domingo, 9 de maio de 2021

Voo noturno - Capítulo 03 e 04

O ruído daquele motor longínquo tornava–se cada vez mais denso. Chegava ao extremo. Acenderam-se as luzes. As lâmpadas vermelhas das balizas descobriram um hangar, postes de T. S. F., um terreno quadrado. Era a preparação duma festa.

"Ei-lo!"

O avião já fora apanhado pelo facho de projetores. Brilhava como se fosse novo. Mas, quando por fim parou em frente do hangar e enquanto os mecânicos e os operários se apressavam para descarregar o correio, o piloto Pellerin não se moveu. "Então, o que é que você espera para descer?"

Entregue a algum misterioso trabalho, o piloto não se dignou responder. Provavelmente, escutava ainda o ruído do voo que o trespassava. Abanava lentamente a cabeça e, inclinado para a frente, manipulava não se sabia o quê. Por fim voltou-se para os chefes e para os camaradas, e olhou-os, gravemente, como se fossem propriedade sua. Parecia estar a contá-los, a medi-los, a pesá-los e pensava que, sem dúvida, representavam o seu premio, assim como aquele hangar em festa, aquele cimento firme e, mais longe, aquela cidade com o seu bulício, as suas mulheres e o seu calor. Segurava aquele povo com suas mãos fortes, como súditos, pois podia tocá-los, ouvi-los e insultá-los. Pensou primeiro em insultá los por estarem ali tão sossegados, sem receios pelas suas próprias vidas, gozando o luar. Mas foi generoso:

"… Vão pagar-me uma bebida!"

E desceu.

Quis contar a sua viagem :

"Se soubessem…’"’

Achando, decerto, ter dito o suficiente, foi–se, para despir a jaqueta de couro. No momento em que o carro o transportava a Buenos Aires, em companhia dum inspetor soturno e de Rivière, silencioso, Pellerin sentiu-se entristecer: é uma coisa agradável vermo-nos livres de tudo e proferir umas boas injúrias ao pôr de novo o pé em terra. Que grande alegria! Mas depois, quando nos lembramos, duvidamos nem sabemos de quê. A luta no meio do ciclone era, ao menos, uma coisa real, uma coisa limpa ao contrário do semblante das coisas, daquele semblante que elas tomam quando se julgam sós. Pellerin pensava :

"É tal qual uma revolta: semblantes que empalidecem apenas um pouco, mas que se transformam completamente".

Fez um esforço para se recordar.

Transpunha, tranquilo, a cordilheira dos Andes. As neves hibernais pesavam sobre ela com toda a sua paz. As neves hibernais tinham imposto a paz àquela massa, como os séculos a impõem aos castelos abandonados. Numa área de duzentos quilômetros, nem um homem mais, nem um sopro de vida, nem um esforço. Só arestas verticais, que as asas roçam a seis mil metros de altitude, e mantos de pedra, cortados a pique, e uma extraordinária e imensa tranquilidade.

Foi nas imediações do pico Tupungato. . .

Refletiu. Foi realmente nessas paragens que ele assistiu a um milagre.

Porque nos primeiros momentos não viu nada, sentindo-se apenas contrafeito, como alguém que se julgasse só, já não o estivesse e se sentisse vigiado. Viu-se, demasiado tarde e sem perceber bem como, envolto numa onda de cólera. Era isso. Donde proviria ela?

Como percebia que a cólera escorria das pedras e da neve? Pois nada parecia vir ao seu encontro, nenhuma ameaçadora tempestade se vizinhava. Mas, naquele lugar, um mundo, penas um pouco diferente, surgia do outro. Pellerin olhava, com um inexplicável aperto no coração, aqueles cumes inocentes, aquelas arestas, aquelas cristas de neve, apenas um pouco mais cinzentos e que, contudo, começavam a tomar vida — como se fossem um povo.

Sem ter de lutar, ele apertava as alavancas de comando com as mãos. Preparava-se qualquer coisa que não compreendia. Os seus músculos retesavam-se, como os de um animal que se prepara para o salto, mas era certo que perante ele só havia calma. Sim, calma, mas impregnada dum estranho poder.

Depois tudo se tomou cortante. As arestas, os cumes, tudo ficou cortante: sentia-os cortando, como proas, o vento rijo. E, depois, pareceu-lhe que mudavam de rumo e derivavam à sua volta, à maneira dos navios gigantes escolhendo a posição de combate. E depois surgiu, misturada com o ar, uma poeira, uma poeira que subia, pairando docemente como um véu ao longo das neves. Então, buscando uma saída em caso de retirada forçada, Pellerin voltou-se para trás e estremeceu: por trás dele toda a cordilheira parecia fermentar. "Estou perdido."

Dum dos picos, em frente, irrompeu a neve: um vulcão de neve. Depois o mesmo sucedeu num segundo pico, um pouco à direita. E do mesmo modo, todos os picos, um após outro, se inflamaram, dir-se-ia tocados sucessivamente por um invisível estafeta. Foi então que, aos primeiros redemoinhos do ar, em volta do piloto as montanhas oscilaram.

A ação violenta deixa poucos sinais: já se apagara a recordação dos violentos redemoinhos que o tinham levado aos tombos. Lembrava-se apenas de ter-se debatido, raivosamente, no meio daquelas chamas pardas.

Refletiu.

"O ciclone não tem importância nenhuma. Saímos dele com vida. Mas antes dele! Aquele nosso estranho encontro!"

Parecia-lhe reconhecer, entre mil, um certo semblante e, contudo, já o esquecera.

Rivière observava Pellerin. Daí a vinte minutos, quando descesse do carro, gasto e penoso, 0 piloto iria misturar-se à multidão. Talvez pensasse: "Estou cansadíssimo. . . maldita profissão!" E confessasse à sua mulher qualquer coisa nesse gênero: "Está-se melhor aqui do que sobrevoando os Andes". E apesar disso, tudo o que prende os homens tão fortemente desprendera-se dele quase que por completo: conhecera a miséria das coisas. Acabara de passar algumas horas do outro lado da cena, sem ter a certeza de que aquela cidade ofuscante de luzes seria de novo dele. Sem mesmo saber se voltaria a encontrar as amigas de infância, maçantes mas queridas, que são as pequenas imperfeições do ser humano. "No meio de qualquer multidão, pensava Rivière, há homens que não se distinguem dos outros e são prodigiosos mensageiros. E nem eles próprios sabem disso. A não ser que. . ." Rivière temia certos admiradores que, não compreendendo o caráter sagrado da aventura, estragam-na com suas exclamações, tornando menor o homem. Mas agora Pellerin conservava toda a sua grandeza, pois sabia, melhor do que ninguém, o que vale o mundo visto sob certo prisma e afastava de si, com um soberbo desdém, os aplausos vulgares. Por isso mesmo Rivière felicitou-o: "Como foi que você venceu?" E Pellerin entrou-lhe no coração, porque falava do trabalho com simplicidade, considerando o seu voo como um ferreiro considera a sua bigorna.

Pellerin explicou, em primeiro lugar, como vira cortada a retirada. Quase se desculpava: "É certo que não tinha escolha". A seguir não vira mais nada: a neve cegava-o. Mas violentas rajadas salvaram-no, elevando-o a sete mil metros. "Mantive-me, com certeza, rente às cristas durante toda a travessia." Também falou do giroscópio, cuja tomada de ar deveria ser mudada: a neve obstruía-a: "Forma uma camada de geada, percebe?" Mais tarde, outras rajadas fizeram Pellerin tombar e, mais ou menos a três mil metros, surpreendia-se de não ter ainda chocado com alguma coisa. É que já sobrevoava; a planície. "Dei por isso de repente, ao desembocar num céu limpo." Explicou, enfim, que tivera nesse instante a sensação de sair duma caverna.

— Também havia tempestade em Mendoza?

— Não. Aterrei com céu limpo, sem vento. Mas a tempestade seguia-me de perto. Fez a sua descrição porque, dizia, "de qualquer forma era uma coisa estranha". O cimo perdia-se muito alto, nas nuvens de neve, mas a base rolava sobre a planície como uma lava negra. Uma a uma, as cidades iam sendo tragadas. "Nunca vi uma coisa assim…" Depois calou-se, embebido em alguma recordação.

Rivière voltou-se para o inspetor.

— É um ciclone do Pacífico de que fomos prevenidos demasiado tarde. Aliás esses ciclones nunca ultrapassam os Andes.

"Não se podia prever que aquele continuaria para leste."

O inspetor, que não percebia nada disso, aprovou. Mostrando hesitação, voltou-se para Pellerin e o seu pomo-de-adão mexeu. Mas calou-se. Após refletir, olhando fixamente para a frente, recompôs a sua melancólica dignidade.

Esta dignidade ia com ele como uma bagagem. Tendo desembarcado na véspera na Argentina, chamado por Rivière para se ocupar de vagos misteres, o inspetor sentia-se embaraçado pelas suas mãos enormes e pela dignidade do seu ofício. Não tinha o direito de .apreciar a fantasia, nem o estro: apreciava, por ofício, a pontualidade. Não tinha o direito de tomar uma bebida em boa companhia, de tratar por "você" um camarada, nem de arriscar um trocadilho, a não ser que, por um inconcebível acaso, encontrasse na mesma escala um outro inspetor.

"É duro, pensava, ser um juiz." A bem dizer, ele não julgava, contentado-se em menear a cabeça. Ignorante de tudo, a sua cabeça acenava a tudo que vinha ao seu encontro. Isso provocava o pânico nas consciências pouco limpas e contribuía para a boa conservação do material. Ninguém lhe queria bem, pois um inspetor não é criado para as delícias do amor, mas para redigir relatórios. Desde o dia em que Rivière escrevera: "Pede-se ao inspetor Robineau para fornecer relatórios e não poemas. O inspetor Robineau deve usar da sua competência para estimular o zelo do pessoal", ele renunciara a propor, nos seus escritos, métodos novos e soluções técnicas. Por isso, a partir desse dia, Robineau saltava sobre as fraquezas humanas, como se saltasse sobre o pão de cada dia. Sobre o mecânico que bebia, o chefe do campo de aviação que passava noites em claro, o piloto que fazia saltar muitas vezes o avião à aterragem.

Rivière dizia dele: "Não é muito inteligente, por isso mesmo presta esplêndidos serviços". Um regulamento fixado por Rivière representava para este o conhecimento dos homens; para Robineau, porém, só existia a consciência do regulamento.

— Robineau — disse-lhe um dia Rivière — Sempre que haja atraso nas partidas, você deve suprimir os prêmios de regularidade.

— Mesmo em caso de força maior? Mesmo que haja nevoeiro?

— Mesmo que haja nevoeiro.

E Robineau sentia uma espécie de orgulho por ter um chefe tão forte que nem temia ser injusto. E o próprio Robineau ganhava uma certa majestade com um poder de tal forma agressivo.

— Os senhores deram o sinal de partida às leis e quinze — dizia ele, depois, aos chefes do Aeroporto — não poderemos pagar-lhes o premio.

— Mas, Sr. Robineau, às cinco e trinta não se distinguia nada a dez metros de distância!

— Ê o regulamento.

— Mas, Sr. Robineau, nós não podemos varrer o nevoeiro!

E Robineau entrincheirava-se no seu mistério. Ele fazia parte da direção. Entre aqueles paus-mandados, ele era o único que sabia que, infligindo castigo aos homens, se consegue melhorar o tempo.

Rivière dizia a seu respeito: "Este homem não raciocina, o que evita que faça raciocínios errados".

Se um piloto quebrava um aparelho, perdia o direito ao premio atribuído aos que nada danificassem.

— Mas se a pane se verificou sobre um bosque? — perguntara Robineau. — Sobre um bosque também.

E Robineau acatava o estipulado, sem pestanejar.

— Lamento — dizia ele, depois, aos pilotos, | com uma viva exaltação — lamento mesmo muito, mas deveriam ter tido a avaria noutro lugar.

— Mas, Sr. Robineau, não se pode escolher!

— É o regulamento.

"O regulamento, pensava Rivière, assemelha-se aos ritos duma religião, que parecem absurdos, mas moldam os homens." Para Rivière tanto fazia parecer justo ou injusto. Talvez essas palavras nem sequer tivessem sentido algum para ele. Os burgueses das pequenas cidades passeiam à noite à roda do coreto da praça e Rivière pensava: "Justo ou injusto para eles, é coisa sem sentido: essa gente não existe". Considerava o homem uma cera virgem que é preciso amassar. Tornava-se necessário dar uma alma a essa matéria, criar-lhe uma vontade. Não pensava escravizá-los com essa severidade, mas sim liberá-los de si próprios. Ao castigar qualquer atraso, cometia um ato de injustiça mas fazia convergir a vontade de cada escala para a partida; era ele quem criava esta vontade. Não consentindo que os homens se regozijassem com um tempo fechado, que representava um convite ao descanso, obrigava-os a esperar impacientemente pela aberta, e essa espera humilhava secretamente até o mais obscuro dos operários. Estava-se assim atento ao primeiro defeito na armadura: "Aberta ao norte, partida!" Graças a Rivière, numa área de quinze mil quilômetros, o culto do correio tinha a primazia sobre tudo.

Rivière dizia às vezes :

"Esses homens são felizes porque gostam do seu trabalho e se gostam dele é porque sou severo".

Talvez fizesse sofrer os homens mas também proporcionava-lhes grandes alegrias. "É preciso encaminhá-los, pensava, para uma vida rude, que traz dores e alegrias, mas que é a única coisa que conta."

O carro chegava à cidade e Rivière ordenou que o levassem ao seu escritório na Companhia. Ficando só com Pellerin, Robineau olhou-o e entreabriu os lábios para falar. 

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS