terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Abutres humanos - Capítulo 01



CAPÍTULO UM

O fim da Guerra de Secessão transformara o Sul dos Estados Unidos numa terra de injustiças, onde vigorava apenas uma lei, a lei dos vencedores.
Os homens e famílias que haviam defendido o Exército Confederado, quando voltaram, encontraram suas terras invadidas e saqueadas, as colheitas perdidas, as casas queimadas.
Quando tentaram se reerguer, voltando a cultivar suas lavouras produtivas, a União aplicou- lhes o golpe final, que foi a cobrança de impostos atrasados.
Ninguém tinha dinheiro nem como pagar. Os compradores de terra, mancomunados com cobradores de impostos e banqueiros, começaram a comprar por míseros níqueis terras que valiam uma fortuna.
Sem suas terras, os confederados tornaram-se exilados dentro de seu próprio país. Muitos foram para o Oeste, tentar  esquecer os horrores da guerra e reiniciar suas vidas. Outros, porém, preferiram ficar e tentar, de alguma forma, combater aquela injustiça, enfrentando os abutres humanos.
Na cidade de Atlanta, apesar da apressada reconstrução iniciada pelos homens do Norte, que vinham comprando sistematicamente as propriedades, notava-se muito bem essa injustiça.
A linha férrea que cortava a cidade dividia-a como se fossem dois países diferentes. De um lado o Norte, progressista, em pleno desenvolvimento, onde o dinheiro corria com facilidade.
Do outro lado, a marginalização de famílias inteiras, morando em casas semi-destruídas, vivendo dos restos que os vencedores atiravam aos cães.
Famílias que haviam sido parte da nobre aristocracia do sul do país eram agora mendigos e derrotados. A cidade viviam como uma bomba, prestes a explodir a qualquer momento. Para manter a ordem e sob equilíbrio a tênue divisão entre os dois mundos completamente diferentes,
apesar de separados apenas pela linha férrea, a União mandara para lá dois delegados federais.
Cabia a eles zelar para que aquela revolta latente que pairava sobre a cidade não explodisse a qualquer momento.
Tudo parecia tranquilo naquela noite calma de verão, mas os dois homens da lei sabiam que tudo aquilo poderia explodir como uma panela de pipoca. A ronda noturna era o momento de maior tensão para os homens que patrulhavam a rua que separava os dois territórios. De um lado os
confederados vencidos e, do outro, os ianques vencedores e arrogantes.
Poucos delegados federais haviam se sujeitado àquele trabalho. Mesmo os detetives da Pinkerton evitavam toda e qualquer ação na derrotada e amargurada Atlanta.
Poucos, como Oates e Riley se sujeitariam àquele trabalho. Eles o faziam por uma curiosa coincidência. Um deles servira no Exército Confederado; o outro, no Ianque.
Viviam naquela tensão como haviam vivido a guerra, lutando contra seus medos interiores, atirando nas chamas dos rifles escondidos na escuridão, torcendo para que a bala
desgarrada acertasse o artilheiro do canhão que poderia mandá-los para o inferno.
E torciam para que o medo, de repente, não invadisse suas veias, quando o próprio demônio dissesse a senha do dia, convidando-os para a eternidade.
Oates parou o cavalo numa esquina. Segurou firme a rédea, contendo o ímpeto do fogoso animal, depois apenas tocou a espora em seu flanco, fazendo-o retomar o caminho.
— Já conseguiu domá-lo? — quis saber Riley.
— Não, e jamais o farei. Um animal como este tem que
ter instinto e reações próprias. Não pode depender só do meu comando, ele tem que se antecipar — respondeu Oates, de olho na carruagem que passava ao lado deles.
As janelas eram de madeira e estavam fechadas, apesar do calor. Apenas uma delas tinha uma pequena abertura, por onde escapava fumaça de um gostoso charuto do Alabama.
— Quem acha que está ali? — indagou Riley, percebendo a preocupação do amigo, enquanto se detinham e observavam.
— Acho que temos um coletor de impostos, voltando para a cidade com a bolsa cheia — respondeu Oates, retirando o rifle Winchester que estava ao lado da sela e pondo-o no seu colo.
Atrás daquela carruagem, havia outra. Uma terceira passou e ficou à direita da primeira e, por fim, uma quarta passou pela esquerda. Estavam fechando a primeira carruagem entre as três outras.
Aquilo chamou a atenção dos homens da lei. Riley olhou atentamente para o curioso séquito que seguia pela rua, depois para seu amigo.
A Overland de dois canos e grosso calibre estava em seu colo, carregada com cartuchos municiados com esferas de chumbo e com os gatilhos mais sensíveis de todo o Condado.
— É o que estou pensando? — perguntou Riley.
Oates concordou com um aceno de cabeça. O cobrador de impostos seria assaltado, sem perceber o que estava acontecendo. Tinham de agir logo. Sair em perseguição às três carruagens depois era o mesmo que suicidar-se. Com certeza iriam para a zona confederada da cidade e, ali, seria loucura persegui-los.
— Vamos começar a brincadeira fazendo tiro ao alvo? 
— indago, engatilhando o seu rifle.
— Não vejo outra saída — falou Riley, fazendo o mesmo com sua espingarda.
— Não sabemos quantos estão dentro daquelas carroças
— respondeu Oates.
— Só há um jeito de descobrir — disse Riley, esporeando seu cavalo e emparelhando-se com a carruagem que ia atrás das outras, no meio da rua.
Uma janela se abriu e ele viu surgir o cano de um fuzil confederado. Freou seu cavalo e disparou o rifle contra a porta da carruagem. O poderoso projétil varou a porta de madeira e atravessou o homem que segurava a arma. O cocheiro havia sacado um Colt e o apontava contra Riley.
Oates disparou sua espingarda de baixo para cima, pegando o cocheiro mas costas e jogando-o para o alto. O homem gemeu e foi cair na poeira da rua, estrebuchando.
Outro pistoleiro surgiu na janela, apontando uma espingarda. Riley fez um rombo na porta da carruagem e o pistoleiro foi jogado para o outro lado.
A carroça que ia à frente disparou pela rua, seguida pelas duas outras, uma de cada lado. Oates esporeou seu cavalo e avançou, até poder atirar num dos cavalos. O animal tropeçou, ferido mortalmente, e caiu, fazendo a carruagem capotar numa nuvem de poeira. O cocheiro caiu longe, com o pescoço quebrado.
Imediatamente dois homens com fuzis saíram da carruagem semi-destruída. Riley passou por eles, em disparada, atirando com sua espingarda. Simplesmente fez sumir a cabeça de um deles com um disparo, enquanto Riley atingia o outro em pleno peito, jogando-o alguns metros para trás.
— Malditos! — gritou o cocheiro da terceira carruagem, com um Colt na mão.
Começou a disparar, arrancando o chapéu da cabeça de Riley.
— Proteja-se Riley — gritou Oates, apontando na direção do atirador, enquanto nas janelas da carruagem surgiam mais duas armas apontadas para eles.
Riley agiu instintivamente. Após tanto tempo trabalhando com Oates, sabia como o parceiro agia. Abaixou-se na sela e, sob o pescoço do cavalo, disparou um tiro em cada um dos homens na carruagem. Oates tinha seu rifle apontado na direção da carruagem. No momento em que Riley se
abaixou, apertou o gatilho, com incrível pontaria.

O cocheiro jamais soube o que o atingiu. Seu peito tingiu- e na hora de vermelho e ele voou para o meio da rua. O cavalo andou um pouco mais, depois, sem condutor, parou docilmente no meio da rua.
As poucas pessoas que ainda estavam na rua sumiram.
Todos sabiam que ali era a terra de ninguém, separando a União dos Confederados, vencedores dos vencidos.
O cheiro de pólvora foi levado rapidamente pela brisa que soprava. Ainda em alerta, Oates desceu do cavalo, seguido pelo parceiro.
Escondidos atrás das janelas dos prédios, sulistas e nortistas observavam o fim do tiroteio, uns com alívio, outros com rancor.

* * *

A grande mansão abandonada, na margem leste do Rio Chattahoochee parecia preparado para uma guerra. Eles haviam começado a chegar ao local antes do anoitecer.
Equipes de homens fortemente armados circulavam pelos aposentos, enquanto grupos caminhavam ao redor mantendo severa vigilância.
O telhado havia sido ocupado. Duas canoas patrulhavam os fundos, ancoradas no rio. Carroças haviam sido espalhadas ao longo da estrada, todas com homens armados com fuzis, espingardas ou Colts.
Robert Woodfarm, o filho do patriarca da família, o Coronel Swam Woodfarm, comandava pessoalmente a operação, toda ela montada pelo seu pai.
Às oito da noite, tudo estava preparado para o aguardado
encontro. De um lado, representando os fazendeiros sulistas
despojados de suas terras, estava Luther "The Dog" Masden; do outro, falando pelos comerciantes de tabaco e ex-proprietários de barcos principalmente, estava Titus Warspite.
Luther chegou pontualmente. A carroça parou no local indicado pelos homens da segurança.
— Olá, Robert! — cumprimentou, ao ver o rapaz parado na porta da mansão.
— Luther, é bom ver você! — disse Robert, apontando o interior da sala, onde uma mesa havia sido preparada para a reunião.
Caminharam até lá. Luther olhava atentamente ao redor, observado todo o esquema de segurança montado.
— Quando me disseram que vocês estavam por trás disso, não hesitei — comentou Luther.
— A nossa situação e a de nossos compatriotas torna-se mais desesperadora a cada dia.
— Para nós era uma questão de honra fazer alguma coisa contra esse estado de coisas, Luther.
— Agradeço a iniciativa de vocês — falou Luther, com reconhecimento.
O líder dos fazendeiros tomou seu lugar na mesa, sobre a ual havia um grande mapa, representando a região de Atlanta. Os dois conversaram sobre as injustiças que vinham se sucedendo, enquanto aguardavam a chegada do terceiro participante da reunião, que chegou logo depois. Ninguém faltaria a um encontro tão importante, principalmente se convidado pelo Coronel Woodfarm.
Angus Warspite desceu do cavalo com seu sobretudo cinza, usando todas as insígnias e medalhas que recebera por sua participação na guerra fratricida. No pescoço tinha o lenço vermelho, símbolo dos guerrilheiros de Quantrill.
Robert foi recebê-lo e acompanhá-lo até à mesa, onde Luther esperava-os.
Quando o outro se aproximou, Luther levantou-se.
Olharam-se com um ódio que já durava muito tempo, tempo demais até. Um ódio que não tinha mais sentido agora.
Brigar e matar-se já não mais fazia parte das vidas daqueles homens. O Coronel julgava que isso poderia ser transformado num acordo entre os dois líderes. Para eles, a paz entre os confederados representaria um grande passo para o ousado plano que vinham acalentando: expulsar do
Sul aqueles abutres que vinham sugando a vitalidade daquela gente derrotada e desmoralizada.
A ideia era resgatar o orgulho sulista e mandar os ianques de volta para o lugar de onde vieram.
— Bem, cavalheiros, o fato de estarem os dois aqui significa que entenderam nossos argumentos, mostrando-se dispostos a negociar não? — falou Robert.
— Você nos prometeu grandes realizações. — disse Luther.
— Estamos esperando, pode falar — acrescentou Angus.
— A ideia de meu pai é simples. Vamos parar de brigar entre nós mesmos e começar a brigar contra os nortistas.
Titus tem experiência e treinará os homens em táticas de  guerrilha. Luther organizará uma rede de esconderijos e fornecimento de comida, camas e munição entre os fazendeiros. Vamos agir principalmente contra os Bancos sulistas, os cobradores de impostos e os leiloeiros, que vendem nossas terras em praça pública. Vamos começar a recolher nosso tesouro, amigos. Com ele nas mãos,
pagaremos os impostos e compraremos de volta nossas terras. Veremos se esses sulistas sanguessugas vão querer continuar por aqui, quando começarmos a devolver-lhes o fogo, o ferro e o sangue com que nos têm tratado até agora.
Estão entendendo?
Os dois líderes olharam-se por instantes. O que Robert dizia tinha alguma lógica, mas já fora tentado antes. Não havia como combater aquela horda de invasores arrogantes e prepotentes, com suas carteiras cheias de dinheiro e a conivência dos cobradores de impostos e juízes.
Angus comentou isso. Luther concordou com ele. Robert sorriu matreiramente, lembrando- se que seu pai pensara naquilo também.
— Podemos maximizar nossas ações e vitórias, fazendo os ianques brigarem entre si.
— Como assim? — insistiu Angus.
— Vamos arrumar para eles um motivo para se matarem.
Se começarem a se preocupar com eles mesmos, vão nos deixar em paz por algum tempo, o suficiente para nos organizarmos.
Luther e Angus trocaram um olhar de visível entendimento. A ideia de Robert tinha sentido. A questão agora era descobrir como fazer isso.
Os dois olharam ao mesmo tempo na direção de Robert.
— Como faríamos isso? — indagou Titus.
— Nós temos um inimigo comum — mencionou Luther.
— Alguém que nos incomoda e aborrece tanto quanto aborrece e incomoda os sulistas... Os Delegados Federais...
— Exato! — confirmou Robert.
— Sim, aqueles dois malditos! — lembrou Luther.
— Principalmente aquele bastardo do Delegado Oates Fordd.
— Esse é o pior de todos.
— Gostaria de pôr minhas mãos nele.
— E eu de arrancar-lhe o coração com as próprias mãos...
Diante deles, Robert olhava-os com satisfação. Havia conseguido uni-los em torno de um objetivo, conforme seu pai havia previsto. Os dois importantes representantes já mostravam que havia ainda orgulho e vontade de lutar dentro deles.
— Perceberam, senhores, como isso pode ser feito? —
observou ele.
Os dois se voltaram para ele. Pensaram por instantes, depois começaram a rir.
— Sim, percebemos — comentou Angus.
— Você e seu pai têm toda razão, Robert — acrescentou
Luther. — Só que Oates e Riley são dois apenas e logo serão mortos...
— Mas a ideia é não deixar que isso aconteça. E fazê-los provocar a ira dos nortistas contra eles, infernizar-lhes as vidas ao máximo, mas não matá-los. Eles serão mais úteis vivos. Perceberam?
Desta vez os dois não demonstraram estar muito certos do que Robert pretendia.
— Eles serão importantes para fomentarmos o ódio contra os delegados federais.
— Acho que estou entendendo — falou Titus. — Canalizando a preocupação e o ódio para os federais, iniciaremos ações que darão a entender que são eles agindo contra os nortistas. Eles canalizarão toda a raiva e a agressividade dos nossos invasores, perceberam?
— É... Tem lógica — comentou Angus.
— Só que, mesmo assim, cedo ou tarde, alguém vai pegá-lo — mencionou Angus.
— E então, quantos outros virão para substituí-los?
Dizem que os delegados federais são como praga daninha.
Se você mata um, meia dúzia aparece ao redor.
Compreenderam?
Os dois olharam-se por instantes, depois começaram a balançar suas cabeças num sinal de aprovação.
— Muito esperto — comentou Angus.
— Pode funcionar — concordou Luther.
— Perfeito, senhores. Acho que pegaram bem o espírito de nosso plano — elogiou Robert.
— E quando começaríamos esse plano? — questionou Luther.
— Antes de mais nada, precisamos estabelecer toda a nossa estratégia. Estão conosco nisso?
— Cem por cento — afirmou Luther. — Garanto como todos nossos irmãos fazendeiros vão adorar a simples idéia de poderem resgatar suas terras ou não perder o pedaço que ainda têm.
— E os comerciantes investirão até suas últimas obturações de ouro para retomarem o controle do comércio e da navegação fluvial na região.
— Temos um acordo então, cavalheiros? — indagou Robert, pondo sua mão aberta acima da mesa, com a palma para baixo.
Angus e Luther mediram-se por instantes. A velha desavença entre eles tinha mais sentido.
Depois, com decisão, Titus pôs sua mão sobre a de Robert e Luther, a dele sobre a de Angus.
— Bebamos a isso, meus amigos — falou a voz forte e inconfundível de Swam Woodfarm, surgindo no algo da escadaria, com seu uniforme confederado de gala, coberto de medalhas e insígnias.
Titus Warspite pôs-se em pé e, em sinal e respeito e honra, prestou continência ao velho e experiente militar, que começou a descer os degraus, fazendo um sinal para um de seus homens.
Uma porta se abriu. Um grupo de homens apareceu, com copos e garrafas, levando-os para a mesa. Os homens ao redor sorriam satisfeitos.
— Hoje é um dia que ficará para sempre gravado na história deste país, meus irmãos. Hoje foi o dia que declaramos nossa guerra contra a União dos Estados Unidos e decretamos a criação do Estado Livre da Geórgia.
Os homens aplaudiram entusiasticamente. Rolhas saltaram. Copos foram enchidos e erguidos, num brinde emocionado.
— Ao Estado Livre da Geórgia! — gritou o coronel e todos responderam com a mesma saudação.

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS