pai — afirmou ele, saindo.
Lá fora o esperavam três de seus melhores amigos.
— E então, Robert? — indagou um deles.
— Eu estava certo o tempo todo. O velho e seu grande plano vão nos render um verdadeiro tesouro. E o melhor é que não vamos ter que repartir o tesouro — comentou ele enquanto montava.
— E nós, onde entramos nisso, Robert? — quis saber um outro.
— Apenas fiquem do meu lado, rapazes, e não se arrependerão — prometeu ele.
— Onde vamos? Algum lugar em especial, Robert? — indagaram.
— Vamos dar uma volta, enquanto conversamos. Depois vamos ao Saloon da Rose, ainda é cedo para ir para lá.
Um deles tirou uma garrafa de uísque do alforje, estendendo-a para Robert, que tomou um gole, saboreando a bebida, enquanto pensava. A perspectiva de retornar àquela vida de luxo e de conforto de antigamente agradava-o muito.
Principalmente sabendo que iria fazê-lo às custas dos malditos ianques.
* * *
Um grupo de nortistas, acompanhados de duas garotas, retornava da igreja a pé, quando foi abordado por um bando de sulistas a cavalo. Os confederados, após a derrota, haviam dolorosamente aprendido a suportar as zombarias e a humilhação.
Tudo estava sob controle, até que um dos cavaleiros inclinou-se e enfiou a mão pelo decote de uma das garotas.
Ela reagiu furiosamente, cuspindo no rosto dele.
Imediatamente os cavaleiros atiraram seus animais para cima do grupo. Não satisfeitos, desmontaram e começaram a chutar e esmurrar os homens caídos na poeira. As garotas ficaram possessas, começando a gritar no meio da rua.
Ninguém apareceu em socorro delas, embora, atrás das portas e janelas, muita gente assistia à cena.
Os sulistas tentaram correr, apesar de espancados. Os nortistas apanharam seus cavalos e foram no encalço deles, empurrando-os contra um beco sem saída. Ali desmontaram e recomeçaram a bater nos seus inimigos.
Todas as armas dos sulistas haviam sido confiscadas. Se um deles fosse apanhado usando uma arma, mesmo que fosse um canivete, era preso e severamente punido.
Por isso um deles havia relutado, mas ser chutado como um cão e sentir suas costelas sendo partidas foi demais para ele. De sob seu sobretudo ele retirou uma espingarda de dois canos. Os canos e a coronha haviam sido cortados, tornando-a fácil de portar e esconder, mas com um poder de fogo violento a curta distância.
Ele engatilhou a arma e apontou-a na direção de seus agressores. Apertou os dois gatilhos ao mesmo tempo A poderosa descarga atingiu em cheio o rosto de um dos atacantes, fazendo sua cabeça sumir em meio a uma nuvem de sangue, miolos e cabelos.
Os outros tentaram fugir. Um deles, porém, sacou seu Colt e começou a disparar.
O primeiro disparo arrebentou uma vidraça em algum ponto lá atrás. Outros dois homens sacaram espingardas semelhantes, disparando-as na direção do bando que tentava abrigar-se atrás de uma carroça.
— Vão me pagar caro por esta surra — dizia o rapaz, enquanto remuniciava sua espingarda.
O homem com o Colt na mão disparou o segundo tiro, atingindo-o no peito e jogando-o para trás.
Uma das garotas ergueu sua saia e retirou dali um pequeno Derringer, de dois tiros. Disparou contra o ianque, no momento em que um de seus amigos também disparava sua espingarda de caso serrado.
O ianque foi jogado para o alto e para trás, caindo com os braços abertos e um rombo enorme no peito.
— Malditos! Pegaram meu amigo — gritou um ianque, saindo detrás da carroça e correndo para o beco, disparando um rifle.
Um dos sulistas levantou sua Overland de canos serrados e disparou, atingindo-o em cheio. Ele jogou os braços e a Winchester para o alto, enquanto era empurrado para trás.
As garotas começaram a disparar também contra os homens atrás da carroça. Elas usavam Derringers, que seguravam com ambas as mãos, enquanto disparavam sem muita pontaria àquela distância, mas arrancando lascas da carroça ou arrebentando vidraças atrás deles.
Nas casas ao redor, as pessoas deitavam-se no chão, buscando proteção contra aquele inferno de chumbo.
Um dos nortistas havia conseguido apanhar seu rifle na sela do cavalo e começou a responder ao fogo, sem atingir ninguém. — Bastardos! — falou uma das garotas, apanhando uma
das tochas que iluminavam a rua.
Arremessou na direção da carroça. A garrafa caiu sobre a madeira, jogando fagulhas para todo lado, mas continuando a arder e espalhando rapidamente o fogo.
— Malditos rebeldes! — berrou um deles, tentando apagar as chamas, batendo com seu colete, mas incendiando-o e jogando o fogo sobre seus amigos.
Eles trataram de fugir dali, tentando correr para longe da carroça.
Um dos sulistas cortou-lhes o caminho com sua espingarda engatilhada e apontou-a para eles, disparando os dois canos sem piedade.
A carga especialmente reforçada abriu-se num leque mortal, atingindo todo eles e derrubando-os. Alguns ainda ficaram se contorcendo na poeira, com as roupas em chamas.
As garotas aproximaram-se e foram imobilizando-os com certeiros disparos de Derringer na cabeça.
Os corpos ficaram imóveis, ardendo macabramente no meio da rua. Um dos sulistas soltou o grito de guerra rebelde, no momento em que Oates e Riley, atraídos pelo tiroteio, dobravam a esquina a galope.
— Que diabos é isso? — indagou Riley, surpreso, olhando aquelas estranhas fogueiras ardendo no meio da rua.
A resposta veio em seguida com uma série de disparos na direção deles.
— Oates, acho que não nos convidaram para esta festa — gritou Riley, saltando do cavalo e indo ocultar-se do outro lado da rua.
— Diabos, esta noite promete — comentou Oates, erguendo a sua Winchester e disparando de volta.
Sua pontaria foi certeira. Três tiros acertaram em sequência o corpo de um dos atiradores, jogando-o contra uma parede. Quando escorregou para o chão, deixou uma trilha de sangue na madeira.
— Filho de uma cadela!... Maldito! — gritou uma das garotas, mirando sua pequena arma na direção de Oates.
— É uma garota, Oates! — alertou Riley.
O delegado hesitou por instantes. Era mesmo uma garota confederada, com os cabelos soltos, correndo na direção dele com uma Derringer em cada mão.
Riley percebeu a indecisão do amigo e disparou sua Overland contra a garota, jogando-a para trás, sobre o corpo em chamas de um nortista.
A outra garota começou a correr na direção de Riley, que tratou de remuniciar sua arma.
— Pegue-a, Oates! Pegue-a ou ela vai me acertar — pediu Riley, atrapalhando-se para recarregar a espingarda.
— Diabos! — praguejou Oates, apontando o rifle na direção da garota que corria pela rua.
Jamais vira uma imagem tão impressionante. A garota parecia fora de si, disparando e remuniciando com rapidez as armas que tinha mas mãos.
— Atire, demônios! — insistiu Riley, no momento em que Oates apertava o gatilho.
Riley viu, na sua frente, a garota ser puxada para trás por uma força invisível. Seu corpo arrastou-se na poeira, ficando imóvel, numa posição grotesca e retorcida.
O disparo secionara sua espinha e abrira um rombo em sua barriga, jogando para fora tudo que estava lá dentro.
Riley respirou aliviado, enquanto remuniciava sua espingarda, engatilhando-a em seguida. Avançou na direção dos corpos que se espalhavam pela rua. Oates seguiu-o, após recarregar sua arma também.
— Pensei que não fosse atirar - comentou Riley.
— Era uma mulher...
— Pois então não pense nela como uma mulher. Pense nela como uma assassina, que é o que ela era, na verdade.
Você já tinha visto coisa assim antes?
O tropel de cavalos aproximando-se indicava que o xerife e seus auxiliares, com certeza, se aproximavam.
Como sempre, apareciam só quando o tiroteio cessava.
— O que temos aqui? — indagou o homem da lei.
— Uma besta a cavalo! — respondeu Oates.
— Muito engraçado, delegado! Não acha que já teve
encrenca demais para uma só noite?
— insistiu o policial, desmontando.
Os curiosos chegaram em seguida. Oates e Riley foram examinar a cena da tragédia e tentar entender o que havia acontecido, seguidos pelo xerife.
— Muito bem, pessoal: que diabos aconteceu aqui? — indagou o xerife às pessoas que saíam das casas, ainda com olhar assustado.
Mais tochas foram acesas, iluminando macabramente o cenário de morte.
— Os nortistas provocaram os nossos, xerife. Começaram a surrá-los. Um dos rapazes sacou uma espingarda e começou um tiroteio. Estavam se saindo bem, até que chegaram os dois federais — explicou uma das pessoas.
Riley, percebendo que Oates afastara-se para não demonstrar sua irritação para com o xerife.
— Foi isso mesmo, Oates?
— Sim — antecipou-se Riley. — Ouvimos o tiroteio e viemos ver o que estava acontecendo, quando alguém atirou em nós e revidamos, atirando de volta — explicou.
Espero que esteja falando a verdade, Riley. Seria uma pena ter de puni-los por excesso de força...
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